Algures, no Maio de 68, Jean Yanne terá proferido esta expressão que, depois, mereceu uma canção de Caetano Veloso. Por tudo isso, aquilo que começou com uma frase transformou-se, de certa forma, num slogan. E por causa de toda a sua força chegou até hoje. Mas, entretanto, a propósito da proibição dos telemóveis na escola, os diretores afirmaram que “proibir não rima com educar”. E talvez faça sentido falarmos sobre isto.
- Entendo que os diretores de escola são pessoas preciosíssimas em toda a dinâmica educativa. São eles que permitem que se vá das medidas legislativas à engenharia de bom senso que as torna exequíveis e faz da escola um lugar aberto e, a bem da verdade, sempre melhor.
- Não é mesmo nada fácil esta posição de ponte que os diretores de escola fazem entre o Ministério da Educação e as famílias. Eles não podem deixar de traduzir recomendações centrais em decisões parcimoniosas. E não têm como não representar os interesses dos alunos, das famílias e dos professores o que, em muitas circunstâncias, acaba por exigir equilíbrios muito, muito difíceis.
- É claro que não me parece que se a auto-regulação das crianças (entre os 6 e os 12) diante do uso de telemóveis fosse fácil, os pais e os professores que vivem, muitas vezes, numa dependência acentuada em relação a eles já teriam conseguido libertar-se dela.
- Parece-me razoável, a este propósito, que aceitemos que todos nós educamos com bons exemplos. E que reconheçamos que muitos dos nossos bons conselhos não condizem com os exemplos que damos.
- Mas o que preocupa, de verdade, é esta ideia, tão difundida e tão aceite no nosso tempo, que parece fazer com que seja proibido proibir. Como se autoridade fosse autoritarismo. E como se as proibições a que os pais chegam pudessem quase escorregar para o mau trato.
- Os pais são, todos eles, pessoas inequivocamente bondosas! Mas isso não é incompatível com a proibição como instrumento educativo. Os pais não proíbem por capricho ou de forma discricionária. Mas fazem-no com a convicção de que disso resultem medidas de proteção em relação aos seus filhos.
- As crianças são tão sábias e tão equilibradas que, por mais que não deixem (por vezes) de protestar, entendem que haverá razões nos pais que os levem a proibir este ou aquele comportamento. Se bem que nem sempre elas consigam enxergar todo o alcance das decisões dos pais. Por mais que ao longo dos anos, entendam, melhor que ninguém, a bondade desta ou daquela proibição.
- Por outro lado, os pais não têm que explicar todas as proibições como quem espera uma aceitação para todos os seus actos educativos. Aquilo que, aos olhos dos pais, será um gesto generoso de bondade é, muitas vezes, entendido como uma espécie de pedido de autorização dos pais para exercerem a sua parentalidade. Ora, as decisões dos pais não são erguidas contra os filhos. Mas não é por não merecerem o seu aval que os pais estão contra eles.
- Será, porventura, insensato que os pais proíbam que se brinque com o fogo, que se falte à escola, que se desconsiderem a mãe, o pai ou os avós? Será pouco equilibrado que os pais proíbam que se falte às consultas do pediatra ou do dentista? Atenta contra os direitos das crianças que os pais proíbam certas práticas alimentares ou que proíbam que a anarquia de livros, brinquedos e objetos pelo chão da sala ou que a arrumação seja pautada pela sensatez que os pais entendem colocar nos espaços da casa? Vai para lá do admissível que os pais proíbam que as crianças se deitem muito tarde ou que não admitam que só se levantem quando muito bem entendam?
- Porque é que esta ideia de ser proibido proibir parece ter nesta nova versão de “educar não rima com educar” pode não ser razoável? Porque à custa do medo com que os pais parecem fazer uso da sua autoridade, os filhos não ficam mais seguros com isso; não aumentam a sua auto-estima; não conseguem conciliar aquilo que são na família e o que acabam por ser na vida social; não conseguem parar, escutar, descobrir a paciência e o aborrecimento; não lapidam a garra com que se reage à frustração; nem as formas de transformar raiva em agressividade, dentro dos limites da urbanidade.
- Será que temos, hoje crianças doentes ou só um bocadinho mal educadas? Na esmagadora maioria das circunstâncias, talvez só um bocadinho mal-educadas; felizmente. Nada que não se resolva. Não se trata, no entanto, de desafiar os pais a proibir por tudo e por nada. Como, aliás, os pais não o fazem. Mas de lhes dizer, com clareza, que sim, proibir também é educar. Sendo certo que os pais gostam muito mais de ver a sua cotação a subir sempre que são “os melhores pais do mundo”, mesmo quando cedem, contrafeitos, em relação a coisas que, eles próprios, reconhecem que deviam proibir. Mas esta ideia de que é proibido proibir é um bocadinho demagógica. E nem os pais nem as crianças o merecem.