Há dias, cometi a imprudência de escutar a intervenção do recém-eleito secretário-geral da Juventude Socialista, Miguel Matos (26 anos), no encerramento do congresso que o elegeu e no qual foi candidato único. Foi um discurso arrasador, no pior sentido da palavra: fica-se arrasado por constatar que a juventude do partido que governa o país projecta uma visão política e ideológica que só em 1975, no fervor do PREC, se toleraria. Lamento, mas se este discurso representa o futuro, devo avisar que já o conhecemos: foi o passado.

Antes que me acusem de exagerar, cito as palavras do novo secretário-geral da Juventude Socialista. Sobre o modelo económico que vigora nas sociedades livres: “Somos, como geração, vítimas contínuas de um sistema capitalista, que nos hipoteca os sonhos, que nos aumenta as rendas, que nos paga mal e aumenta as desigualdades.” Sobre as grandes empresas: “A ganância do lucro tritura-nos os sonhos.” Sobre a economia de mercado: “A tendência do mercado nunca foi tão visível, não há cá essa história da mão invisível”, até porque “a mão invisível do mercado não pode comandar a nossa vida”. Sobre como resolver os nossos desafios económicos e sociais: “o socialismo democrático é mesmo a resposta para as crises”, pois “o capitalismo desenfreado, a acumulação de riqueza e a ganância do lucro têm mesmo de ter um fim”. Sobre o caminho a percorrer: é preciso “um Estado interventivo e forte”, como consta da sua moção global. E, para abraçar o estilo discursivo dos anos 70, estas tiradas foram precedidas de alusões emotivas aos “17 mil dias” que passaram desde que “os capitães enfrentaram a noite”, na luta de Abril que é sentida pela actual geração.

Poderá ser surpreendente que o discurso do líder da Juventude Socialista se apoie nas muletas retóricas dos discursos mais inflamados da Festa do Avante!, mas isso apenas o torna caricato. Mais grave, o que impressiona mesmo, é sermos confrontados com esta percepção de que os socialistas não aprenderam nada com os seus erros e que os mais jovens fixaram como meta repeti-los. No contexto europeu, Portugal é um país cada vez mais pobre, economicamente estagnado e a divergir. Actualmente, fomos já ultrapassados por países que, há 20 anos, tínhamos como exemplos de atraso económico e social — como a Estónia ou a Lituânia. Em breve, seremos ultrapassados pela Roménia. E, de resto, em paridade de poder de compra, o valor médio recebido em Portugal por hora de trabalho já só é superior ao da Bulgária. A nossa história, desde 2000, conta-se através de uma sequência imparável de empobrecimento relativo e de oportunidades desperdiçadas para abrir a sociedade e modernizar a economia. Perante este fracasso, só pode gerar estupefacção explicarem-nos que, afinal, o problema se encontra no modelo capitalista.

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