Há exatamente um mês que o país inteiro, no Norte e no Sul, no interior e no litoral, nas praias e nas montanhas, nos supermercados e nos restaurantes, só fala de um tema quando debate política: segurança. Peço desculpa, precipitei-me. O país inteiro, não. Há uma garbosa excepção que assume a forma do Partido Socialista. O PS tem uma enormíssima dificuldade em falar sobre segurança. Em certo sentido, percebe-se. Afinal, se os socialistas entendem que não há um problema de segurança em Portugal, então não há motivo para se darem ao trabalho de apresentar soluções. Mas existe aqui uma dificuldade: se Pedro Nuno Santos não tem soluções, então o que diz sobre o tema resume-se a retórica; e, sempre que um líder se resume à retórica, fica a parecer um vazio.
Desde os tempos de José Sócrates, os portugueses já mostraram que são capazes de votar em muitas coisas. Mas fica difícil alguém votar num vazio. Talvez por isso, as últimas sondagens deixam Pedro Nuno Santos entre o desastre e o apocalipse. Para os socialistas, o barómetro da TVI/CNN que tem sido divulgado por estes dias é um susto, um aviso e um alerta. O susto: 38% dos eleitores do PS — não são eleitores genéricos, são eleitores do PS — definem a atuação de Luís Montenegro como “boa” ou “muito boa”. O aviso: 49% dos eleitores do PS aprovam a atuação do governo da AD. O alerta: só 51% dos eleitores do PS descrevem a atuação de Pedro Nuno Santos como sendo “boa” ou “muito boa”.
Olhando para estes resultados, conclui-se que os eleitores socialistas não parecem estar propriamente disponíveis para tomar a Bastilha de São Bento, especialmente se tiverem a liderá-los, como um aspirante a Robespierre, o atual secretário-geral do PS. Aliás, esses mesmos eleitores socialistas também não parecem ter uma especial confiança na capacidade de Pedro Nuno Santos tomar decisões iluminadas em relação às eleições presidenciais. Segundo o barómetro, eles preferem entregar o voto ao almirante Gouveia e Melo, enquanto o PS se entretém em jogos florais com António José Seguro, António Vitorino, Elisa Ferreira, Ana Gomes e, Deus tenha piedade de nós, Augusto Santos Silva.
Claro que não podemos ser excessivamente duros com o secretário-geral do PS. Toda a gente sabe que o cargo mais solitário do mundo é o de líder da oposição. Pedro Nuno Santos não está totalmente sozinho, mas tudo indica que a sua companhia se resume a uma única pessoa. Alexandra Leitão foi a coordenadora do programa eleitoral do PS nas legislativas; Alexandra Leitão é a representante do PS no programa “Princípio da Incerteza”; Alexandra Leitão é a líder do grupo parlamentar do PS; Alexandra Leitão é a porta-voz oficial e não oficial do PS; e, agora, Alexandra Leitão é também a candidata do PS à Câmara de Lisboa. Há uns anos, sempre que havia umas eleições alguém no PS lembrava-se de propor o nome de António Vitorino, até que ele desabafou que “Não há festa nem festança a que não vá a Dona Constança”. Passados estes anos, a Dona Constança encarnou em Alexandra Leitão, que, segundo parece, é tão competente que consegue ocupar qualquer cargo. Aliás, a própria já tinha avisado, numa entrevista: “Sou uma das mulheres do PS com condições para ser primeira-ministra”. De facto, presumindo que, por agora, podemos tirar da equação o papado, ser primeiro-ministro é um dos poucos cargos que lhe falta ocupar a mando do PS. Como o próprio Pedro Nuno Santos concluirá com melancólica angústia, sem ser Alexandra Leitão não se vê quem mais no PS o apoia, aconselha ou defende.
O glorioso balanço da liderança de Pedro Nuno Santos resume-se desta forma: na segurança, cala; no combate ao governo, tropeça; nas presidenciais, hesita; no partido, isola-se. Assim, de facto, como o PS já percebeu, vai ser difícil chegar lá.