Os critérios usados pela The Economist para avaliar o desempenho de 36 das economias mais ricas do mundo são a inflação, a sua variação anual, o crescimento do PIB, o emprego e o desempenho do mercado bolsista. Feita a média, Portugal é este ano a economia com melhor desempenho, ultrapassando a Espanha que esteve o ano passado no top. E é com estes critérios que Israel ocupa a terceira posição, logo a seguir à Irlanda.

As economias da Ibéria têm sido nos últimos dois a três anos identificadas como sendo as mais bem-sucedidas no conjunto da União Europeia, gerando várias análises para perceber as razões. O turismo; a imigração, que aumentou a força de trabalho; a liderança nas energias renováveis, que permitiu enfrentar sem grandes custos o choque energético da guerra na Ucrânia, e a segurança relativa do país com o seu clima ameno, num quadro de grande instabilidade em países mais próximos do conflito com a Rússia ou mesmo atraindo norte-americanos, tudo isto se conjuga para criar dinamismo económico.

Todos os grandes indicadores, mesmo os que a The Economist não refere, apontam no sentido do crescimento. Por exemplo, o rendimento disponível real (ou seja, depois de retirado o que é “comido” pela inflação) teve uma subida excecional em 2024 (7,2%, segundo dados do Banco de Portugal) e ter-se-á mantido positivo este ano. E a taxa de poupança está a aumentar. No terceiro trimestre deste ano, os dados do INE indicam que a remuneração real bruta mensal por trabalhador aumentou 2,6%, com subidas substanciais em sectores como a agricultura, muito mal pagos (13%), construção e alojamento e hotelaria (em torno dos 6,5%, dados nominais). A redução do IRS e um mercado de trabalho com níveis recorde de emprego explicam o que se está a passar.

Do outro lado deste sucesso há um país que não se vê nestes macro indicadores, de descontentamentos com os serviços públicos e o preço da habitação, a caminho de uma greve geral. Claro que se crescemos, temos emprego em níveis recorde e baixa inflação, que são factos, todos estamos a beneficiar. Mas olhar apenas para aquele conjunto de cinco indicadores impede-nos de avaliar até que ponto este progresso tem condições para ser duradouro, crescente e se se está a contagiar a toda a sociedade ou a agravar as desigualdades.

Neste outro lado do dinamismo económico e financeiro – ou em parte por causa dele – estão os serviços públicos sem capacidade de resposta, que têm no SNS o seu mais grave e dramático exemplo. E estão casas a preços que a classe média e especialmente os jovens não conseguem comprar nem arrendar. A que se soma um quadro político-partidário que tem em si sementes de elevada instabilidade. Poucos acreditam, neste momento, que o próximo Orçamento do Estado, o de 2027, venha a ser aprovado, somando-se a isso a ameaça constante que paira no inquérito ao primeiro-ministro.

Os riscos que ameaçam esta prosperidade, que nos colocou no topo dos países ricos com melhor desempenho, são vários. Um dos primeiros reside na incapacidade de os serviços públicos responderem à pressão da procura a que estão submetidos. E isto é válido para a degradação dos serviços público na Saúde, mas também para tudo o que faz funcionar bem uma economia, como serviços de impostos, segurança social e imigração, registos e, o problema mais grave, a justiça administrativa e fiscal. Nestas últimas áreas, é o investimento directo estrangeiro que corre o risco de ser mais danificado, quando os empresários estrangeiros perceberem que, tendo um problema, só o conseguem resolver com muita paciência e tempo – que é dinheiro.

Noutra frente temos os riscos sociais que aqui estão fundamentalmente associados à falta de habitação e que o Governo não está a ser capaz de resolver com rapidez. (Sim, há agora estas medidas para aumentar a oferta, mas falta garantir que as casas se constroem mais depressa).

Finalmente o motor deste crescimento, que se tem apoiado fundamentalmente em mais pessoas a produzir, reflexo da dinâmica de sectores de mão-de-obra intensiva como o turismo. Há um indicador que é especialmente revelador: em 2025, contas do Banco de Portugal, o PIB aumentará cerca de 1,9%, mas a produção por trabalhador fica limitada a 0,1%. No caso do turismo temos ainda ao risco de deixarmos de estar na moda ou de começarmos a ter má imagem por causa do que se passa no aeroporto.

Do topo das economias com melhor desempenho, rapidamente desceríamos para lugares menos honrosos se em vez de indicadores mais financeiros olhássemos para a frágil estrutura da economia, baseada muito em sectores de mão-de-obra barata e voláteis como o turismo, assim como para os serviços públicos prestados aos cidadãos e à empresas e que vão dos transportes públicos à Justiça. Este lado da vida portuguesa é mais amarga do que “doce como um pastel de nata”. E não é pessimismo, é realismo a alertar para os riscos que corremos e assim irmos a tempo de os evitar.