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Crónica

Um ananás a tempo

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Na música portuguesa, generalizou-se a ideia de que ao que é português convém ser descrito como parte do mundo; e que se trata de um assunto de conversa extraordinamente digno.

Ao ouvi-los falar percebe-se que os músicos portugueses se conhecem todos uns aos outros, e demonstram uns pelos outros afeição; e também, dando-se-lhes a oportunidade, todos declaram que pertencem ao mundo inteiro. Isto passa-se naturalmente em Portugal; e por isso nenhum deixa também de lembrar que é português. Visto de Marte ou de Tuy, o aspecto das declarações é o de um noticiário regional, muito comprido e afectuoso.

Como explicar que tantos músicos portugueses insistam em imaginar-se músicos do mundo? A razão parece ser que a fama que lhes interessa, ou pelo menos a fortuna, não depende como durante tanto tempo dependeu de recriarem a Beira Alta em Caracas, ou de levarem o Algarve ao Algarve: depende de recriarem Chicago na Beira Litoral; ou a Madragoa em Berlim; ou de levarem Qualquer Coisa a Qualquer Lado. Iterações frequentes da Fadista Crioula Sambando, que gravou um álbum com o Saxofonista Sueco Conhecido, assombram os elevadores do Ocidente.

Não é misterioso que todos os músicos se conheçam. A explicação não consiste porém no facto trivial de que as suas vidas são passadas a trabalhar ou a dormir uns com os outros. O que os une é a mesma, e uma única, ideia de fama e de fortuna. A ideia é: para a fortuna se verificar a fama tem de ser externa; mas para obter a fama é preciso que não haja diferença logística entre o que é externo e o que não é. A este exterior mais à mão os músicos, como todos os seus primos romancistas e professores, chamam ‘mundo.’

Que mal haverá nisso? A alguns entusiasma que a fama e a fortuna só possam realizar-se plenamente no estrangeiro: e suspeitam mesmo de um bom sinal. Nada disto tem porém realmente a ver com o estrangeiro. O estrangeiro não é o mundo: é antes constituído pelos muitos lugares particulares onde trabalham as porteiras e os banqueiros indistinguidos a quem no máximo poderá acontecer ser português, ou coxo; e a quem aquilo que são não merece grandes declarações. O que se generalizou foi pelo contrário a ideia de que ao que é português convém ser descrito como parte do mundo; e que se trata de um assunto de conversa extraordinamente digno.

Os romances, os fados e os grandes objectivos da espécie são hoje sobretudo expressos em partituras entoadas com este olho interesseiro no mundo. Não são caso único. Pertencem à companhia da cozinha de fusão e dos foruns mundiais que como os romancistas, os músicos, os curadores, os funcionários internacionais e os professores não vêm de lado nenhum e se encontram por todo o lado. A astúcia que lhes é comum, e única que têm, consiste em acrescentar sem desfalecimentos o incongruente ao local. Todos os devotos contemporâneos do mundo mostram essa mesma astúcia: sabem que o apelo limitado do seu arroz malandrinho pode ser compensado por um ananás a tempo.

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