Agora que as competências para o século XXI figuram no vocabulário da comunidade escolar, urge pensar estratégias para o seu desenvolvimento. Introduzir, nas escolas, métodos e ferramentas que transcendem a via tradicional não é tarefa fácil. “Este tipo de projetos dá muito trabalho”, “só podemos trabalhar projetos com certos alunos”, ou “não tenho tempo, isto vai tirar muito tempo à minha aula”, são argumentos comummente utilizados nas escolas.

Há oito anos ousei sonhar um ensino diferente. Lecionava há 10 e estava inquieta e inconformada com o meu papel no mundo, sentia que devia fazer mais e melhor por aquelas pessoas diante de mim, que esperavam aprender e terminar o secundário. O mundo e os alunos transformavam-se, e eu questionava-me: porque é que a aprendizagem tem de acontecer apenas na escola, na sala de aula? Porque é que os alunos não podem aprender e aplicar o que aprendem em causas sociais, em prol do bem-comum? Assim nasceu o primeiro projeto multidisciplinar, numa época em que a flexibilidade curricular estava ainda a milhas de distância.

Adotei o “Project-Based Learning” e o “Service Learning”, duas abordagens educativas, nas quais os alunos aplicam os seus conhecimentos académicos e as suas competências na resolução de problemas reais e de apoio à comunidade. Estas são abordagens motivadoras e empoderadoras, que permitem dar voz aos alunos em questões que vão ao encontro dos seus interesses (e despertar para novos), ajudando-os, portanto, a dar relevância e a entender a aplicabilidade dos conteúdos que aprendem nas salas de aula. O processo de aprendizagem ocorre não só ao desenvolverem um projeto, mas também, e particularmente, ao verificarem o impacto que o seu trabalho tem nas comunidades apoiadas. Os projetos desenvolvidos não podem ficar nas gavetas. Porque não aprender o conceito de refração da luz construindo uma lâmpada solar, que será instalada numa casa sem eletricidade?

O sucesso de um projeto depende de todos os intervenientes. Desenvolver projetos requer planeamento e coordenação e não existe um modelo pré-definido a ser seguido. Estes dependem bastante do contexto escolar onde se inserem; no entanto, o planeamento e execução destes torna-se mais fácil, quando fazemos articulações curriculares, partilhamos trabalho com outros professores (não me refiro apenas das articulações estanques entre as disciplinas de língua materna e estrangeiras ou entre disciplinas científicas), e quando abrimos os projetos a organizações da comunidade escolar e da sociedade civil.

O envolvimento dos alunos é tudo. Todos os alunos de todos os níveis de ensino e níveis de capacidade podem participar em projetos. Ao ser-lhes permitida alguma flexibilidade, ao ser reforçado o encorajamento, a colaboração e a cooperação entre pares, todos podem participar, de uma forma inclusiva, respeitando o seu próprio ritmo e a medida das suas capacidades. A minha experiência diz-me que quanto maior for a flexibilidade dada aos alunos para trabalharem temas que vão ao encontro dos seus interesses, mais significativa será a aprendizagem e maior será o seu grau de envolvimento. Um envolvimento que pode, inclusive, fomentar as competências de comunicação por parte de quem tem dificuldades em falar em público, ao divulgar o projeto à comunidade escolar no dia aberto da escola ou perante os seus pares.

Serão os projetos uma atividade extra ao trabalho de uma escola? No meu entender, não. São uma parte integrante do processo de aprendizagem, contribuindo para a aquisição de competências e de conhecimento sob a perspetiva que este pode tornar-se numa forma de, não apenas empoderar os alunos a deixar a sua marca e a fazer a diferença na sua comunidade, mas também de os motivar para a sua própria aprendizagem. A “perda” de tempo, que tanto ouço, pode tornar-se num ganho quando temos, na nossa sala, alunos motivados e que querem aprender. Praticar cálculos e ângulos (entre outros) na construção de um desidratador ou de um forno solar é bastante mais motivador e estimula a criatividade e colaboração.

Ainda hoje recebo mensagens de antigos alunos a perguntar como estão os projetos. Tabanca Solar, Gota de Luz, Missão: Faz a Diferença ou Schools2Eco são alguns projetos que, ao longo dos últimos 8 anos, ficaram na memória de quem neles trabalhou, alunos e professores, pelas causas que abraçaram, pela diferença que fizeram na vida das pessoas que deles beneficiaram, pela emoção e lágrimas geradas ao ouvir testemunhos na primeira pessoa, pela partilha de experiências, mas principalmente pela mudança que gerou nos alunos, que desenvolveram competências que não se ensinam nos manuais: uma consciência global sobre os grandes temas da atualidade, a cooperação e a colaboração entre pares e com instituições da sociedade civil, a comunicação, o espírito crítico ou a criatividade, o espírito de liderança e autonomia ao assumir as responsabilidades na execução de um projeto. Acima de tudo, humanidade.

Não existe a receita perfeita. Mas existe a vontade de inspirar os nossos alunos a tornarem-se melhores cidadãos, apoiá-los na aquisição de competências para a vida ativa com ferramentas inclusivas e abrir-lhes caminho para agirem em prol das causas que queiram abraçar.

A tarefa de um professor é formar. Mas também inspirar e empoderar. Trabalhamos hoje as gerações para que estas, não apenas no futuro, mas já no presente, tomem as melhores decisões e de uma maneira informada, abrindo horizontes e transformando os alunos em agentes de mudança – plenamente conscientes do mundo em que vivem e do tanto que há a fazer e do papel que podem desempenhar. E nós, professores, estaremos prontos para o desafio?

Professora do ensino básico e secundário. Fundadora e presidente da ONG Educafrica. Vencedora da Menção Honrosa da 2ª Edição do Global Teacher Prize Portugal

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.