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Pseudociência em enfermagem? Não, obrigada

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Estudos que continuam a mostrar-nos, de forma inequívoca, que estas terapias que a Bastonária defende poderem ser complementares à enfermagem, não têm qualquer efeito real.

Entrei em enfermagem em 2004, num tempo tão distante que ainda eram precisas as disciplinas de biologia e química para aceder ao curso. Hoje as coisas mudaram e há escolas de enfermagem que aceitam como específicas as disciplinas de português e geografia. Não querendo retirar importância a estas matérias, porque é evidente que um enfermeiro deve saber escrever correctamente e dominar noções geográficas gerais, é-me francamente difícil compreender como é que se empurram para longe da primeira linha duas das disciplinas nucleares da formação de todos os profissionais de saúde.

Sou enfermeira numa Unidade de Cuidados Intensivos. Trabalho diariamente com doentes críticos, num mundo de gasometrias, de equilíbrios ácido-base e de técnicas de alta complexidade funcional. A minha prática diária é totalmente baseada na ciência e na evidência e todos os dias me esforço para que a sociedade compreenda que nada daquilo que faço é por acaso. Até um posicionamento, que à primeira vista pode parecer uma técnica rotineira e simples, tem como ponto de partida um conjunto de estudos que indicam que é aquele e não outro, o posicionamento adequado para o meu doente.

E é por isto que fiquei desagradavelmente surpreendida com as declarações da Bastonária da minha Ordem que veio a público defender práticas sem qualquer suporte científico, as chamadas terapias alternativas, dizendo que a Ordem, aquela que regula a profissão que exerço e que se baseia no método científico, as encara como complementares à enfermagem tradicional, que desde sempre caminha ao lado da medicina baseada na evidência, e vê com bons olhos a sua introdução no SNS.

Eu, Carmen, enfermeira há dez anos, inscrita nesta Ordem, a exercer funções na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de Évora, não me revejo nesta postura e sei que há milhares de colegas que pensam como eu. E é importante que a população portuguesa saiba disto. É importante que os cidadãos saibam que a postura assumida pela nossa bastonária não nos vincula a todos. É importante que todos os portugueses percebam que quando recorrem ao SNS encontram, para os cuidar, enfermeiros que baseiam a sua prática em disciplinas como a biologia, a química e a psicologia. Enfermeiros que estudam ciência, que se actualizam diariamente e que sabem o que são estudos clínicos randomizados e duplamente cegos. Estudos esses que continuam a mostrar-nos, de forma inequívoca, que estas terapias que a Bastonária defende poderem ser complementares à enfermagem, não têm qualquer efeito real.

Ana Rita Cavaco é a minha bastonária. Mas, e ela que me perdoe, um placebo será sempre um placebo.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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