Assembleia Da República

O novo PSD e o velho PS

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Enfim, o novo PSD é para esquecer e não se recomenda. Quanto ao velho PS, há que renová-lo. Que do novo nasça o velho e do velho nasça o novo.

1. O PSD é um partido indispensável para o funcionamento da democracia portuguesa. Muitas das reformas, ainda por concretizar, essenciais para o país, quer tenham a ver com o sistema político (sistema eleitoral por exemplo), com a revisão da Constituição (que sim tem de ser revista), ou os grandes investimentos públicos, necessitam também do apoio do PSD. Quando vemos quem foram os primeiros líderes do PSD – Sá Carneiro, Emídio Guerreiro, Sousa Franco, Menéres Pimentel, Pinto Balsemão – reconhecemos-lhe mérito, pensamento e obra feita. É certo que hoje ser político é mais difícil, pois é necessário também conhecer tecnicamente muitos dos dossiês, numa sociedade de informação que escrutina, e bem, cada vez mais, as decisões e os decisores políticos. Quando olhamos para alguns putativos candidatos à liderança do PSD, ou para o recém-eleito líder parlamentar Hugo Soares, vemos quanto estão longe dos perfis que desejamos para os referidos cargos. São pessoas que ocupam o lugar que ocupam, porque souberam gerir as suas redes de solidariedades dentro do aparelho partidário — e fora dele — e manobrar bem a arte (menor) da filigrana do poder. O caso recente do uso, como arma de arremesso e chicana política, do número de mortes nos incêndios de Pedrogão Grande, não foi um desaire do novo líder. É sintomático da forma de atuação política deste, novíssimo, PSD. Primeiro, escolhe-se um acontecimento relevante e com impacto na opinião pública em que o governo tenha estado menos bem. Segundo, tenta-se transformá-lo no único acontecimento relevante e mediático do país, e esquarteja-se todos os eventos, contradições, entre entidades políticas ou administrativas. Ouve-se o máximo de entidades diferentes para ter o máximo de opiniões diferentes e descobrir novos casos relacionados. Terceiro, pressiona-se sem cessar, em comissões (de inquérito ou não), em audições, requerimentos, perguntas o responsável político direto (ministro) de forma a fazê-lo quebrar pessoalmente (psicologicamente) de forma a que se demita, ou caso isso não aconteça, chamuscá-lo, a ele(a) e ao primeiro-ministro junto da opinião pública. Este modus operandi do novíssimo PSD já o vimos, com os mesmos protagonistas, aquando do caso dos SMS entre Mário Centeno e António Domingues que, imagine-se, levou até à criação de uma inédita e surreal comissão de inquérito. Esta estratégia às vezes tem “sucesso” como foi o caso do chamado Galpgate que já levou à demissão de secretários de Estado. Porém, foi um sucesso relativo dado o seu efeito boomerang para quem tem telhados de vidro. Poderemos assistir a um Oliveiragate, alegadamente envolvendo os líderes parlamentares do PSD que comprovadamente deram justificações não apropriadas para as suas faltas à Assembleia da República. Já temos também notícias de um deputado, autarca e presidente de junta do PSD que foram à China com despesas pagas por uma empresa chinesa. É de uma estratégia de identificação, aproveitamento e exploração ad nauseum de casos que se ocupa afincadamente o novo PSD. É tudo muito pequenino, muito baixo, muito mesquinho. O PSD, e todos os que nele não se reveem nesta forma de fazer política, merecem melhor e mais cedo ou mais tarde o PSD dos valores e da nobre política emergirá.

2. O PS é um partido indissociável da génese e do dinamismo da democracia portuguesa. Como no PSD, não há um, mas vários PS. Há também um velho PS, conservador e imobilista, que considera que o partido não necessita de mudar a sua cultura política e aprender com os erros do passado. Velho, não no sentido cronológico, mas no sentido de postura mental em relação ao mundo de hoje. Há um PS que não aprendeu nada nem com o colapso do PASOK, nem do PSOE, nem com a vacuidade do Partido Socialista francês. Não entendeu que o declínio de Hollande, se deveu em parte ao facto de ter ignorado a necessidade de redução do défice público francês, e que a vitória de Macron em França, teve menos a ver com o seu programa económico e mais com a reforma anunciada do sistema político. Não percebeu que na sociedade, cada vez mais aberta, em que vivemos, os partidos deixaram de ter o monopólio da informação política; que os cidadãos têm de facto mais poder do que tinham no passado e terão mais poder no futuro. Um PS que não sabe ou não é sensível a que um dos últimos monopólios que os partidos portugueses dominam – o sistema eleitoral, de listas fechadas e bloqueadas, hoje residual na Europa civilizada – é um obstáculo à renovação do sistema político. Um PS que não percebe a necessidade de entidades reguladoras independentes e do escrutínio parlamentar dos seus dirigentes, que desejaria o fim da CRESAP e do Conselho de Finanças Públicas, e que pelo contrário considera que basta a confiança política como único critério para a nomeação de todos os cargos de direção superior. Este velho PS coexiste e conflitua com um PS novo que quer alterar práticas e más tradições. Quer melhorar a qualidade da democracia e as exigências de transparência aos titulares de cargos políticos e públicos tal como está escrito no programa do governo. Os bons resultados deste governo, não apenas na dimensão económica (crescimento e do emprego) e orçamental, mas também no assegurar da estabilidade política, mostraram a predominância deste novo PS. Antes do mais no relevo dado à própria estabilidade política e à compreensão de que essa estabilidade é uma condição necessária, ainda que não suficiente, para uma boa governação. Depois pela assunção de que não basta crescimento e emprego. Este novo PS sabe que os cidadãos sabem que se não houver responsabilidade orçamental e finanças públicas sustentáveis o país não tem futuro.

Os inequívocos bons resultados da onda da governação do novo PS, não podem ser aproveitados pelo velho PS, para assegurar o imobilismo em áreas-chave da reforma do sistema político à boleia das boas notícias económicas. Quando chegarmos a 2019, não será apenas na dimensão económica e orçamental que será julgado este governo, e a maioria que o apoia, mas também nos passos que forem dados em matéria de justiça social e de reforma e transparência do sistema político.

Enfim, o novo PSD é para esquecer e não se recomenda. Quanto ao velho PS, há que renová-lo. Que do novo nasça o velho e do velho nasça o novo.

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