Trump tomou posse, mas no cada vez mais pequeno aquário da imprensa tradicional, o tema foi um gesto de Elon Musk. Não conseguem arranjar mesmo mais nada? Talvez a chave desta crise de imaginação esteja na sondagem publicada pelo New York Times: no caso de Trump, muitos americanos que têm dúvidas sobre a sua personalidade, não as têm sobre as suas propostas políticas.
E o que são essas propostas políticas? Trump resumiu-as na tomada de posse. Por exemplo, restabelecer as fronteiras (imigração sim, mas legal). Selecção de pessoas pelo mérito individual. Respeito da história e tradição nacional. Confiança no mercado. Reconhecimento de que só há dois sexos. Descontinuação das experiências ideológicas com as fontes de energia. Exigência que alianças internacionais correspondam a um esforço equivalente de todos os parceiros. Reciprocidade nas relações comerciais.
É isto monstruoso? Não o é para a maioria dos americanos, incluindo muitos daqueles que nem apreciam o personagem e os seus maneirismos. Para essa maioria, Trump significa em primeiro lugar o regresso à normalidade, aos princípios que definiam o regime americano, a começar pela liberdade de expressão, e explicavam o poder e prosperidade dos EUA. De facto, foi preciso o governo dos EUA ter-se desviado muito dessa matriz para que um excêntrico como Trump possa representar um retorno à sanidade. “Uma revolução do senso comum”, como ele lhe chamou.
Posto isto, há que distinguir duas coisas em Trump: o que ele já fez, e o que pode fazer. O que ele já fez, na primeira hora da sua presidência, foi pôr termo à vigência do wokismo como ideologia oficial. Foi sob o wokismo que o Estado americano deixou oficialmente de ter fronteiras, que as identidades racial ou sexual prevaleceram sobre a competência e a idoneidade, que a mulher deixou de existir como sexo e passou a ser uma simples opção identitária, e que a história americana foi criminalizada.
O wokismo não foi um episódio de demência. Assentou no avanço da extrema-esquerda anti-democrática e anti-capitalista sobre as instituições. Esse avanço não resultou da força dos extremistas, mas de um cálculo da esquerda social-democrata. Nos anos 2010, a dificuldade das sociedades ocidentais em adaptarem-se à globalização fez os sociais-democratas temer que a direita reformista voltasse a estar politicamente em vantagem, como nos anos 1980. Foram então tentados a deixar a extrema-esquerda impor nas instituições uma nova moral, que não deixasse à direita outra opção senão a crítica e a refutação. Seria assim possível caricaturar conservadores e liberais como representantes de um patriarcado racista, transfóbico, e plebeu, e desqualificá-los enquanto “fascistas”.
Trump foi a face da resistência a este cambalacho ideológico. Como o wokismo não vinha de baixo, mas de cima – do Estado, das cátedras universitárias, das direcções de televisões e empresas –, a vitória de Trump foi-lhe fatal: muita gente apressou-se a virar a casaca, desde logo os milionários da tecnologia. Isto é o que Trump já fez. Outra coisa é o que vai fazer. A adaptação das sociedades ocidentais a um mundo que já não é o delas será sempre difícil. As mudanças enfrentarão todo o tipo de chicanas políticas e legais, como já está a acontecer às primeiras ordens executivas de Trump. O êxito de modo nenhum está garantido. E haverá ainda que contar com as peculiaridades do presidente, os espinhos de algumas das suas ideias (o uso do proteccionismo), ou as contradições da coligação que o sustenta. Mas nos EUA, o poder voltou outra vez a olhar para a realidade sem o condicionamento woke. Já é uma grande coisa, quando pensamos que numa Europa estagnada e deficitária, a tendência é para apertar ainda mais a venda sobre os olhos.