Sabem do que sinto falta na corrida presidencial? De activistas da Climáximo, como os que estiveram na meia-maratona da EDP em protesto contra o facto da empresa se dizer preocupada com o ambiente sendo, segundo os clientes do mês da Super Cola 3, “culpada direta da “crise climática””.
Na corrida presidencial, sim, havia óptimos motivos para assinalar grotescas contradições e da forma mais colante que os irritantíssimos activistas da comunista Climáximo conseguissem congeminar. É ver Gouveia e Melo: em 2021 solicitava corda para se enforcar caso decidisse entrar na política; um ciclo olímpico depois, ignora isto, olimpicamente, e passa de se enforcar para se empanturrar. Nomeadamente com pastéis de nata, numa ação de campanha em que deu a conhecer a qualidade do dito pastel produzido num certo snack-bar, que só não publicito porque a quantidade de matéria produzida pelas redes sociais em escassos dias faz com que encontrar um post seja mais difícil do que descobrir o conteúdo do buraco de uma agulha num palheiro.
O que importa reter é o seguinte: Gouveia e Melo foi de Almirante a Marcelo em menos tempo do que um Tesla vai de zero a cem naquele modo Turbo Boost, ou lá o que é. Merecia pouco, dois ou três activistas/representantes da Loctite colados à mesa do tasco dos pastéis de nata, merecia, o Almirante Pastel.
O que não cola nada bem é a lengalenga salazarista de André Ventura: “Eu sou democrata por natureza, mas há uma expressão que se ouve muito e que faz sentido: (…) seriam necessários três Salazares para pôr isto na ordem”, partilhou o também candidato a presidente. Sou só eu, ou “eu sou democrata”, seguido de “seriam necessários três Salazares”, é a versão Presidenciais 2026 by André Ventura de “eu sou feminista”, seguido de “veste mas é a burca, mulher!”?
Mas, pelos visto, Ventura quer mesmo continuar no flirt com a ditadura, ali, sempre nos melos, insistindo em evocar o tempo da outra senhora, quando tem mesmo à mão — se pretende referir um exemplo, esse sim, de transparência — a senhora nórdica, alta a loura, que dá pelo nome de Dinamarca. Porquê insistir em Salazar e não referir, antes, como referência, a Dinamarca, que lidera o ranking dos países menos corruptos do mundo?
A desculpa será a de que (supostamente) Salazar vem sempre à baila nas conversas de café e tal. Mas isso é nos cafés em que a ASAE ainda não instituiu a forma correcta de o cliente se dirigir ao funcionário e que deve ser a seguinte: “Por favor, é um café curto à Helena Christensen.” E pronto, estava lançado o mote para não se falar de outra coisa que não a Dinamarca.
Já para não dizer — e talvez isto seja um pouco mais relevante — que acreditar que um sistema ditatorial pode, em alguma circunstância, ser menos corrupto do que, digamos, uma Dinamarca, é uma impossibilidade física (e, se calhar, até química, quem sabe): quanto maior a concentração de poder, maior o nível de corrupção. Sempre.
Daí que desejar um Salazar como garante da transparência seja ainda mais absurdo do que dizer que o país precisava de um Hitler para melhorar a rede de auto-estradas. Eh pá, há outros exemplos de boas redes de auto-estradas! Porque raio é o Hitler para aqui chamado?! “Sim, há outros exemplos, Tiago, mas a rede de auto-estradas do Hitler era, de facto, exemplar.” Não, isso é verdade. E ainda por cima ele pôs para lá imensos Porsches a circular e assim…
Bom, o que eu sei é que a economia portuguesa não conseguirá responder a uma eventual vitória de André Ventura nas presidenciais: não bastava a crise no imobiliário e agora ainda temos estes Salazares todos. Ou nos pomos a construir casas em barda, ontem!, ou não haverá esquinas suficientes para tanto Salazar. Bem, pelo menos agora que Mariana Mortágua foi para a rua, sempre podem entreter-se todos a trocar cromos sobre regimes totalitários.
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