Todos nos lembramos da imagem: em Novembro de 2023, António Costa, depois de ter apresentado a sua demissão ao Presidente da República, fala ao país a partir de São Bento. Em frente a um quadro e ao lado de uma bandeira portuguesa e outra da União Europeia, o ainda Primeiro-Ministro anuncia que, na sequência do comunicado da PGR, sobretudo depois do seu último parágrafo, não tem condições para continuar à frente do Governo. Garante ainda que, a propósito das suspeitas de conduta imprópria no processo do data center de Sines, não teve sobre o tema qualquer conversa com o seu amigo Diogo Lacerda Machado, consultor dos investidores. “Nunca falou comigo sobre este assunto em circunstância alguma (…) Queria deixar aqui isso claro. O que o dr. Lacerda Machado tenha ou não tenha feito neste processo, nunca o fez com a minha autorização, com o meu conhecimento, com a minha interferência. E nunca por nunca falou comigo sobre este assunto”.
Dois anos depois, descobrimos agora que Diogo Lacerda Machado falou com António Costa sobre esse assunto. Segundo escutas reveladas na semana passada, António Costa sabia que Lacerda Machado tinha sido recebido pelo seu Chefe de Gabinete (Vítor Escária) para dar conhecimento de como estava a decorrer o processo. Tratou-se, portanto, de uma peta.
Desta não estava à espera. Então o antigo Primeiro-Ministro mentiu-nos? . O “nunca por nunca” deve ser referência à Terra do Nunca do Peter Pan, uma vez que Costa parece querer tratar-nos como crianças. Os portugueses foram apanhados de surpresa. Quer dizer, nem todos. Os especialistas em arte contemporânea terão reconhecido a tela atrás de Costa como a obra de Eduardo Batarda “Morse Segundo Braille” e rido com sobranceria intelectual da piada. Como um telegrafista ou um ceguinho, Costa domina um código de comunicação que a grande maioria não percebe. Quando António Costa diz “nunca o fez com a minha autorização, com o meu conhecimento, com a minha interferência”, nós ouvimos uma negação total. Porém, na realidade Costa está apenas a dizer que, no momento em que as coisas estavam a ser feitas, ele não sabia de nada. Nunca chega a afirmar que, depois de feitas, ele não tinha conhecimento. É um pormenor, mas permite a António Costa alegar que, tecnicamente, não mentiu.
Eu percebo porque é que António Costa quis esconder que falava com o seu melhor amigo sobre o investimento de Sines. Há várias conversas que tenho com os meus amigos que não gostaria de ver tornadas públicas. Geralmente são parvoíces juvenis sobre futebol e gajas, mas admito que, para Costa, Sines seja igualmente embaraçoso. Reconhecer que teve aquelas conversas é admitir que se excita com temas que não entusiasmam o comum dos mortais.
Há outro aspecto que tendemos a esquecer. Os segredos entre amigos nunca podem ser revelados. No código da amizade masculina, Costa dizer que não falava de Sines com Lacerda Machado não é bem uma mentira. Nestes casos, não é quem esconde que está mal, é quem deseja saber. Sempre que um dos meus amigos se divorcia eu sei que, quando a minha mulher pergunta se esse amigo já tem uma namorada nova, o meu dever é aldrabar. Ela não tem direito de exigir acesso a essa informação. A amizade prevalece. E, neste caso específico, que amizade! Os dois amigos sacrificaram os seus empregos para a defender. Costa deixou de ser Primeiro-Ministro e Lacerda Machado deixou de ser Amigo do Primeiro-Ministro. Sem essa habilitação, hoje ainda deve estar inscrito no centro de emprego.
O azar de Costa é que são justamente data centers (como aquele sobre o qual não teve nenhuma conversa com Lacerda Machado, emoji de piscar de olhos) que têm capacidade para armazenar os milhões de terabytes de conversas que os abnegados procuradores do MP esmiúçam até encontrarem os excertos em que António Costa se desmente. Uma daquelas coincidências engraçadas que dá origem a memes que ocupam horas nos whatsapp de amigos. Ao menos que isso sirva para Costa e Lacerda Machado galhofarem um bocado.