Rússia-Ucrânia

Que a história se repita

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Se a Ucrânia não for abandonada a meio do caminho para a integração europeia, esse será o pior dos pesadelos para os dirigentes do Kremlin.

Num momento em que a crise económica é uma realidade cada vez mais sensível na Rússia, em que o rublo continua a cair não obstante as intervenções de milhares de milhões de dólares do Banco Central, o primeiro-ministro russo Dmitri Medvedev publica num dos jornais russos (Nezavissimaia Gazeta) a sua opinião não sobre o futuro da economia do seu país, mas da Ucrânia. Seria caso para recordar a expressão: “apanha que é ladrão!”.

Escreve ele que a economia ucraniana está perto do colapso e que o pior ainda virá, pois vãs são as esperanças dos dirigentes ucranianos na ajuda da União Europeia e dos Estados Unidos. Porém, mais à frente, admite que a Europa pode ajudar a evitar a falência, mas não será uma ajuda tão substancial como a que receberam alguns dos países membros da UE em 2008.

Além disso, Medvedev defende que a Rússia “está farta” de alimentar a economia da Ucrânia e que quer passar a ter com o país vizinho relações “pragmáticas”.

“A melhor maneira de mostrar que nós, na Rússia, respeitávamos e respeitamos a Ucrânia é o reconhecimento do seu direito de escolha. Mas a Ucrânia tem de lembrar-se que qualquer opção é, antes de tudo, uma grande responsabilidade. No futuro europeu farto é preciso trabalhar muito e não “saltar”. Querem viver “como na Europa”, aprendam a pagar as contas. Primeiro, as russas”, frisou ele.

Daqui pode-se concluir que os ucranianos até agora não têm trabalhado, antes vivido à custa do “irmão mais velho russo” e, se quiserem continuar a “saltar”, é só deixarem-se de “ilusões europeias”.

Mas se insistirem na aproximação à UE, os ucranianos arriscam-se às “medidas proteccionistas” por parte de Moscovo. Segundo Medvedev, “claro que não iremos simplesmente ficar a olhar para esse processo, mas tomaremos medidas cujo resultado será a redução das exportações de mercadorias para a Rússia, a Bielorrússia e o Cazaquistão. Neste caso, as perdas de Kiev poderão rondar os 15 mil milhões de dólares”.

Além disso, o primeiro-ministro russo promete fechar as portas do seu país à mão de obra ucraniana, o que ajudará não só à catástrofe económica, mas também social no país vizinho. Em conformidade com os números apresentados por ele, “cerca de seis milhões de pessoas (ucranianos) entram na Rússia para realizar trabalhos sazonais, as suas perdas poderão ser de 11 a 13 mil milhões de dólares, o que constitui cerca de 7% do PIB da Ucrânia”.

A esses trabalhadores sazonais Medvedev acrescenta os cerca “400 mil especialistas altamente qualificados da Ucrânia”.

Quanto à situação no Leste da Ucrânia, a posição de Medvedev é também clara, a região de Donbass e os seus problemas são da responsabilidade das autoridades de Kiev, enquanto que “a Crimeia é da Rússia”.

As intenções do Kremlin em relação à Ucrânia são claríssimas: criar o máximo das dificuldades aos dirigentes de Kiev para que a situação económica, social e política se degrade ao ponto de serem os próprios ucranianos a, como gostam de dizer os “patriotas” russos, “virem de joelhos pedir misericórdia e ajuda”.

Neste contexto, é importante que os dirigentes da UE e dos EUA compreendam que Moscovo lhes lança um desafio semelhante àqueles que foram lançado pelos comunistas soviéticos depois da Segunda Guerra Mundial: não abandonaram os habitantes de Berlim Ocidental quando eles se viram bloqueados por tropas soviéticas, nem abandonaram a República Federal Alemã à sua sorte, ajudando-a a transformar-se num país próspero e forte.

Se tal acontecer e a Ucrânia não for abandonada a meio do caminho para a integração europeia, esse será o pior dos pesadelos para os dirigentes do Kremlin.

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