Na semana que passou a minha irmã mais velha recebeu uma mensagem minha no WhatsApp. Aconteceu textualmente assim: “mana, guarda este número que estou a usar, o outro será para o trabalho beijinhos.” Ela respondeu: “Olá! Tudo bem convosco? Já guardei.” Ao que eu respondi: “Sim. Consegues fazer-me um favor?” E a minha irmã: “Depende do favor.” Ela é mesmo minha irmã. Que favor é que lhe pedi? “Preciso de fazer um pagamento hoje, mas estou sem acesso à aplicação neste, podes fazê-lo por mim? Amanhã dou-te de volta.” A minha irmã, sendo minha irmã, respondeu com dois emojis daqueles que choram de tanto rir.
Acontece que o Tiago que lhe enviou aquelas mensagens não foi o Tiago verdadeiro. Foi o Tiago falso. Pelo modo como a minha irmã respondeu, dá para ver que topou. Várias razões fizeram a minha irmã distinguir o Tiago falso do Tiago verdadeiro. A primeira, e não tem de ser a primeira por ordem qualitativa, é que, se é certo que a trato por “mana”, não a trato em mensagens escritas com uma liberdade linguística tão grande. Não uso vírgulas como pontos finais e tento usar vírgulas quando elas são necessárias. Não escreveria: “guarda este número que estou a usar, o outro será para o trabalho”. Separaria em duas frases. O mesmo se aplica a: “o outro será para o trabalho beijinhos.” Escreveria em outras duas frases, convenientemente separadas por um ponto final. E, claro, na seguinte tiraria uma vírgula e acrescentaria um ponto final: “Preciso de fazer um pagamento hoje, mas estou sem acesso à aplicação neste, podes fazê-lo por mim?” O Tiago falso é uma criatura de indomável liberdade com a língua. O Tiago verdadeiro não.
Mas a minha irmã mais velha também sabia que estava a falar com o Tiago falso porque, filho e irmão desnaturado que sou, raramente dou notícias. Tenho quase a certeza de que primeira suspeita da minha irmã não foi eu pedir-lhe dinheiro por mensagem escrita, foi eu enviar-lhe uma mensagem escrita. O que me leva a uma conclusão necessária, que pode até ser útil para quem no futuro quiser dar nova vida ao Tiago falso: se o Tiago falso for tão visivelmente melhor do que eu, as pessoas não o confundirão com o Tiago verdadeiro.
Também é aqui que se encontra uma das fraquezas do mundo de enganos da internet. No mundo de enganos da internet frequentemente acontece as pessoas serem tomadas como melhores do que realmente são. Por que é que não acredito em boa parte das coisas que a internet me diz? Porque muita da internet parte de pressupostos antropológicos irrealistas, como se o mundo fosse menos pecador. A internet enganaria melhor se se recordasse que vivemos num mundo de Génesis 3 e não no mundo de Génesis 1 e 2. O que é o mundo de Génesis 1, 2 ou 3 para quem, como eu, não visse obcecado com a leitura da Bíblia? O mundo de Génesis 1 e 2 é o mundo em que a humanidade ainda não pecou. O mundo de Génesis é o mundo em que a serpente já contribuiu para Eva e Adão comerem do fruto proibido e, a partir daí, tudo ter ficado caído. Vivemos hoje no mundo de Génesis 3 e, com tanta inteligência (artificial incluída), parece que a internet ainda não assimilou o facto.
No mundo de enganos da internet o Tiago falso é claramente melhor do que o Tiago verdadeiro: ainda que seja para sacar dinheiro, dá notícias. O Tiago verdadeiro não o faz quando nem de dinheiro precisa. Qual o Tiago preferível? Provavelmente o falso. Daí que cheguei a pensar dizer à minha irmã no final desta confusão: guarda o número do falso que, ao menos, ele emite sinais de vida. Ainda que burlão e mau de pontuação, é mais fácil gostar dele do que do verdadeiro.
