1 Luís Montenegro terá percebido?
Há uma perigosa questão política que circula no ar nacional do país mesmo que não esteja ainda ribombantemente em cena, embora seja de primeiríssimo alcance. Tudo – nos gabinetes políticos, nas bancadas parlamentares, na media, na rua, nos mentideros – parece gravitar à roda de dois candidatos presidenciais. É verdade. Mas há um terceiro actor de peso situado no meio deles a lutar para que lhe assegurem um protagonismo subitamente tremido, na novíssima peça que se estreia na noite do próximo 8 de Fevereiro. Falo obviamente de Luís Montenegro a tentar vir ao de cima da vaga para onde inexplicavelmente se atirou e não que ele não seja um grande profissional da política mas… tanto erro?
Além de que tudo o que ocorreu na AD era previsível – incrível, ah? – ou pelo menos altamente provável (e não se culpe Marques Mendes, ou apenas ele).
Onde quero chegar? A isto: a direita está em aberto e o PSD perdeu o pé.
Ou seja: Luís Montenegro vai conseguir ser o nadador salvador de si mesmo?
2 Friamente: se o mundo sabia que o candidato presidencial do PSD não fazia o pleno do seu partido, que iriam surgir anticorpos, debandarem quadros e fugir eleitorado, que embalou o próprio Luís Montenegro na fé da meta vitoriosa? Que reflectiu, com quem, acreditando politicamente em quê? Quando a direção do PSD se apercebeu que talvez houvesse um desastre (nunca porém desta dimensão, concedo), porque insistiu em insistir no (seu) erro de casting? Havia um compromisso de sangue entre líder e candidato? Eram siameses nalguma coisa? Companhons de route devedores um ao outro? Estamos a falar de política.
Isto por um lado. Mas há outros lados. Um, menor: em face de (anunciadas) recusas e deserções, a campanha do PSD, essa sim, foi o que pareceu: mal pensada e fora deste tempo. Mais parecia uma pagela a sépia. Porventura nada teria resolvido mas o que esteve na montra foi um irreconhecível PSD, sem brilho nem sequer a memória desse brilho. O lado maior é que o líder social democrata responsável pela oficialização de um estado de coisas, sendo também o chefe do governo, tem dupla empreitada. E não por acaso, ei-lo a levantar voo depressa e de vez, do perímetro presidencial – como se a escolha de um chefe de Estado fosse como escolher um electricista – para ancorar no governo, sinalizando ter dele o território e o exclusivo. Claro que não se podia defender de outra maneira, o governo é “seu”, havia que lhe ocupar depressa o espaço, o significado e claro o exclusivo. E esquecer aquilo que foi apenas um “pico de febre”, na imorredoura frase atribuída a alta figura do PSD. A Chefia do Estado não conseguida e o tropeção eleitoral de alta envergadura do PSD afinal foram apenas “um pico de febre”. Ah bom?
3 Os trabalhos são de Hércules: passou a estar oficialmente em causa não só a liderança da direita, como a resiliência do PSD, como uma possível sobrevivência do próprio governo: alguém reparou que uma considerabilíssima parte da sociedade portuguesa, a mais dinâmica, activa, produtiva, enérgica, votou Cotrim de Figueiredo e não AD? Fê-lo porque na geração dos trinta, quarenta, têm pressa, estão descontentes, pagam impostos altos, têm serviços públicos baixos e um futuro não glorioso mas que o poderia ser mais: eles mereciam melhor e sabem-no. A dessintonia entre essa imensa camada de gente jovem e o PSD de hoje é ainda maior: eles acham a AD “velha”.
4 E além disso há um cansaço. E talvez de muitos de nós. Uma fadiga física, concreta, sombria. É muita coisa perdida. Já perdida. E penso agora nos serviços mínimos da decência. Não houve sequer um período de nojo, afago, companheirismo, para com Luís Marques Mendes, pelo contrário: pouquíssimas horas depois daquele vexame e com um alivio apressado e quase voraz, o PSD pôs um carrocel do apoio a Seguro em movimento, encheu-o de quadros superiores e não quer que ele pare de girar até à desejada vitória socialista. Fê-lo com admirável leveza, tornando embaraçosa a escolha entre a falta de decência e a falta de vergonha. Claro que sem a direita Seguro não entrará no portão de Belém; claro que Luís Montenegro prefere Seguro – a quem não teme – a Ventura – a quem receia – mas, caramba!, era precisa tanta pressa?
O pior nem sequer é a pressa. Pior é, como dizer?, o equívoco sobre o bom comportamento de António José Seguro no tempo da troika. O equívoco emoldura acções e amplia gestos que nunca ocorreram, mas espanta que o PSD – que conhece a história de trás para diante – consinta no equívoco sobre as “ajudas” de António José Seguro ao governo PSD/CDS de então, chefiado por Passos Coelho. Mais uma história falsa porque pessimamente contada, mas recordada hoje como convém. (O costume.)
Por estas e por outras é que o PSD qualquer dia esta à venda. E é por elas e outras já passadas que Ventura se atreve a partilhar com o país as certezas que tem sobre a “liderança da direita”. A sua.
5 Vai ser preciso paciência, resiliência, resistência para esta segunda volta. Um sistema nervoso equilibrado e uma mentis de saúde. Não que não conheçamos de cor o guião: de um lado “vêm aí os fascistas” (e haverá mais básico, mais pobre, mais música celestial para Ventura?); do outro, ouviremos incessantemente, inabalavelmente, incansavelmente o autoproclamado “líder da direita” levantar o que puder do país contra o “socialismo”, na sua nova pele de mendicante de votos do PSD e da IL. Sabe que não irá a parte nenhuma sem os votos daqueles que despreza publicamente e depois vomita (desculpem), mas que importa?
6 Curiosidade: “Poucochinho” pensará ainda um político chamado António Costa sobre Seguro hoje a caminho de Belém? Ou pensará pior, após ter sido despejada do PS uma tendência que levava o próprio nome de “costistas”? Ninguém me disse mas há “inimigos” – não confundir com adversários – para a eternidade.
Poucochinho foi também para António Costa – amigo muito próximo de Mário Centeno, seu ex-ministro e seu ex-futuro substituto em S. Bento, na chefia do governo do PS – vê-lo trocado por um croata na corrida para a vice-presidência do Banco Central Europeu e apeado desse ambição.
Marés.
7 Assim estamos: é o que é, há o que há.