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Sobre o futuro do PS

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Se alguém tentou renovar o PS, libertando-o de grupos e personalidades tutelares, foi, sem dúvida, António José Seguro. E por isso foi substituído numa campanha comandada por Soares, Sócrates e Costa

Há uma questão, de algum modo posta neste artigo publicado por Paulo Trigo Pereira, no Observador, que vale muito a pena começarmos a discutir: trata-se do futuro do PS.

A tese exposta nesse artigo, embora confusamente enunciada, diz que existe hoje, no nosso país, um novo PSD e um novo PS. O primeiro, populista, maquiavélico e mesquinho, deverá mais cedo ou mais tarde desaparecer, deixando assim ressurgir a nobreza e os valores políticos do velho PSD. O segundo, democrático, aberto e transparente, deverá ter cuidado com o velho PS, conservador e imobilista, que tentará aproveitar os bons resultados alcançados pela governação do novo PS para impor as suas velhas – e más – práticas e tradições políticas.

A tese é simplista, facciosa, falaciosa e falsa, mas tem a virtude de ser uma tese, isto é, a afirmação de uma posição, que, numa das suas partes, como veremos, tem muito interesse.

Simplista, porque opõe o velho e o novo como se eles não se misturassem, atribuindo a um deles todos os problemas e ao outro todas as soluções. Facciosa, porque o seu juízo é parcial, estabelecendo absolutamente, ou a priori, que o novo PSD de Pedro Passos Coelho é mau e o novo PS de António Costa é bom. Falaciosa, porque, tomando os argumentos por factos, parte de premissas particulares para concluir universalmente que existe aquilo que diz ser «uma estratégia de identificação, aproveitamento e exploração ad nauseam» deste novíssimo e mesquinho PSD. Falaciosa, também, porque assume que «os inequívocos bons resultados» económicos e políticos do nosso país se devem «à onda de governação do novo PS», sem, no entanto, explicitar as premissas que lhe permitem chegar a tal conclusão. Falsa, por fim, porque, embora tenha havido uma rutura no PSD, não se pode de nenhum modo falar de um novo PS.

Com efeito, concordarei com Paulo Trigo Pereira se ele disser que Passos Coelho significou uma rutura no seu partido. Com ele, na verdade, a tendência liberal sobrepôs-se à social-democrata, rompendo-se o equilíbrio que, melhor ou pior, se estabelecera entre as duas desde os tempos de Francisco Sá Carneiro. Foi por esta razão, aliás, que tantas figuras importantes e representativas do PSD se afastaram e atacaram publicamente o seu líder. Vejam-se os casos, exemplares, de Ângelo Correia, António Capucho, José Pacheco Pereira, Luís Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Santana Lopes, etc.

Não creio, porém, que se possa falar de um novo PSD, pois que essa rutura não foi debatida, refletida e integrada no seio daquele partido. E não o foi por duas diferentes razões: primeiro, porque, contrariamente ao que se diz, o governo de Passos Coelho agiu quase sempre ao contrário do seu ideário liberal, na medida em que foi obrigado a executar um conjunto de medidas de emergência económica e financeira predeterminado pela troika e por José Sócrates; segundo, porque Passos Coelho não quis abrir esse debate nem provocar uma transformação consciente no seu partido, no que justamente terá consistido, do meu ponto de vista, o seu maior erro.

Coisa diferente, porém, é pretender que, com António Costa, existe um novo PS. Bem pelo contrário. Se alguém tentou renovar o PS, libertando-o de grupos e personalidades tutelares, foi, sem dúvida, António José Seguro. E por isso foi violentamente substituído, numa campanha comandada por Mário Soares e por José Sócrates e, até à prisão deste último, concertada com António Costa. É este o único PS que, com o seu modo muito próprio de operar, vemos hoje no Governo e na Assembleia da República.

É justamente aqui, porém, que se esconde o interesse desta tese de Paulo Trigo Pereira. É preciso perguntar, com efeito, por que diabo nos falam agora de uma batalha a travar, entre um novo e um velho PS, até às eleições de 2019, sob pena de um eclipse socialista, tal como aquele que se deu na Grécia, em Espanha, ou em França? Ora, a minha resposta – e a minha tese – é a seguinte: Consciente dos insólitos e inesperados desaires eleitorais e políticos do PASOK, do PSOE e do PSF, o Partido Socialista português trava uma luta pela sobrevivência, cujo inimigo é o Bloco de Esquerda. A ventura de um adversário comum uniu-os temporariamente no apoio a uma mesma solução governativa, adiando essa batalha até às próximas eleições. O PS, porém, não quer ir a votos enquanto aliado do BE. Precisa, por isso, de reaproximar-se do centro, assumindo-se como um partido de esquerda, mas do sistema. Para que tal aconteça, no entanto, Pedro Passos Coelho tem que sair do PSD. Com efeito, se a aliança do PS com a extrema-esquerda se deveu à ameaça neoliberal que Passos Coelho representava ao centro, então, a sua reaproximação tem como pressuposto a supressão dessa ameaça.

É por isso que insistentemente nos dizem que tudo parece conjugar-se para que, no novo tempo político que se inaugurará depois das eleições autárquicas (conforme o anúncio há muito tempo feito pelo Presidente da República), Pedro Passos Coelho saia de cena. Não, contudo, por causa de pressões internas, já que os seus tão proclamados opositores teimam sempre em não aparecer. De onde virão, então, essas pressões, que eficientemente preparam e antecipam a inevitabilidade da sua saída? De onde, senão do PS, cujo futuro depende dela?

Quem sabe, porém, se não iremos ter outra surpresa? Tal como o diabo não veio e a geringonça irá provavelmente durar uma legislatura, talvez Passos Coelho não saia, forçando o PS a ser consequente com as suas opções. Pela minha parte, espero que nos surpreenda – uma vez mais!

Gonçalo Pistacchini Moita é investigador de filosofia na Universidade Católica Portuguesa

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