Não foi o meu primeiro Concerto de Ano Novo na Gulbenkian, e tenho a sorte de ter assistido ao de Viena há muitos anos com os meus Pais. Mas o que a Gulbenkian nos ofereceu esta semana, a mim e à minha família, e a todos os que estivemos no Grande Auditório, não foi apenas um concerto, foi um vislumbre da eternidade.

As peças foram bem escolhidas e no registo habitual num Concerto de Ano Novo – valsas e polkas de Strauss, árias de óperas de Verdi, Bizet, Puccini, além de Mascagni, Donizetti Giordano e Ponchielli, e, a fechar, o inevitável Danúbio Azul que, no início do ano, não cansa.

A direção coube ao Maestro Frédéric Chaslin, de presença agradável, preciso, enérgico. E um tenor, Jonathan Tetelman, um jovem de trinta e poucos anos, que já leva uma impressionante carreira. A sua juventude é uma bênção, porque assim ainda teremos muitos anos para gozar da sua voz magnífica, quente, vibrante, que encheu o Grande Auditório.

No final do programa, romperam os aplausos, longos e entusiasmados, a uma orquestra, um maestro e um solista que já se tinham superado. Bravo, bravíssimo! Meia dúzia de apressados iam saindo da sala.

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Perderam os encores, e o que eles trouxeram, e que já não foi deste mundo.

Tetelman começou por nos presentear com uma inesquecível interpretação de Nessun Dorma. A escolha era arriscada, tendo em conta que a peça foi imortalizada por Pavarotti e, desde aí, pareceu ter ficado definitivamente vedada a outros mortais. Não ficou. Numa interpretação incrivelmente arrebatadora, o tenor funde-se na peça com tal emoção e densidade que a plateia entra em apoteose, ainda a orquestra dava os últimos acordes. Tenor e Maestro unem-se num abraço largo, tamanha a intensidade superlativa daquele momento, unidos pela Música, gratos pelo que cada um tinha tornado possível ao outro. Gratos nós, também: foi por pouco que não saltei em voo do meu lugar para aquele abraço. Naquele instante não havia guerra, nem Pedro Nuno Santos, nem impostos. Só havia Música, Beleza, Infinito. Deve ser assim, o Paraíso.

Depois, ainda a Marcha Radetzky, presença obrigatória nos concertos de Ano Novo. O Maestro em sintonia perfeita com a plateia, liderando a expressão, marcando o ritmo, e tirando visivelmente prazer de uma obra que certamente já dirigiu centenas de vezes. Como se não bastasse, no final ainda tivemos o famoso Love Theme d’O Padrinho, de Nino Rota, num arranjo para tenor e o que me pareceu ser um bandolim.

Cá em casa conhecemos bem a Gulbenkian Música, que presta um serviço único à escala nacional, ombreando com as grandes casas internacionais. Traz-nos programas e intérpretes excecionais, que esgotam o Grande Auditório. O que é verdadeiramente extraordinário, no país em que vivemos, não é que haja quem faça algo bem feito, coisa a que a Gulbenkian já nos habituou há décadas: é que se consiga fazer sempre ainda melhor. Esta semana foi exemplo disso. Obrigada, Gulbenkian!