O cançonetista Salvador Sobral afirmou que nunca cantou nem cantará em Israel, anúncio que deixou inconsoláveis multidões de israelitas. Imagino que neste momento as ruas de Telavive e Jerusalém se tenham enchido de manifestantes a exigir a cabeça de Netanyahu e uma digressão urgente do sr. Sobral.

Estou a brincar. A proclamação do sr. Sobral tem o mesmo peso da minha recusa em escrever na Spectator. E uma explicação similar: como absurdamente acontece comigo na redacção da revista inglesa, o sr. Sobral nunca cantou em Israel porque em Israel ninguém sabe quem é o sr. Sobral, e é preciso uma dose muito elevada de soberba e deslumbre e chalupice para alguém achar que a sua ausência priva os outros de uma benesse sem preço. No máximo, a determinação do sr. Sobral constitui um impulso para que Israel prossiga a guerra justa e justificada que trava em Gaza. Do pouquíssimo que infeliz e inadvertidamente já ouvi da criatura, a verdadeira ameaça seria a criatura prometer cantar em Israel.

O importante é que, nos tempos que correm, e que correm de modo muito parecido ao que corriam nos anos 1930, cada um se esforce para exibir em público uma saudável e virtuosa repulsa por judeus, às vezes mal disfarçada de “anti-sionismo”, às vezes nem isso. Há governos à deriva que, face ao colapso social iminente nos seus países, condecoram as proezas do Hamas e “reconhecem” um estado que não existe. Há ociosos que participam em festivos cruzeiros no Mediterrâneo, enquanto fingem condoer-se dos que passam fome mas rejeitam a entrega dos “alimentos” que dizem transportar. Há tarados que aproveitam o espírito da época para retomar à luz do dia as velhíssimas teses conspirativas que colocam os “sábios do Sião” por detrás de todas as calamidades da Terra (incluindo, e esta é fresquinha, o assassínio de Charlie Kirk, “obviamente” cometido pela Mossad). Há o candidato presidencial António Filipe a acusar o “sabor a sangue” nas clementinas de origem israelita à venda nos supermercados (um parêntesis para recordar com nostalgia que identificar comércios de judeus é uma tradição antiga e uma transição lógica para a identificação dos judeus em si, com estrelinha na lapela, e, numa terceira fase, o seu profiláctico encarceramento; estranhamente, o flagrante humanismo do dr. Filipe não o instiga a boicotar produtos chineses, por muito que tresandem a hemoglobina os 60 milhões de mortos pelo regime). E há Miguel Sousa Tavares.

Em abono do rigor, convém notar que o dr. Sousa Tavares não adere a modas e está longe de ser um neófito na aversão a Israel. Boa parte da longa carreira dele, aliás, estrutura-se a partir do conceito de que Israel é para abater, se não literalmente pelo menos nos julgamentos e comentários que regularmente pratica. Há décadas que o dr. Sousa Tavares sabe da influência nefasta daquela desvairada nação na região e no mundo. E quando não sabe, inventa.

Em comentário televisivo recente, o dr. Sousa Tavares cita a quantidade de vítimas da guerra – ou do “genocídio”, conforme ele, aqui sem grande originalidade, designa a guerra – divulgada pelo mítico Ministério da Saúde de Gaza: 62 mil, presume-se que divididos entre 31 mil mulheres, 31 mil crianças e zero terroristas. Um instante depois, o dr. Sousa Tavares não se satisfaz com a informação inflacionada do Hamas e, de degrau em degrau, sem qualquer contraditório ou revirar de olhos do entrevistador, sobre a parada até mencionar uma “comissão da ONU para os territórios ocupados” que sugere a morte de “mais de 800 mil palestinianos em Gaza”. Repito, por extenso e para não invocarem gralhas: para o dr. Sousa Tavares, é plausível que Israel tenha matado mais de oitocentas mil pessoas em dois anos, ou seja quase 40% da população de Gaza (a qual, graças à “limpeza étnica” em curso, cresceu de 1,5 para 2,1 milhões em 20 anos). Com o dr. Sousa Tavares, tudo é plausível – logo que permita “provar” a essência maligna de Israel.

De resto, uma fracção de segundo após proferir a inanidade anterior o terreno ficara pronto a receber a inanidade seguinte: “Nós estamos a assistir ao Holocausto do século XXI”. Reparem que para o dr. Sousa Tavares não existe o Congo, o Sudão, a Nigéria, a Síria, o Iémen, o Iraque e evidentemente não existe a Ucrânia, lugares onde as lutas militares ou “civis” têm causado baixas um nadinha superiores às de palestinianos, mesmo se, à semelhança do sr. Sousa Tavares, torturarmos cruelmente os números. A maçada é que nem a imaginação do autor de “Equador” é capaz de culpar os judeus pelas referidas barbáries. E sem judeus para culpar, não há barbárie para lamentar.

Os que padecem de optimismo incurável podem talvez consolar-se com o pormenor de que, ao comparar Gaza à Shoah, ainda que com embustes e sem vergonha, o dr. Sousa Tavares não pertence à classe dos “anti-sionistas” [sic] que, de caminho, negam o Holocausto a fim de facilitar o ódio. Sucede que, num certo sentido, o dr. Sousa Tavares faz pior: ao comparar o extermínio industrial de milhões com as consequências inevitáveis de um conflito urbano em que o “invadido” fomenta o risco da própria população, o dr. Sousa Tavares não nega o Holocausto: desvaloriza-o. Ao exagerar o horror, parcialmente fictício, que lhe interessa, o dr. Sousa Tavares ridiculariza o horror imensamente maior que no fundo despreza.

Descontadas as patranhas, o dr. Tavares tem o direito de não gostar de judeus. E os que não preferem cultos da morte a sociedades civilizadas têm o dever de não gostar do dr. Sousa Tavares.