A queda de Ricardo Salgado começou pela descoberta em 2012 de transferências bancárias num valor total de 14 milhões de dólares do empreiteiro José Guilherme, um dos principais clientes do Banco Espírito Santo (BES), para uma conta de uma sociedade offshore de Ricardo Salgado na Suíça. Salgado viria a classificar estas transferências, na primeira vez que teve de deslocar-se ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal para apresentar explicações perante a Justiça, como “uma liberalidade” do seu “amigo” José Guilherme pelos conselhos que o próprio Salgado lhe tinha dado para apostar em investimentos imobiliários em Angola — e não no Leste europeu.

A “liberalidade” de José Guilherme ficou para a história. Mas, afinal, não terá sido a única. De acordo com o Expresso, uma sociedade offshore que o DCIAP diz que pertence a Ricardo Salgado terá recebido mais de 2 milhões de euros entre maio de 2006 e março de 2007 da Derinton Overseas Limited, sociedade das Ilhas Virgens Britânicas que pertencerá a Guilherme, e da Perdix, empresa sediada no paraíso fiscal do Panamá que pertencerá a outro empreiteiro chamado Jorge Silvério.

Salgado não terá sido o único banqueiro a receber fundos da Perdix e da Derinton. Também Tomás Correia, então presidente executivo da Caixa Económica Montepio Geral, também terá recebido cerca de 1,5 milhões de euros entre junho de 2006 e janeiro de 2007 numa conta numérica aberta na Union des Banques Suisses (UBS), de acordo com documentos judiciais do Tribunal Federal Penal da Confederação Helvética citados pelo Expresso.

O DCIAP, que está a investigar estas transferências num âmbito de um inquérito criminal sobre o Montepio, entende que as mesmas estão alegadamente relacionadas com um emprésimo de 84 milhões de euros que terá sido concedido pelo BES a um fundo de investimento chamado Invesfundo II — que era gerido por uma sociedade do Grupo Espírito Santo e no qual o Montepio também participava. O Invesfundo foi criado para adquirir os terrenos da antiga Marconi na Amadora para desenvolver um projeto imobiliário de 115 moradias e 255 apartamentos.

Tomás Correia já foi constituído arguido nesse inquérito onde se investiga suspeitas de corrupção, burla qualificada, abuso de confiança, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Salgado, contudo, não foi constituído arguido neste inquérito e o seu porta-voz, contactado pelo Expresso, optou por não comentar o tema.

No âmbito deste inquérito, o DCIAP solicitou a cooperação judicial internacional da Suíça para que as contas de Ricardo Salgado fossem bloqueadas e o seu produto ficasse à ordem do processo do caso Montepio — o que foi executado. Salgado tentou opôr-se no Tribunal Federal Penal daquele país mas não teve sucesso.

“O Ministério Público do Cantão de Genebra considera, no caso em apreço, que as [várias] contas parecem ser úteis à autoridade requerente para compreender os movimentos de dinheiro relacionados com a conta bancária em causa [referida na carta rogatória portuguesa]”, esclarece o acórdão do tribunal suíço, a que o jornal Expresso teve acesso, que acrescenta que as contas do ex-banqueiro vão ficar bloqueadas até ao final do inquérito-crime em Portugal.

Entretanto, o fundo Invesfundo II encontra-se à venda pois não tem liquidez suficiente para concretizar o projeto imobiliário original chamado Skycity.

O promotor imobiliário JPS Group, detentor da marca Skycity, contactou esta segunda-feira o Observador para rejeitar qualquer ligação a este caso, tal como tinha sido noticiado pelo Expresso. “Nada liga, nem nunca ligou, a JPS Group aos protagonistas da notícia”, lê-se no comunicado enviado por João Amaro, chief operations officer da empresa.

Acrescentado último parágrafo com excerto de comunicado da JPS Group emitido esta segunda-feira e embebed com a notícia feita com o referido comunicado.

Alterado valor no título da peça: Ricardo Salgado é suspeito de ter recebido 2 milhões de euros, como estava no texto, e não 2,5 milhões de euros da sociedades offshore Derinton Overseas Limited e da Perdix.