Divagando languidamente pela página online de um famoso periódico português, conhecido por quase todos e de reconhecido mérito por muitos, deparei-me com um vídeo onde três pessoas falavam de discriminação e preconceito – problemas graves transversais às sociedades, devendo ser debatidos e combatidos de forma proveitosa por todos os grupos que as constituem.

Para meu espanto, uma das entrevistadas, uma jovem adulta na flor da sua juventude, no auge de saúde e genica, afirmava estoicamente que o homem branco, heterossexual e cristão não percebia de preconceito, porque nunca passara por isso, seguindo-se um rol de culpas perpetradas por essa figura representativa do patriarcado opressor.

Antes de avançar, perdoemos a esta jovem cidadã, brotando fulgor e energia, embriagada por uma ideologia que a remete directamente para o poço negro do preconceito; empurrada, inspirada e acarinhada pelos que se dizem combater os males do mundo que, no entanto, usam as mesmas tácticas opressivas dos preconceituosos.

Ao terminar o vídeo, remeti-me ao silêncio e à introspeção, pois assim era necessário. Demorando o olhar pela janela, fui buscar sentido às serras que por aqui nos encerram, mas nos oferecem perspectiva e profundidade para tentar perceber o mundo.

Pelas aldeias que vejo por essas encostas fora, dispersas, distantes entre si e do mundo, ignoradas pelo exterior, imagino a vida dos homens brancos e dos preconceitos de que são alvo. Vejo e revejo caras, algumas joviais, brotando energia, partindo para longe, desiludidos e pobres, buscando uma vida melhor. Umas outras, velhas, queimadas pelo sol e pelo gelo, enrugadas e cansadas, faces que regaram com o suor do seu trabalho o pão daqueles que o hão-de comer lá longe, que nunca os conheceram, mas os acusam de crimes que jamais cometeram. São caras que contam em pânico os tostões numa miserável bolsa de plástico, amparadas por mãos reumáticas, grossas, doridas, ásperas, encarquilhadas, cujos calos contam histórias de solidão, tristeza e derrota.

Para os que ignoram muitas partes do mundo, os homens brancos, heterossexuais e cristãos — pasme-se — também sofrem! Só que, em vez da pedra fácil e genérica da cor da pele, porque, pasme-se, não é um factor de distinção, são assoberbados por um infindável manancial de outras agressões, com a finalidade de tornar esse homem alvo de chacota, de o ostracizar, de o humilhar e de o excluir. Enquanto que ao homem branco nunca lhe chamaram termos derrogatórios associados com o tom de pele nestes lugares do mundo, chamaram-no de gordo, badocha, lingrinhas, minorca, baixote, maricas, larilas (mesmo sem ser homossexual), caixa d’óculos, quatro olhos, beato (sim, existe preconceito religioso para com os cristãos praticantes, especialmente homens), marrão, corno, cobarde, fraco, mulherengo e o restante rol de impropérios e violências que questionam a sua virilidade, o seu status quo, a sua maneira de viver e de estar, a sua religiosidade, a sua orientação sexual, a sua família, os seus míseros tostões numa mirrada carteira, sendo todas elas armas de arremesso que doem, ferem e deixam cicatrizes.

Todos eles, homens brancos, heterossexuais e cristãos, enterraram pais, esposas, filhos, amigos. Sobreviveram a intempéries, tragédias e fatalidades. Choram em surdina no canto dum curral, no silêncio dos pinhais ou na calada da noite. Choram por tudo o que lhes falta, pela saúde que tiveram e pela gente que já perderam. E choram sozinhos, porque a sociedade assim lhes dita. Porque um homem não chora! Porque um homem tem de ser forte, no meio da tragédia, enquanto os outros soluçam, este obriga-se a ser o apaziguador timoneiro das emoções.

Lutam numa guerra chamada vida, onde uns os acusam de serem generais, mas no fundo, humilhados por memórias que teimam em persistir e que jamais se afogam em copos de vinho e bagaço, obedecem aos seus ímpetos draconianos dessa vida, e para sempre nada mais são que obedientes soldados rasos.

Nascer branco e homem jamais foi um indicador de sucesso, riqueza. Nascer branco e homem jamais significou ter acesso imediato ao grupo Bilderberg, ao Sierra Club, a um vasto número de acções em bolsa, que permitem viver bem, sem preocupações e sem problemas. Antes pelo contrário.

Pensar dessa maneira, tabelar por cima todas as pessoas de um sexo, de uma etnia, de uma orientação sexual e de uma religião nada é mais que profundo, feio e forte preconceito.