Sabemos, através das ciências da educação, que a escola pública foi uma criação do “Estado-Nação”, desempenhando um papel fundamental na emergência do “Estado-Educador”, através de um processo massivo de escolarização (a escola de massas). Este, que levou à formação dos sistemas nacionais de ensino, hierarquizados em níveis e anos de escolaridade e constituídos por disciplinas com programas próprios e únicos (de tipo prescritivo). A este modo (burocrático) de coordenação estava associado um outro, de tipo profissional: o profissionalismo dos professores, expresso pela chamada “racionalidade pedagógica”. Tudo muito racional, como convinha para esse tempo. Mas…“Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida. A vida é pois um intervalo, um nexo, uma relação, mas uma relação entre o que passou e o que passará”, lembra-nos Fernando Pessoa (através do heterónimo Bernardo Soares) no seu Livro do Desassossego.

Sabemos muita coisa… Sabemos também que, em pleno século XXI, a escola pública continua a estar organizada e a desenvolver a sua prática de acordo com um paradigma de funcionamento proveniente do longínquo século XIX, criador da escola de massas. Sabemos que a escola que continuamos a ter é a escola do ensino (heterónomo), do conteúdo (prescritivo) e da transmissão. É essa a trilogia da racionalidade pedagógica do paradigma da escolástica.

Esta realidade, em pleno século XXI deve ser entendida como um problema, uma realidade desadequada à vida atual. Na verdade, se pensarmos nas caraterísticas da nossa sociedade, mesmo que seja só por um breve momento, rapidamente chegamos à conclusão que ela é profundamente diferente daquela que levou à constituição da escola (pública) de massas.

Assim, é pertinente colocarmos a pergunta: se tudo muda à nossa volta, porque motivo a escola pública continua assente em bases conceptuais com mais de duzentos anos de idade? Não será essa uma realidade muito irracional? Convenhamos que sim. Se o é, porque motivo não a mudamos? Será por uma questão de imobilismo, medo, insegurança, ausência de perspetiva ou desconhecimento? Seja pelo que for, a escola pública, que paradigmaticamente continuamos a ter (mesmo com novos edifícios), é velha, cheira a bolor e está a estrebuchar de incapacidade em dar uma resposta eficaz às necessidades das crianças e dos jovens que a frequentam. Eles são (é importante não o esquecermos) o futuro da sociedade em que vivemos. Por isso, é urgente (cada vez mais) todos assumirmos a necessidade de refundar a educação e de recriar a escola pública.

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