Vem aí a conversa do Bloco Central. Os murmúrios deram lugar a opiniões. Em dois semanários do passado fim-de-semana duas vozes anunciavam-no: José Miguel Júdice, em tom de desafio, e Bernardo Pires de Lima, como proposta de alargamento dos apoios parlamentares do governo e pronta “recondução do Presidente da República”. Durante a semana, outros dois vultos não-socialistas – mas de geografias igualmente opostas – contrapuseram. Nuno Garoupa sublinhou que o país precisa “de unidade e não de unicidade” e Miguel Morgado apelou a que não acrescentássemos “sarilhos aos sarilhos em que já estamos”. Tendo a concordar. Todavia, para não condenar o delito antes de o ver cometido, sugiro que nos perguntemos: quem sairia a ganhar com um entendimento entre o PS e o PSD?

Sendo que um Bloco Central em executivo é improvável, um acordo para aprovação de Orçamentos do Estado – uma ‘geringonça’ ao centro – não é. A António Costa, estrategicamente, convém esticar a corda para 2021, para o terceiro OE. A crise da pandemia justificaria isso e muito mais. Basta lembrar como o governo e os partidos foram vocalmente contra o Estado de Emergência e acabaram a aprová-lo quando o Presidente decidiu decretá-lo. A pressão das circunstâncias – e da Presidência – determinará a facilidade com que as forças se sentarão a uma mesa mais comum.

Antes da festa, porém, contemplemos os comensais. Atente-se à clara mudança no discurso de Costa, que há três semanas dizia que o dr. Rio não tinha qualquer visão de país e hoje saúda vigorosamente o seu sentido de Estado, sendo que a epidemia tem bem mais de um mês. Recordemos os mais óbvios opositores de um acordo PS/PSD, que não teriam, atualmente, margem para o contrariarem (Pedro Nuno Santos é o ministro que contava com Rui Rio para calar autarcas e construir um aeroporto). Lembremos o próprio Rio, que jurou não falhar ao governo em situações de crise e já assegurou que oferecerá “colaboração e não oposição”. E não esqueçamos o Bloco de Esquerda e o PCP, que continuariam a queixar-se do governo, fiéis ao seu tradicional papel. O PAN, contra a pandemia, juntar-se-ia patrioticamente ao pandemónio. O Chega, que curiosamente se eclipsou perante o coronavírus, celebraria a união do sistema como seu alvo de sonho. A IL, que nasceu liberal numa era de regresso do Estado, agarraria a bóia como partido de oposição aos demais. Quanto à direção do CDS, dada a ausência de críticos e a sua relação com São Bento, a liberdade é absoluta.

Sem querer dizer o óbvio – que onde há fumo há fogo –, não tenho grande opinião sobre a putativa grã-coligação. O atual governo está suficientemente balizado e autorizado pelo referido Estado de Emergência, não havendo, até agora, contestação social ou sindical. Se as projeções económicas se confirmarem, claro, também isso mudará. Quem tomou os tempos da troika por crispados, prepare-se: o cenário mais pessimista prevê uma recessão cinco vezes maior do que a da última crise financeira. Para muito boa gente, as soluções ao centro vivem para estes momentos e para os tão falados pactos de regime. Se ainda pudéssemos sair à rua, andariam todos com t-shirts a dizer “interesse nacional”, a assar marshmallows numa fogueirinha e a cantar o kumbaya.

A deficiente cultura democrática de que padece o nosso país, em que jornalistas pedem desculpa antes de fazerem perguntas às autoridades e se torce o nariz a quem não esquece o escrutínio (portanto, a democracia) em tempos de crise, torna a unicidade do Bloco Central uma tentação previsível. O fetiche intelectual pela moderação – como se ela existisse à esquerda naquele hemiciclo – e pelos consensos, como se eles fossem concretizáveis face às diferenças que separam, hoje, o Partido Socialista e o PSD, também não representa uma novidade. Todo o semblante da frase “isto é uma guerra” serve para coser, devagar, devagarinho, as linhas dessa capa bafienta e incolor chamada centrão.

António Costa, cuja prática política favorece águas turvas, adoraria chapinhar em mais uma jogatana partidária. Desengane-se o meu caro leitor, se julga que os nossos governantes não estão com a cabeça mergulhada em política neste momento. O tal “alargamento dos apoios parlamentares do governo” seria a praia ideal para Costa estender o seu hábito de descentralização de responsabilidades por novas marés. Aquilo que antes era culpa de uma agência governamental, de um conselho público, da Comissão Europeia ou de um ex-primeiro-ministro poderia passar a ser convenientemente distribuído pela sua ‘geringonça’ de salvação nacional.

Marcelo, por sua vez, recuperaria a unanimidade que recentemente perdeu sem reduzir a sua influência na governação, salvaguardada pelo Estado de Emergência e pela aflição popular que, compreensivelmente, busca consolo no presidente dos afectos.  Nenhuma medida, no entanto, seria tomada mais rapidamente, nenhuma decisão seria tomada mais eficazmente, nenhum dinheiro chegaria mais depressa de Bruxelas, nenhuma transparência sairia reforçada.

Seria, para rematar, um governo de salvação nacional que não salvaria realmente ninguém. Exceto os seus autores.  

 

P.S. – Esta semana, numa realidade alternativa apenas plausível no planeta Rio, o presidente do PSD transformou-se em deputado socialista e Ferro Rodrigues voltou à sua condição predileta de líder de bancada (limite moral, aliás, das suas faculdades). Ora, nesta peculiar metamorfose, Ferro mandou, Rio obedeceu e o PS bateu palmas. Confesso, estimado leitor, que não dei a menor importância ao facto de a recandidatura interna de Rui Rio, este ano, ser essencialmente apoiada por comentadores de esquerda. Mas daí a virar costas aos seus deputados sob aplausos do Partido Socialista foi um tirinho, não foi? Aconteceu.