Um destes dias, o Público inventou uma notícia intitulada “Trump terá de aceitar: Cabo Verde vai mesmo ao Mundial de futebol de 2026”. E a seguir, acrescentou no “lead”: “Pela primeira vez na história, a selecção cabo-verdiana apurou-se para a fase final de um Campeonato do Mundo. Dentro de oito meses, estará entre a elite, a competir nos EUA, apesar de Donald Trump.”
De início, fiquei intrigado. Nunca me tinha passado pela cabeça que Trump estivesse pessoalmente tão empenhado em impedir que a selecção de Cabo Verde se apurasse para o “Mundial” da bola. Será que o presidente dos EUA “torcia” por um dos adversários, fosse este os Camarões ou a Maurícia? Será que é adepto fanático de Angola ou da antiga Suazilândia, que pelos vistos se rebatizou, e muito bem, de Essuatíni? Será que há uma comunidade de desportistas cabo-verdianos a aterrorizar a população do Illinois? Será que Trump odeia mornas e coladeiras? Será que há porta-aviões a rondar o Sal e ninguém me avisou? As dúvidas, dilacerantes, eram imensas, a resposta apenas uma: nada disso.
A questão é que Cabo Verde é um entre as dezenas de países cujos cidadãos podem hipoteticamente vir a ter problemas em conseguir visto para entrar nos EUA, e o Público aproveitou a deixa para sugerir que os resultados do futebol incomodam Trump. Suponho que na redacção daquele diário sinceramente se imagina o homem aos berros na Sala Oval e na rede social Truth: “Cabo Verde apurado? Inconcebível! É um ultraje e uma humilhação ao líder do mundo livre!”
Certos “jornalistas” e não só “jornalistas”, no Público e não só no Público, salivam de gozo com alucinações assim. É a escola de “jornalismo” que alimenta títulos como “Maria Corina Machado ganha Nobel da Paz contra Trump”, embora a senhora lhe tenha agradecido (e dedicado) o prémio. “Contra Trump”. “Trump terá de aceitar”. “Apesar de Trump”. O padrão é óbvio e consiste em torturar a realidade até que a realidade confesse irritar, perturbar, enxovalhar ou derrotar Trump. Não vi, mas aposto 50 euros em que já apareceu por aí a manchete: “Hamas massacra palestinianos a sangue-frio: chupa, Trump.”
Quando surgiu a designação “Trump Derangement Syndrome” (TDS), tomei-a por uma brincadeira, no fundo descendente da “Reagan Derangement Syndrome” e da “George W. Bush Derangement Syndrome”, ou seja uma metástase “natural” do corriqueiro anti-americanismo. E quando, em Abril passado, um grupo de cinco senadores republicanos do Minnesota tentou inscrever a TDS no quadro das doenças mentais reconhecidas no estado, também julguei que estavam a brincar. Entretanto, sinto-me obrigado a rever a posição: trata-se de facto de uma doença mental, que a benefício dos pacientes convém ser oficial e urgentemente diagnosticada no Minnesota e em todo o Hemisfério Norte.
Veja-se, por exemplo, o que ocorreu após a assinatura do plano de paz de Trump para Gaza. É compreensível que pessoas comuns receiem o descarrilamento do acordo pela impossibilidade de confiar em terroristas. É compreensível que apoiantes de terroristas receiem o êxito do acordo na medida em que isso os priva da “causa” e, no limite, de uma carreira no “activismo”. O que não é compreensível, excepto à luz da TDS, é haver quem genuinamente desejava o fim do conflito e agora lamenta o fim do conflito somente porque Trump foi o único estadista capaz de o alcançar.
Aliás, menos por méritos próprios do que por comparação com as anémonas que “governam” a vasta maioria do Ocidente, Trump afirma-se cada vez mais enquanto o único estadista, ponto. No seu estilo brutal, fanfarrão e à superfície errático, Trump é o elefante na loja de porcelanas nocivas e a pedirem para ser quebradas. Antes, as porcelanas riam-se de Trump. Hoje é Trump que se ri das porcelanas, espectáculo recomendável ainda recentemente em cena na cimeira do Egipto, em que zombou às claras das cerâmicas francesa, britânica, espanhola e canadiana. Em suma, apesar da insolência da equipa de determinado arquipélago africano, Trump, mesmo sem Nobel, tem o mundo aos pés. E esse sucesso, à semelhança da bonita analogia de Roger de Bussy-Rabutin sobre o amor/ausência e o fogo/vento (muito bonita: vão pendurá-la no Instagram e atribuam-na a Buda), acalma os raros casos ligeiros de TDS e agudiza os incontáveis casos terminais.
Um caso curável e notável revelou-se esta semana. A comentadora e jornalista americana Brandi Kruse admitiu publicamente ter sofrido oito anos de TDS, e anunciou, talvez iluminada por uma auréola, que se considera recuperada. E acrescentou: “É muito melhor não ter TDS: estou mais feliz, mais saudável, mais bem-sucedida. Acho até que fiquei um pouco mais atraente.” Vêem como vale a pena? Desgraçadamente, os casos terminais não prometem finais felizes, são inúmeros e continuam por aí, a rabiar no Twitter ou nos estúdios televisivos. E não, não há maneira de confundir em matéria de fanatismo os meros simpatizantes de Trump com as vítimas de TDS: os primeiros, suponho, não alimentam a esperança de que Trump descubra a cura para o cancro; os segundos têm pavor de que isso venha a suceder.