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“É bom que todos nós como sociedade – e isto envolve várias áreas – pensemos nas expectativas e na selecção destes profissionais. Porque, porventura, outros aspectos, como a resiliência, são aspectos tão importantes como a sua competência técnica”.

Foi esta declaração de Marta Temido, proferida numa audição na Assembleia da República, a origem da grande polémica dos últimos dias. A maioria das pessoas entendeu-a como uma crítica à resistência dos médicos do SNS e como uma recomendação para que, quando se contratarem novos, se certifiquem que não são frageizinhos. É natural que os portugueses, que vêem o que os médicos têm feito durante a pandemia, tenham levado a mal e reagido com uma dureza que até fez a ministra tremer o beicinho.

Porém, fomos muito injustos. Ouvindo a audição toda, percebe-se facilmente que a ministra não se referia à resiliência enquanto capacidade de trabalho, nem de resistência física dos médicos. A resiliência a que ela se refere é outra, bem específica, mencionada antes da tal frase bombástica:

“(…) Por vezes, uma intranquilidade sobre o funcionamento de uma instituição é o pior cartão de visita para atrair e reter novos profissionais de saúde. Portanto, isso significa que, compreendendo as dificuldades com que os profissionais e as equipas se confrontam, também precisamos de ter a percepção de que a melhor forma de atrair, por vezes, recursos humanos é também conquistá-los para projectos de trabalho e não passar uma imagem ou intensificar uma imagem de que a instituição vive dificuldades e vive num clima de confronto.”

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E ainda, um pouco mais à frente:

“De facto, uma das circunstâncias que foi reportada, que é a questão de vários responsáveis de área apresentarem aquilo que é a sua declaração de que têm reivindicações que não estão a ser satisfeitas, é normalmente nocivo para aquilo que é a atractibilidade da instituição”.

Cá está. A resiliência de que Marta Temido fala é a capacidade de os médicos não se queixarem quando as condições não são as apropriadas para tratar de doentes. É a aplicação clínica do conselho dado num célebre vídeo amador realizado pelo Arq. Tomás Taveira: o de aguentar sem chorar. O facto de uma experiência estar a ser desagradável não deve ser publicitado, para não arruinar o dia ao resto das pessoas.

A ministra da Saúde tem o hábito de achar que os portugueses são maus percepcionadores – como aliás se percepciona no pedido de desculpas, em que se penitenciou, não pelo que disse, mas pelo facto de termos percepcionado o que disse. Aqui, considera que os médicos têm dificuldades perceptivas que os impedem de percepcionar que não devem dar a percepção de que as condições de trabalho nos hospitais são uma perceptível bodega, não vão potenciais candidatos ter o percepcionamento que é melhor recusarem o emprego. Daí dizer que é preciso “ter a percepção de que a melhor forma de atrair (…) recursos humanos é (…) conquistá-los para projectos de trabalho e não passar uma imagem (…) de que a instituição vive dificuldades”. Ou, para quem é menos perceptivo:

– Dr. Silva, como vai? Daqui Dr. Sousa. Olhe, recebi uma oferta para ir trabalhar para o seu serviço. Como é que são as condições aí no hospital?

– Magníficas! Quando começa?

– Calma. Ainda não sei se aceito.

– Não? Se fosse a si, aceitava e começava já.

– Já? Primeiro ainda teria de falar com o meu patrão.

– Ok. E depois do almoço? É que este hospital é mesmo espectacular. Quando entrar, vai ver que já não sai.

– Que gritos horríveis são esses? Está nas urgências e entraram as vítimas de um acidente com um torno mecânico?

– Não, estou na sala dos médicos. São os colegas, estão um bocadinho enervados. A que horas chega?

Na formulação popular, o que Marta Temido quer dizer é que não se atraem moscas com vinagre. Se bem que, neste caso, até faria algum sentido. A falta de produtos de higiene obriga a que se desinfectem blocos operatórios esfregando aquelas mistelas de limpeza à base de vinagre. Estou a exagerar. Espero.

Por alguma razão, António Costa lançou Marta Temido como candidata à liderança do PS: é que isto é um catch 22 saído da cabeça de uma política genial. Ora vejamos: a tutela só sabe que um hospital precisa de mais médicos se os médicos que lá estão se queixarem das más condições de trabalho causadas pela falta de recursos humanos. Mas, ao ouvir falar das más condições de trabalho causadas pela falta de recursos humanos, ninguém vai aceitar lá trabalhar. Portanto, os médicos não se podem queixar. Por outro lado, se não se queixarem, a tutela não reconhece que faltam médicos e por isso não os vai contratar. Xeque-mate de Marta Temido! Deve ser a isto que chamam o gambito da Rainha Má.

Ou seja, mais do que médicos resilientes, a ministra da Saúde exige médicos resilenciosos. Que não reivindiquem, para não se ficar com a ideia de que há razões para reivindicar. Se é para falarem das muitas horas extraordinárias sem ser no sentido de horas excepcionalmente únicas, então estejam calados. Pelos vistos, a ministra acha que aqueles sinais que há nos corredores dos hospitais, a pedir silêncio, são especialmente dirigidos aos médicos.

Agora, de facto, existe uma ligeira diferença de opiniões entre Marta Temido e os portugueses. Temido acha que o problema dos médicos do SNS é falarem de mais, quando a experiência da maioria dos portugueses é terem grandes dificuldades em chegarem à fala com médicos no SNS. Mas, lá está, deve ser mais um erro de percepção nosso.

Percebo que Marta Temido ache que é problemático que os médicos falem muito. Se, ao fim de um turno de 36 horas, têm fôlego para dizerem mais do que “ajudem-me a sentar, por favor!”, é porque ainda conseguiam fazer mais duas ou três horinhas nas urgências.

No fundo, Marta Temido coloca-nos perante o velho paradoxo filosófico: se um médico cair de exaustão, mas não estiver lá um jornalista a registar, faz barulho? Além da cabeça a bater na parede, claro.

Não admira que Marta Temido seja daquela esquerda que até costuma ouvir o hino da CGTP. É que, enquanto os trabalhadores estão ocupados a cantar, não conseguem usar a voz para se queixarem das péssimas condições de trabalho.