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Corrupção

Quem quer investir em Portugal?

Autor
  • Filomena Martins
1.622

Um ex-ministro que recebia de um banco. Um primeiro-ministro e o maior banqueiro acusados de corrupção. Deputados envolvidos em esquemas. E até o futebol investigado. Quem é que quer investir por cá?

Hans Bengtsson chegou a Portugal há duas semanas. Disseram-lhe que o país se tinha tornado um modelo de bom aluno na União Europeia depois de sair de um pedido de resgate complicado. Que tinha reduzido o défice e apresentado brilharetes em Bruxelas apesar de ter um Governo apoiado pela extrema esquerda. Que tais resultados tinham levado o ministro das Finanças português a ser conhecido como o Ronaldo entre os seus pares. Que por isso fora eleito presidente do Eurogrupo, já sonhava com um cargo de comissário europeu e até de possível futuro primeiro ministro das Finanças da Europa. Que o sol quase permanente e a história estavam a desenvolver o turismo para números nunca vistos, sobretudo em Lisboa e no Porto. Que até podia trazer os pais, porque havia vantagens fiscais para estrangeiros na reforma. Com toda a propaganda assimilada, o empresário nórdico estava disposto a fazer um largo investimento no sector turístico nacional. Mas primeiro quis vir ver com os próprios olhos.

Começou a trabalhar, ao mesmo tempo que ia navegando na Internet e vendo a televisão do quarto de hotel. Conseguiu entender que existia uma polémica qualquer que envolvia o presidente do partido que governa, o PS, e de mais uns tantos deputados das ilhas (de que tão bem também lhe tinham falado). No dia seguinte percebeu que esses deputados, usando um estratagema legal, recebiam a duplicar pelas viagens que faziam e que o tal dr. César não via nenhum problema ético nessa prática. Que era mesmo defendido acerrimamente pelo seu colega partidário, presidente da Assembleia da República, o nº. 2 da hierarquia portuguesa. E que o primeiro-ministro nada dissera sobre o tema. Interessado, vasculhou mais um bocadinho no Google pelo tal nome César e viu que o apelido familiar era comum entre muitos empregos no Estado, da mulher ao filho e nora, incluindo o irmão e a sobrinha.

Entre Lisboa e o Porto, para encontrar o melhor local para investir, a maior parte do tempo sempre sob chuva e frio (parece que nesta primavera o bom tempo português é mito), apercebeu-se que mais um caso abria as notícias online e os jornais da televisão. Um ex-ministro da Economia do Governo socialista que deixara o país na bancarrota era investigado por beneficiar a principal elétrica portuguesa, agora dominada por capitais estrangeiros (sobretudo chineses). Que o tinha feito porque o banco onde antes trabalhara queria manter interesses nessa empresa. E que esse mesmo banco lhe teria continuado a pagar 15 mil euros por mês, através de um pouco transparente e complicado sistema de offshores. Mais um clique e apareceu-lhe uma imagem icónica do dito governante no Parlamento, devido à qual fora obrigado a demitir-se. Nova pesquisa, uma ajuda do tradutor online, e descobriu que esse ministro acabou a dar aulas nos EUA, na prestigiada universidade de Columbia, num curso subsidiado pela empresa que terá beneficiado. E ainda percebeu tratar-se de alguém por quem Hugo Chávez, o ex-ditador da Venezuela, tinha um especial apreço, ao ponto de o tratar pelo diminutivo de “amigo Piño”. Mas sobre o assunto também não encontrou nenhuma crítica do partido, nem dos colegas de então, muitos agora de novo a governar. Pareceu-lhe que apenas uma eurodeputada sem papas na língua se indignou, mas ninguém lhe ligou.

Como o seu investimento envolverá financiamento, procurou pelo banco que pagava ao ministro. Afinal já não existe. O então maior banco privado português faliu entre múltiplos esquemas do grupo de que fazia parte, liderado pelo homem que era considerado o mais poderoso do país. Essa falência levou o Estado a intervir, deixou milhares de lesados e uma conta que continua a pesar todos os anos no Orçamento (os vários problemas e polémicas da banca com que se deparou começam aliás a assustá-lo). Apurou ainda que há uma grande investigação em curso na Justiça, que o tal líder Salgado esteve detido e que o caso arrastou consigo a maior empresa de telecomunicações, vendida a desbarato, e os seus gestores. Mas também que o banqueiro, acusado de 21 crimes, entre eles o de corrupção, é arguido (perguntou e soube o que queria dizer tal condição) noutros processos judiciais graves, entre eles o que envolve o ministro e a tal elétrica, a EDP. Que teria uma empresa só para fazer pagamentos suspeitos. E que receberia prendas de milhões de alguns empreiteiros.

Um link levou ao outro e a mais uma desagradável surpresa. A de que o próprio primeiro-ministro, aquele que foi obrigado a pedir o resgate financeiro para o País, terá sido um dos corrompidos pelo banqueiro. Que também esteve preso e foi acusado de 31 crimes graves. Que terá recebido quase 25 milhões de euros. Que vivia uma vida de luxo com dinheiro que exigia a um amigo empresário por ‘empréstimo’. Que mandava escrever livros em seu nome e depois dava dinheiro aos seus apoiantes políticos para os comprarem. Percebeu então aquelas imagens que vira na televisão. Que era ele o homem interrogado por procuradores a quem apontava o dedo e com quem gritava. Que justificava os luxos por achar que um político “deve ser vaidoso”. Que se defendia atacando os homens da Justiça por revelarem tais imagens, mesmo que essas afinal estejam nas mãos de muita gente e que a lei permita a sua divulgação se tiverem interesse público.

