Lisboa

Um país bom para os estrangeiros /premium

Autor
1.404

É uma pena que não sejamos todos ricos, célebres – e estrangeiros, como Madonna. Porque é essa a melhor maneira de apreciar a cidade de Fernando Medina e o Portugal de António Costa.

Estacionar em Lisboa não é fácil. Nunca foi. Mas é ainda mais difícil quando se tem, em vez do proverbial carro utilitário, uma frota de quinze veículos à medida de uma celebridade americana. É porém para estes casos que existe a Câmara Municipal de Lisboa. Muita gente, no entanto, estranhou ver Fernando Medina no papel de arrumador de carros de Madonna. Para acalmar o povo, a vereação fez constar que afinal Madonna ia pagar o estacionamento: 720 euros por mês. Mas 720 euros por quinze lugares de estacionamento, dá 48 euros mensais por cada carro, no centro da cidade, ou 1,5 euro por dia – um pouco mais do que a singela moedinha. Qual o munícipe que não gostaria de ter uma proposta destas? É uma pena que não sejamos todos ricos, célebres – e estrangeiros, como Madonna. Porque é essa a melhor maneira de apreciar a cidade de Fernando Medina e, já agora, o Portugal de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa.

O estacionamento de Madonna é uma nota de rodapé no regime que transformou Portugal num paraíso para os estrangeiros. Para nós, os impostos directos mais altos de sempre; para eles, todas as isenções fiscais. Para nós, papelada e complicação; para eles, todas as facilidades. Para nós, os parquímetros da EMEL; para eles, terrenos camarários, a um euro e meio por dia.

Era assim nos antigos países socialistas: infernos de repressão e de escassez para quem lá nascia e que de lá não podia sair – mas locais encantadores para os convidados estrangeiros do progressismo internacional, que de lá vinham entusiasmados com as tardes no Mar Negro ou as noites de Havana. Gabriel Garcia Marquez nunca se queixou de Cuba e o casal Louis Aragon e Elsa Triolet regressava constantemente fascinado da União Soviética. O comunismo, para eles, foi sempre de veludo.

Mas não, não estou a dizer que é a mesma coisa. Ainda não estamos lá, como todos os dias lamentam amargamente os camaradas Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Também não estou a exigir que tirem as regalias aos estrangeiros: ainda bem que há quem possa disfrutar Portugal sem a praga da nossa burocracia e a assombração da nossa autoridade tributária. O que eu gostaria mesmo é que isso também fosse possível para quem aqui nasceu e não saiu daqui. No fundo, estas excepções criadas para os estrangeiros são uma confissão embaraçosa sobre a falência e a inadequação do regime português. Porque existem? Porque o regime, endividado e dependente de uma das economias mais estagnadas da Europa, precisa do investimento e da despesa dos estrangeiros. Por isso, tenta atraí-los poupando-os à opressão fiscal e burocrática. Muito bem. Mas não precisará o regime também do investimento e da despesa dos nacionais? E para os estimular, não seria conveniente aliviar os portugueses do estrangulamento fiscal e administrativo? Ou isso só vale para os estrangeiros?

Até onde irá o regime de excepção e de privilégio instituído a favor dos que chegam de fora? No século XVIII, os ingleses em  Portugal tinham um juiz especial, eleito por eles, para lidar com as suas questões judiciais, o “juiz conservador da Nação Britânica”. Os liberais, obcecados com a ideia de uma lei igual para todos, aboliram esse foro privativo no século XIX. Mas que acontecerá quando Madonna, em vez de ter de estacionar, precisar de ir ao Campus da Justiça, e descobrir que há-de esperar dez anos para resolver o seu problema? Irá o governo de António Costa premiá-la com uma jurisdição especial, talvez um “juiz conservador das vedetas pop americanas”?

António Nobre escreveu “que desgraça nascer em Portugal”. Talvez seja, mas por outro lado: que bom viver em Portugal – desde que se venha do estrangeiro, claro.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rui Rio

Dr. Rio, deixe o PS em paz /premium

Rui Ramos
242

Rui Rio ainda quer fazer reformas estruturais com o PS. Mas porque é que o PS haveria de se comprometer em reformas com a direita? Para dar espaço a movimentos à sua esquerda? 

ADSE

As guerras da saúde fazem sentido? /premium

Rui Ramos
346

Na cínica “ideologia do SNS” não temos qualquer preocupação com a saúde pública, mas um projecto de domínio da sociedade pelo poder político e ainda um cálculo eleitoral partidário. 

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)