O meu eu falso é melhor do que eu
Na semana que passou a minha irmã mais velha recebeu uma mensagem minha no WhatsApp. Aconteceu textualmente assim: “mana, guarda este número que estou a usar, o outro será para o trabalho beijinhos.” Ela respondeu: “Olá! Tudo bem convosco? Já guardei.” Ao que eu respondi: “Sim. Consegues fazer-me um favor?” E a minha irmã: “Depende do favor.” Ela é mesmo minha irmã. Que favor é que lhe pedi? “Preciso de fazer um pagamento hoje, mas estou sem acesso à aplicação neste, podes fazê-lo por mim? Amanhã dou-te de volta.” A minha irmã, sendo minha irmã, respondeu com dois emojis daqueles que choram de tanto rir.
Acontece que o Tiago que lhe enviou aquelas mensagens não foi o Tiago verdadeiro. Foi o Tiago falso. Pelo modo como a minha irmã respondeu, dá para ver que topou. Várias razões fizeram a minha irmã distinguir o Tiago falso do Tiago verdadeiro. A primeira, e não tem de ser a primeira por ordem qualitativa, é que, se é certo que a trato por “mana”, não a trato em mensagens escritas com uma liberdade linguística tão grande. Não uso vírgulas como pontos finais e tento usar vírgulas quando elas são necessárias. Não escreveria: “guarda este número que estou a usar, o outro será para o trabalho”. Separaria em duas frases. O mesmo se aplica a: “o outro será para o trabalho beijinhos.” Escreveria em outras duas frases, convenientemente separadas por um ponto final. E, claro, na seguinte tiraria uma vírgula e acrescentaria um ponto final: “Preciso de fazer um pagamento hoje, mas estou sem acesso à aplicação neste, podes fazê-lo por mim?” O Tiago falso é uma criatura de indomável liberdade com a língua. O Tiago verdadeiro não.
Mas a minha irmã mais velha também sabia que estava a falar com o Tiago falso porque, filho e irmão desnaturado que sou, raramente dou notícias. Tenho quase a certeza de que primeira suspeita da minha irmã não foi eu pedir-lhe dinheiro por mensagem escrita, foi eu enviar-lhe uma mensagem escrita. O que me leva a uma conclusão necessária, que pode até ser útil para quem no futuro quiser dar nova vida ao Tiago falso: se o Tiago falso for tão visivelmente melhor do que eu, as pessoas não o confundirão com o Tiago verdadeiro.
Também é aqui que se encontra uma das fraquezas do mundo de enganos da internet. No mundo de enganos da internet frequentemente acontece as pessoas serem tomadas como melhores do que realmente são. Por que é que não acredito em boa parte das coisas que a internet me diz? Porque muita da internet parte de pressupostos antropológicos irrealistas, como se o mundo fosse menos pecador. A internet enganaria melhor se se recordasse que vivemos num mundo de Génesis 3 e não no mundo de Génesis 1 e 2. O que é o mundo de Génesis 1, 2 ou 3 para quem, como eu, não visse obcecado com a leitura da Bíblia? O mundo de Génesis 1 e 2 é o mundo em que a humanidade ainda não pecou. O mundo de Génesis é o mundo em que a serpente já contribuiu para Eva e Adão comerem do fruto proibido e, a partir daí, tudo ter ficado caído. Vivemos hoje no mundo de Génesis 3 e, com tanta inteligência (artificial incluída), parece que a internet ainda não assimilou o facto.
No mundo de enganos da internet o Tiago falso é claramente melhor do que o Tiago verdadeiro: ainda que seja para sacar dinheiro, dá notícias. O Tiago verdadeiro não o faz quando nem de dinheiro precisa. Qual o Tiago preferível? Provavelmente o falso. Daí que cheguei a pensar dizer à minha irmã no final desta confusão: guarda o número do falso que, ao menos, ele emite sinais de vida. Ainda que burlão e mau de pontuação, é mais fácil gostar dele do que do verdadeiro.