E a ele interessou-lhe, e muito, saber que o País onde quer investir e onde os pais podem passar a reforma, teve um tal primeiro-ministro. Estranhou, por isso, haver gente a defender o engenheiro Sócrates (parece que também houve dúvidas quanto a tal título) e a considerar mais graves as fugas e a divulgação de vídeos tão reveladores do que a corrupção de que é suspeito.

Tentou saber mais sobre o governante e não lhe faltaram links sobre investigações, entre elas as da sua formação académica. Parece que em Portugal há uma estranha obsessão com a frequência da Universidade. Houve ministros (um tal de Relvas) a quem foi até anulado o curso. O último caso envolveu o secretário-geral do novo líder do partido da oposição, que mentiu sobre uma passagem pela Universidade da Califórnia e terá de repetir as aulas do mestrado (felizmente não sabe português para ler a criticada tese escrita pelo sr. que entretanto se demitiu). Pelo meio percebeu que há também uma investigação da Justiça ao vice-presidente desse partido, o PSD. E não conseguiu entender porque é que o seu novo presidente mantém tão grande proximidade com o actual primeiro-ministro e adversário. Afinal este aliou-se à extrema esquerda numa jogada política para chegar ao cargo depois de perder as eleições e tirou-lhe o poder.

As pesquisas já eram tantas sobre assuntos semelhantes que lhe apareceram mais uns tantos casos parecidos. Deputados a tentar receber uns trocos a mais com uns esquemas imorais de viagens e moradas falsas. Governantes que acharam normal aceitar viagens de empresas que tutelavam. O atual ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo, tal como o primeiro-ministro, a pedirem convites para ir para a tribuna do seu clube ver o futebol com os filhos. Tudo o espantou: no seu país as ofertas a políticos têm normas rígidas.

Decidiu então distrair-se precisamente com futebol já que estava no país campeão europeu que tem o melhor jogador do mundo (ainda que até ele esteja com problemas na Justiça espanhola). Mas ao passar por uma banca de jornais descobriu que o clube que é campeão há quatro anos e o seu presidente estão a ser investigados. Que não faltam polémicas, atuais e antigas, à volta do desporto. E que até foi criada uma equipa especial de investigadores por causa de tantas suspeitas.

Já com um especialista financeiro a seu lado, confirmou que o Governo apoiado pela tal extrema esquerda que apoia os líderes da Venezuela, da China, o ex do Brasil, mais o da Rússia, mas contesta os ataques à Síria e não expulsou diplomatas de Moscovo como outros 30 países em solidariedade com o Reino Unido, deixou de apostar no investimento. Que o exemplo de sucesso de corte no défice foi feito à base de cativações em sectores sociais. Que afinal o FMI acha que até 2023 Portugal e Itália serão os países com pior crescimento. Que as previsões económicas para os próximos anos são bem menos animadoras do que lhe venderam. Que até vai haver uma reforma nas rendas, que prevê de novo congelamentos e expropriações, que pode vir a bloquear o investimento que estava disposto a fazer e anular a compra do espaço que tinha encontrado. Que até os incentivos para os seus pais reformados podem cair. Que afinal os impostos estão sempre a mudar, nada o favorecem. Que a corrupção é uma preocupação do próprio Presidente. Que os subornos são uma prática normalizada. Que a burocracia é quase tão complicada como toda rede de tramóias que ficou a conhecer.

Hans já voltou a casa. Achou Lisboa e o Porto cidades magníficas para passear, a recepção calorosa, e voltará com a mulher em turismo. Mas a teia de interesses afuguentou-o. Corrupção por corrupção, prefere ir até à América do Sul ou a África. Até o calor é mais seguro.

PS. Neste texto, a única personagem e caso fictício é o de Hans Bengtsson. O resto, mesmo parecendo ficção, é a mais pura e triste realidade portuguesa. O País atrai turistas. Tudo o resto afasta investidores.

Só mais duas ou três coisas

  • Continuar a ler gente a insistir que a divulgação de algumas imagens do interrogatório de Sócrates é violação do segredo de Justiça ou é pura ignorância ou absoluta desonestidade intelectual. O caso já é público, a emissão dos vídeos apenas incorre em crime de desobediência e só se não tiverem interesse público, o que, na minha opinião, não é manifestamente o caso. Uma coisa é Sócrates tentar confundir a opinião pública, mentir sobre não saber que estava a ser gravado e tentar fazer crer que só os procuradores podiam ter tornado públicas as imagens que estão nas mãos de assistentes, jornalistas, advogados, etc. etc. Outra é continuar a haver quem continue a querer enganar-se (e enganar-nos) por ele.
  • Ver Carlos César no final das cerimónias do 25 de Abril a falar na necessidade cada vez maior de transparência na política e da vida dos políticos é confrangedor. Haja decência.

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