Rádio Observador

caderno de apontamentos

Refundar a educação, recriar a escola pública /premium

Autor
  • António Quaresma Coelho
440

Se tudo muda à nossa volta, porque motivo a escola pública continua assente em bases conceptuais com mais de duzentos anos de idade? Não será essa uma realidade muito irracional? Convenhamos que sim.

Sabemos, através das ciências da educação, que a escola pública foi uma criação do “Estado-Nação”, desempenhando um papel fundamental na emergência do “Estado-Educador”, através de um processo massivo de escolarização (a escola de massas). Este, que levou à formação dos sistemas nacionais de ensino, hierarquizados em níveis e anos de escolaridade e constituídos por disciplinas com programas próprios e únicos (de tipo prescritivo). A este modo (burocrático) de coordenação estava associado um outro, de tipo profissional: o profissionalismo dos professores, expresso pela chamada “racionalidade pedagógica”. Tudo muito racional, como convinha para esse tempo. Mas…“Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida. A vida é pois um intervalo, um nexo, uma relação, mas uma relação entre o que passou e o que passará”, lembra-nos Fernando Pessoa (através do heterónimo Bernardo Soares) no seu Livro do Desassossego.

Sabemos muita coisa… Sabemos também que, em pleno século XXI, a escola pública continua a estar organizada e a desenvolver a sua prática de acordo com um paradigma de funcionamento proveniente do longínquo século XIX, criador da escola de massas. Sabemos que a escola que continuamos a ter é a escola do ensino (heterónomo), do conteúdo (prescritivo) e da transmissão. É essa a trilogia da racionalidade pedagógica do paradigma da escolástica.

Esta realidade, em pleno século XXI deve ser entendida como um problema, uma realidade desadequada à vida atual. Na verdade, se pensarmos nas caraterísticas da nossa sociedade, mesmo que seja só por um breve momento, rapidamente chegamos à conclusão que ela é profundamente diferente daquela que levou à constituição da escola (pública) de massas.

Assim, é pertinente colocarmos a pergunta: se tudo muda à nossa volta, porque motivo a escola pública continua assente em bases conceptuais com mais de duzentos anos de idade? Não será essa uma realidade muito irracional? Convenhamos que sim. Se o é, porque motivo não a mudamos? Será por uma questão de imobilismo, medo, insegurança, ausência de perspetiva ou desconhecimento? Seja pelo que for, a escola pública, que paradigmaticamente continuamos a ter (mesmo com novos edifícios), é velha, cheira a bolor e está a estrebuchar de incapacidade em dar uma resposta eficaz às necessidades das crianças e dos jovens que a frequentam. Eles são (é importante não o esquecermos) o futuro da sociedade em que vivemos. Por isso, é urgente (cada vez mais) todos assumirmos a necessidade de refundar a educação e de recriar a escola pública.

A escola do século XXI deve ser a escola da aprendizagem (profunda), das competências (para a vida) e da comunicação. A resposta a esta necessidade de transformação tem de brotar por dentro das escolas e das comunidades de que são parte integrante. Chega de dizer (sempre e de cada vez que se tenta mudar alguma coisa) que o problema é de outros. A resposta tem de vir de cada um de nós (diretores de escola e professores, em primeiro lugar). Sem estes atores (educativos e não burocráticos) terem uma visão clara e determinada do que é necessário fazer, andaremos a navegar ao sabor das ondas, “surfando” aquela que permita continuar a “boiar” em cima da “prancha” e manter-nos num lugar que dá jeito ter (diretor de escola) ou é necessário ocupar por uma questão de sobrevivência (professor). A mudança necessita de pessoas com visão de futuro, corajosas, determinadas e capazes.

De facto, não basta sabermos muita coisa, termos muita informação… Informação não é Conhecimento e o saber, por si só, não altera nenhuma realidade. É fundamental termos consciência, ou seja, aplicar o conhecimento que construímos a partir da informação que temos. Dito de outro modo, é urgente nas escolas uma nova práxis pedagógica (fundamentada na ciência e na lei) que substitua a racionalidade anterior pois ela é, atualmente, muito irracional. É necessária uma práxis que faz da aprendizagem significativa e da autorregulação da aprendizagem com conteúdos (projetos) diversificados, a nova dimensão da ação pedagógica dos professores e da aprendizagem dos alunos. Para isso temos (ainda) de continuar a mudar muita coisa nas escolas: nos projetos educativos, no desenvolvimento curricular, na organização e distribuição do serviço docente, nas (tristes) salas de aula, na ação pedagógica e na interação com a comunidade. Essa mudança, para tornarmos a escola pública portuguesa num espaço educativo de felicidade e de verdadeira aprendizagem, começa em cada um de nós (o mais difícil), no seio de uma equipa educativa.

“Se nos pudéssemos mudar, as tendências do mundo mudariam. Quando um homem muda a sua própria natureza, a atitude do mundo muda para ele. Este é o mistério divino supremo. Uma coisa maravilhosa e a fonte da nossa felicidade. Não precisamos esperar para ver o que os outros fazem.” GANDHI, Mahatma (1913: 241).

Professor da EB da Várzea de Sintra (uma escola pública que desconstrói o paradigma tradicional), coordenador do Departamento do 1.º ciclo do Agrupamento de Escolas D. Carlos I (Sintra) e membro da Rede Comunidades de Aprendizagem.
‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

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