Rádio Observador

caderno de apontamentos

Memórias e profecias

Autor
  • José Pacheco

Tentou-se modificar o velho modelo educacional através da gestão democrática. Mas, nos anos 70, o projeto de participação educativa não levou a comunidade para a escola, nem a escola para a comunidade

Nos idos de 1970, através de uma prática radicada no personalismo de Mounier, no ensino individualizado de Dottrens e nos dispositivos pedagógicos legados por Freinet (classe cooperativa, correspondência escolar, imprensa escolar, assembleia, ficheiros autocorretivos…), deixamos para trás o modelo instrucionista da Revolução Industrial. Mas, após abandonar o modelo da ensinagem, com centro na pessoa do professor, ainda era elevada a taxa de insucesso dos alunos.

Ainda na transição entre o paradigma instrucionista e o paradigma da aprendizagem, introduzimos ecléticas práticas herdadas de Cousinet, Decroly, Ferrière, Dewey, Kilpatrick, Montessori, Steiner… Recorremos às taxonomias de Bloom, à pedagogia por objetivos, à metodologia de trabalho de projeto, a tudo o que, supostamente, pudesse garantir a todos o direito à educação. E, em meados da década de 1980, abdicámos, em definitivo, do modelo escolanovista, centrado no aluno.

A saga pedagógica desembocou na utilização de computadores, já no início da década seguinte. Através da introdução das novas tecnologias, intensificávamos a pesquisa, sem desumanizar o ato de aprender. Porém, ainda havia necessidade de reprovar. Alterámos o modelo de gestão, não educando para a cidadania, mas no exercício da cidadania. Criámos uma equipe de educação especial, na intenção de assegurar uma efetiva educação inclusiva. Dispensámos inúteis provas e optámos por uma avaliação formativa, contínua e sistemática, com recurso à elaboração de portfólios. Abrimos caminhos para uma educação integral, aquela que contempla o domínio intelectual, mas também o afetivo, o emocional, o ético, o estético… Mas, ainda havia alunos que não aprendiam. Tomámos consciência de que não havia dificuldades de aprendizagem, mas dificuldades de ensinagem.

Chegara o tempo da psicologização da escola. Universitários recuperavam um Vigotsky requentado e um Piaget readaptado, para chegar a um Bruner dos princípios gerais da aprendizagem. Por outro lado, a “Carta de Barcelona”, o Manifesto da Transdisciplinaridade e os trabalhos de Bordieu, Freire e Giroux levaram-nos a operar nova ruptura paradigmática, a erradicar subtis processos de reprodução escolar e social.

Durante mais de quarenta anos, perseguimos aquilo que parecia ser uma quimera: que todos os jovens aprendessem e fossem felizes. Com intuição pedagógica, amor pela infância e o quanto baste de uma ciência prudente, à custa de muitos erros e fracassos, lançámos os fundamentos de uma nova construção social de educação. A essa nova construção social demos o nome de comunidade, o lugar de uma aprendizagem centrada na relação.

Na condição de diretor de escola e autarca, eu havia tentado modificar o velho modelo educacional pela via de uma gestão democrática. No final da década de 1970, o projeto de “participação educativa” não levou a comunidade para a escola, nem a escola para a comunidade, apenas integrou a escola na comunidade. Mas, decorreriam mais de vinte anos até que a comunidade assumisse a direção da escola. E, somente em 2004, a autonomia da escola foi reconhecida através de contrato celebrado com o ministério da educação.

Nos primórdios do século XXI, rumei ao Brasil. Rubem Alves publicara o livro “A escola com que sempre sonhei”, coletânea de crónicas, impressões da sua visita à Escola da Ponte. E, para além de satisfazer a curiosidade dos professores brasileiros e o interesse manifestado pela academia pelo exotismo do nosso projeto, adentrei a espantosa obra do Agostinho da Silva em terras do Sul. Esse saudoso Mestre foi ícone de passagem para caminhos de transição para um terceiro paradigma: o da comunicação.

Em 2018, começo a escrever nova página deste diário abreviado. Escrevo-a em Brasília, onde a génese de uma nova educação acontece, cumprindo a profecia do Mestre Agostinho. Um artigo publicado, ainda no tempo em que foi professor da Universidade de Brasília, reza assim: Portugal desembarcou na África, na Ásia e na América; só falta a Portugal desembarcar em… Portugal.

Vos asseguro que não tarda o desembarque, no hemisfério Norte, de uma nova educação, que está a ser gestada no Sul.

Fundador da Escola da Ponte
‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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