Não sem um longo percurso de preparação, não sem se fazerem ouvir mil avisos de vozes mais ou menos autorizadas, o Reino Unido e a França preparam, para a sua própria ingestão, um cocktail destrutivo. Tirando as óbvias diferenças, são idênticos os ingredientes da crise que ameaça arrastar duas das maiores economias do continente europeu para uma crise tal como não conhecem desde há muitas décadas.

Com ambas as dívidas públicas acima dos 100% do PIB, taxas de juro das obrigações a subir e sistemas previdenciais por reformar – as pensões, no caso francês; o SNS, no Reino Unido – chega agora uma crise de financiamento de um défice público indomável. Trata-se de uma crise de finanças públicas em países onde é estreitíssima a margem para aumentar impostos como meio para corrigir, sempre com dor, a trajectória mortal. Em França, essa margem pura e simplesmente já não existe sem provocar problemas maiores do que aqueles que remediaria. A carga fiscal é a maior de todos os 38 países da OCDE, o que não podia deixar de ser quando o nível de despesa pública em percentagem do PIB é também o maior de toda a OCDE, ultrapassando em 2024 os 57%. No Reino Unido, os aumentos de impostos e os aumentos das contribuições para a segurança social são inevitáveis, mas as exigências do lado da despesa são alucinantes. As promessas do partido Trabalhista na campanha eleitoral forçam agora o governo, durante a legislatura, a encontrar mais 120 mil milhões de euros para as financiar além do nível de despesa já consolidado. Ao contrário do que se passa nos EUA, a crise de finanças públicas está associada a um período de estagnação económica em ambos os países. França e Reino Unido ocupam os lugares do fundo da tabela no crescimento económico europeu nos últimos anos, a par da Alemanha e Itália. Destes tão badalados “motores” da economia europeia podemos dizer que griparam há já algum tempo.

As crises económico-financeiras não têm pátria. Mas para confrontá-las é preciso reunir um conjunto de circunstâncias na ausência das quais o caminho fica aberto para uma crise bem mais grave. Sucede que na França e no Reino Unido de 2025 as circunstâncias em que a crise financeira aparece tornam-na insuportável. De um lado, lideranças políticas e administrativas sem um pingo de autoridade. Vexadas por escândalos ou acinzentadas pela pura mediocridade, o elemento da agência política mais crucial nestas ocasiões está ausente. Não é só o facto de Macron ter morrido politicamente e de Keir Starmer chefiar um governo em ruínas. São outras lideranças nos partidos e nas instituições do Estado não se atreverem sequer a convocar o mínimo de respeito ou de confiança. Há dias, o Primeiro-Ministro francês François Bayrou deu uma entrevista televisiva para explicar as razões da apresentação de uma moção de confiança no Parlamento, cuja derrota mais do que provável deixará a França sem governo digno desse nome. Minuto a minuto, a França assistiu em directo e a cores a um naufrágio pessoal e institucional. Na Grã-Bretanha, cada momento de comunicação do Primeiro-Ministro Starmer é um embaraço só ultrapassado pela confrangedora incompetência e amadorismo dos ministros que ele escolheu e que, entretanto, vai substituindo sem critério. Com a fragmentação crescente do sistema partidário e a inexorável inclinação esclerótica de muitas das instituições do Estado, é o próprio sistema político que declara a sua impotência.

Do outro lado, e porventura o sinal mais gravoso, temos uma fractura social como a França e o Reino Unido jamais conheceram. Diante de uma crise, padrões mínimos de coesão cívica e social tornam-se recursos indispensáveis para alimentar a esperança na sua superação dentro de um prazo razoável. Mas, em 2025, a França e o Reino Unido, que conheceram no passado conflitos sociais sérios em torno de clivagens económicas clássicas, estão internamente fracturados pela questão irresolúvel da imigração em massa. Tudo adquiriu uma tal proporção de um lado e do outro do canal da Mancha que hoje é inútil tentar silenciar o problema. Essas tentativas de silenciamento apenas estão a fazer crescer os partidos da direita radical que lideram as sondagens nacionais, condenando à insignificância os partidos tradicionais da esquerda e da direita. Já nem é uma questão de pessimismo perceber que as consequências destas transformações demográficas, sociais e culturais produzirão uma fractura social extraordinariamente difícil de reparar. Tal como já não há palavras românticas, nem sentimentos ideológicos que nos poupem às exigências dos tempos que criámos.

Contudo, o que torna toda a descrição mais ominosa é que estes ingredientes não são especificamente britânicos ou franceses. São, em grande medida, generalizáveis a um conjunto cada vez mais alargado de países europeus, a começar pela Alemanha. E como se vê pelas diferenças profundas que existem entre Reino Unido e França no que respeita ao sistema eleitoral, à formação dos partidos e à distribuição dos poderes, não há receitas mágicas que reformem os países quando as restantes circunstâncias conspiram contra a sua vitalidade cívica.

Consta que em 1921 um jornalista americano Lincoln Steffens, deslumbrado com o que viu na União Sovética, deixou-se levar por um acesso de entusiasmo e disse grandiloquentemente: “Vi o futuro e funciona!” Ninguém aqui fala com Deus, nem recorre à proverbial bolinha de cristal, mas estes sinais são fortes e feios. Por este andar, o futuro da Europa não se recomenda e não funciona.