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O momento PRD da direita /premium

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O PSD e o CDS tiveram a semana passada o seu momento PRD: o momento em que começamos a suspeitar de que já não sabem o que representam nem para que servem.

Há dias que a direita parlamentar nos anda a ensinar que afinal em política, o que parece nunca é. Porque o que parece é, segundo a direita, sempre “spin” socialista. Talvez. Mas acontece que os deputados do PSD e o CDS votaram mesmo com o PCP e o BE sobre as carreiras dos professores, dando a António Costa a deixa apropriada para um pequeno drama de fim de semana. Tal como os autarcas do CDS na freguesia de Arroios, em Lisboa, avançaram mesmo com uma daquelas demagogias típicas do esquerdismo mais radical — uma passadeira pintada com as cores do arco-íris. Os dois incidentes não têm igual dimensão, mas estão relacionados, para começar pelo espanto que o espanto geral causou ao PSD e ao CDS.

Ao princípio, tudo deve ter parecido brilhante, talvez genial: na junta de freguesia, tratava-se de acabar de vez com as calúnias de homofobia que a extrema-esquerda faz regularmente à direita; no parlamento, de forçar o PS a revelar o jogo de equívocos que tem mantido desde 2015 e até recuperar alguma simpatia entre as classes profissionais do Estado. Sim, a extrema-esquerda mente, e o governo socialista não tem sido honesto. O ponto é que, para demonstrar isso, vimos o que não esperávamos: em Arroios, um partido que recusa a “contra-cultura” esquerdista a macaquear o folclore institucional com que o esquerdismo manipula cinicamente estilos de vida alternativos, e em São Bento, dois partidos que se afamaram como zeladores da estabilidade financeira, a promover, mesmo que com algumas salvaguardas, as reivindicações de despesa e tratamento desigual características do sindicalismo comunista da função pública. O que é que não percebemos?

Houve depois muitas explicações e até o que imprensa descreveu como “recuos”. Mas estes “recuos” e explicações que provam, senão que nada tinha sido pensado e nada tinha sido previsto, e portanto nada estava preparado para resistir às primeiras apreciações negativas ou à reacção manhosa do adversário? Um símbolo de tudo isso: no sábado, Rui Rio reuniu a comissão política em parte incerta, na clandestinidade, para fugir aos jornalistas.

É, obviamente, uma questão destas lideranças do PSD e do CDS. Mas é mais do que isso. O que a passadeira de Arroios ou a temporária “geringonça” PSD, CDS, BE e PCP da semana passada sugerem é que os partidos parlamentares já nada levam a sério, e são capazes, por isso, de se manifestar da maneira mais inesperada, conforme o que lhes parece estar a dar. É verdade: a política, autárquica ou parlamentar, requer flexibilidade. Mas o que começamos a ter desde a geringonça de 2015 vai para além disso. Os partidos portugueses são hoje grupos dissociados da sociedade e apenas ligados ao Estado. Estão, por isso, prontos para todos os ajuntamentos que pareçam aproximá-los do único poder que lhes pode dar vida, custe o que custar aos contribuintes.

Em 1987, o PRD juntou-se ao PS e ao PCP para derrubarem o governo minoritário de Cavaco Silva. Muita gente, mas especialmente Mário Soares, viu então uma geringonça do PRD, PS e PCP como pouco natural e viável. Nas eleições, PS e PCP perderam, mas o PRD desapareceu. O PRD, à volta do general Eanes, tinha pretendido ser, em 1985, um sobressalto moral contra as manobras partidárias da década de 1980, quando todos os partidos se cruzaram e descruzaram nas mais variadas formações. Em 1987, eis o próprio PRD subitamente reduzido a mais um parceiro dessas danças. Deixou, naturalmente, de fazer sentido. O PSD e o CDS tiveram a semana passada o seu momento PRD: o momento em que começamos a suspeitar de que já não sabem o que representam. Não são o PRD e não vão certamente desaparecer. Mas podem ter deixado um pouco mais comprometida a alternativa que o país tinha o direito de esperar deles. O que terá explicação, mas não tem desculpa.

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