O Conselho de Estado reuniu e decidiu exortar “todas as forças políticas e sociais (…) a que preservem entre si as pontes de diálogo construtivo e a que empenhem os seus melhores esforços na obtenção de entendimento quanto aos objectivos nacionais permanentes (…)”. E assinalou a importância de o país ter uma voz activa “na União Europeia em prol do crescimento, do emprego e da coesão, sobretudo no processo em curso de aprofundamento da união económica, orçamental e bancária”. Previsível? Sim. Cavaco Silva é e gosta de ser previsível. O que na prática significa que persegue sempre os mesmos objectivos: cuidar do seu legado político e enviar recados aos partidos.

O primeiro desses objectivos implica insistir na necessidade de serem estabelecidos entendimentos estratégicos. Assim, mais tarde, se algo correr mal, poderá alegar que lançou os avisos mas que ninguém os ouviu. De facto, há dois anos que se fala repetidamente da necessidade de gerar consensos. E há mais anos ainda que o Presidente da República trata essa questão com urgência. Antes, porque o país estava sob assistência financeira; agora, porque importa impedir que volte a essa condição. Os apelos foram tão pertinentes quanto ineficazes. Até hoje, quantos entendimentos se conseguiram? E quantos ainda se poderão alcançar? A resposta é única: zero.

Antes, e enquanto vigorou o programa de ajustamento, existiam expectativas. Os entendimentos eram necessários, possíveis e houve até tentativas para os alcançar – mas os partidos falharam. Agora, não há ilusões. O PS está num rebuliço e, a um ano das legislativas, qualquer aproximação dos socialistas ao governo seria suicídio eleitoral. A possibilidade de entendimento está, portanto, morta à partida. Nem vale a pena tentar. O presidente sabe-o. Os conselheiros de estado também. Então, para quê insistir?

Para enviar recados. Como sempre, aos partidos. Só que, desta vez, com um destinatário principal: António Costa. Isto porque Costa poderá ascender a líder dos socialistas e o pouco que se conhece do seu projecto político contraria explicitamente a posição do presidente – recusa a necessidade de entendimentos e rejeita o aprofundamento das políticas orçamentais na UE (leia-se, o Tratado Orçamental). As suas tomadas de posição (e as dos seus apoiantes) não deixam dúvidas.

Sobre os entendimentos, a meta de Costa é virar à esquerda. Mário Soares saudou a sua candidatura, afirmando que com ele o “PS não estará feito com a direita” (14 Junho). Pedro Delgado Alves estabeleceu as prioridades: “precisamos de uma alternativa que não nos meta na cama com o PSD” (18 Junho). E o próprio António Costa explicou: “o País precisa de um dia conseguir vencer o tabu e conseguir fazer um diálogo alargado à esquerda” (18 Junho). Assim, na prática, Costa e os seus apoiantes rejeitam entender-se com os partidos à direita, sabendo que serão rejeitados pelos partidos à esquerda. Ou seja, escolheram ficar à margem.

Quanto ao Tratado Orçamental e às estratégias políticas da UE, optaram pela ruptura. António Costa qualificou a assinatura do tratado por parte dos socialistas europeus como um “erro”. João Galamba subiu a fasquia e dramatizou: “ou cumprimos o tratado ou mantemos o Estado de direito democrático”. Pedro Delgado Alves reiterou o apelo ao incumprimento: “não podemos mostrar uma adesão a um cumprimento escrupuloso e integral do Tratado Orçamental” (Público, 15 Junho). E, por fim, Pedro Nuno Santos fixou a necessidade de uma ruptura: “se pretendermos defender o Estado social (…) teremos de romper com a direita precisamente onde houve consenso durante demasiado tempo – o projecto europeu” (jornal i, 2 Julho).

Os dados estão lançados e o aviso presidencial está feito. É certo que o mais provável é Costa assobiar para o lado. E, nesta fase da sua campanha interna, talvez até nem tenha outro remédio. Mas, se vencer no PS e depois no país, ficou com uma certeza: o seu projecto político esbarrará na Presidência da República. Pelo menos até 2016.