Boa pergunta! Alguns dos leitores interrogar-se-ão, como Pais, Professores, órgãos de gestão pedagógica, do ensino público ou do particular… Não terei a pretensão de dar uma resposta que agrade a todos, mas também não a procurarei na Finlândia.

Antes de prosseguir, é importante clarificar o que, na minha opinião, é um bom professor. Todos nós conseguimos enumerar pelo menos três bons professores com quem nos cruzámos ao longo do nosso percurso académico.

Um bom professor é aquele que domina os conteúdos que leciona e que os transmite aos seus alunos com sucesso; é aquele que perante dúvidas e dificuldades volta a explicar; é aquele que mantem um equilíbrio de tranquilidade e boa-disposição nas suas aulas; é aquele que propõe um trabalho de que todos os alunos falam mesmo depois da aula acabar; é aquele que comunica eficazmente, escuta e se interessa de forma particular por cada um dos alunos; é aquele que motiva os alunos a pensar, investigar e implicar-se na resolução dos trabalhos; é aquele que não demora muito a corrigir os testes; é aquele que prepara algumas aulas sem recurso ao “manual”; é aquele que tem sempre um comentário positivo para cada aluno; é aquele que utiliza os recursos digitais mais inovadores e cativa a atenção, até dos mais distraídos; enfim, é um super-herói!

Infelizmente, um bom professor nem sempre consegue estar bem-disposto; corrigir os testes depressa; propor trabalhos diversos e ricos em motivar para além do espaço da aula; não usar o “manual”; resolver os conflitos sem “mandar para a rua”; fazer/tecer comentários positivos sobre os seus alunos; é um vilão!

Fui aluna do Ensino Internacional em Escolas no estrangeiro e em Portugal. Licenciei-me em Línguas e Literaturas Modernas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lembro-me claramente daqueles professores que deixaram a sua marca no meu percurso, os que me levaram a decidir que profissão escolher.

Sou professora há 20 anos. Ensino Inglês. Estagiei numa escola da periferia de Lisboa e desloquei-me para o Alentejo durante 5 anos. Regressei à Grande Lisboa para colocações anuais em escolas diferentes. Há 9 anos aceitei o desafio de deixar uma confortável vaga de efetiva nos quadros do Ministério de Educação e Ciência, para exercer no ensino privado em exclusividade. Hoje em dia exerço funções de Direção Pedagógica. Já trabalhei com muitos Professores de áreas disciplinares muito distintas e de níveis de ensino muito díspares. Reconheço numa maioria as capacidades e virtudes de super-heróis que enumero acima. Infelizmente nem sempre se demonstram. E porquê? O que está a acontecer? Onde estão os bons Professores?

Estarão perdidos, desmotivados, enganados, cansados, doentes, em burnout?

Diria “esmagados”. A vontade de colocar em prática todas as teorias discutidas e veiculadas nos cursos da via educacional esvai-se. A imaginação galopante que acompanha o entusiasmo da primeira aula da vida, da primeira turma esquece-se. A sede de ensinar, o sentimento de que no final do dia fizemos a diferença no processo de aprendizagem daquele aluno esfuma-se. A vontade de conhecer novas turmas a cada mês de setembro, rever os alunos que crescem tanto no verão, vai-se esmorecendo…

As causas podem ser várias. Por exemplo, a solicitação para desempenhar diferentes papéis (professor, diretor de turma, professor do ensino especial, administrativo, mediador familiar, apoio emocional, contacto com entidades de apoio social, entre outros). Também a necessidade de a cada mudança legislativa nos apropriarmos das “novidades”. Por exemplo, atualmente, refira-se o novo regime de inclusão de alunos com diferentes níveis de barreiras à aprendizagem (o atual decreto-lei 54/2018) e a extensa documentação de suporte que lhe está associado; bem como a implementação de diferentes formas de trabalhar os domínios do projeto de Flexibilidade e Autonomia Curricular entre disciplinas e os seus currículos (refira-se o decreto-lei 55/2018). Acresce a excessiva carga burocrática inerente às diferentes funções, a saber, as atas e as evidências dos domínios trabalhados que devem ficar registados em documentos de suporte. Não esquecendo as necessárias, ainda que desgastantes, reuniões com pares, com pais e encarregados de educação, com diferentes entidades para articulação de projetos, bem como a necessidade de uma eficácia em gestão de conflitos em turmas com demasiados alunos, muitos deles só com a necessidade de serem “ouvidos”. Somando tudo isto a uma carga letiva excessiva, parece sobrar muito pouco tempo para dedicar ao que é realmente importante – a preparação das aulas.

Onde encontramos então os bons professores? Em casa? De baixa médica? Adormecidos? Indolentes? Desmotivados nas salas de aula? Em antecipação constante do final de cada tempo letivo? Ou cheios de imaginação e vontade de “dar aulas”, acabados de terminar a Universidade?

Tenho a convicção de que todos os Professores que encaram a educação como uma missão, com gosto e entrega, não se desviam do seu caminho. A escolha da profissão de Professor é um modo de vida que consome e molda aquilo e aqueles que nos rodeiam. Os bons Professores encontram-se agora a sair das Universidades; estão ao nosso lado nas salas de aula a dar aulas, e estiveram também nas escolas há 20 anos atrás, quando nos deram aulas. Sempre houve e sempre haverá bons professores. O verdadeiro desafio é fazer crescer a vontade de se ser um bom professor.

Para tal, é necessário criar as condições para que exerçam as suas funções tendo em conta cada contexto escolar. Lecionar o 1.º ou o 2.º ciclos não é menos desgastante do que o 3.º ciclo, o secundário ou até o universitário. Cada universo tem os seus desafios. Onde estão então os bons professores? A resposta não é geográfica, nem pecuniária, muito menos universal. A resposta prende-se com o contexto em que se inserem. Uma boa equipa educativa contagia-se mutuamente para implementação de práticas de sucesso. A solução encontra-se no seio das escolas, nas condições que aquele contexto educativo proporciona e entre todos. É importante motivar uma equipa inteira para preparar aulas verdadeiramente significativas, deixar que em sala de aula transpareça a paixão pelos temas a tratar, trabalhar em parceria com os outros professores para que identifiquem o real significado daquilo que são as aprendizagens essenciais de um aluno; partilhar as boas práticas implementadas nas aulas; procurar projetos inovadores que desafiem os colegas com quem trabalham e proporcionar aos alunos oportunidades de experienciar novas vivências. O gosto de saber que os alunos chegam a casa e anunciam: “Sabiam que hoje, lá na escola, aprendi que…” A sede de aprender está ligada à paixão com que se transmitem os conteúdos. Isso é educar e faz-se nas escolas: é lá que se encontram os bons professores!

Diretora Pedagógica do Colégio Sra. da Boa Nova

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.