1 Era previsível, não poderia ser de outra maneira.

Não percebi por isso para qual “país” seria “mau sinal” o facto de o líder da oposição entrar na passadeira rolante para Belém. Conforme antecipava há dias um responsável na Convenção do Chega “a realidade diz que não há outra solução”!

Nada que não soubéssemos: o Chega não dispõe de quadros para empreitada. Não indo pescar fora das suas águas territoriais – o que chegou a ser aflorado internamente –, e sabendo-se não haver por ali nenhum understudy do líder (se houvesse já tínhamos dado por isso), nunca esteve para não ser Ventura: muitos “teatrinhos” e ensurdecedores ruídos mediáticos depois, André Ventura subiu para a passadeira rolante.

2 Admito porém – facilmente e sem fastio – que apesar da vozearia costumeira com que o Chega assina tudo o que faz, a decisão não tenha sido leve: lidar com um Chega dividido entre um “ir “ou “não ir”? Ficar “out” roubando ao partido uma representação oficial que ninguém compreenderia num bom momento da sua curta vida? Arriscar uma votação vexatória que carregasse de entulho o caminho para a “estrada de S. Bento”, meta na qual Ventura aposta a sua vida?

Sem surpresa porém, e sem novidade, ficou decidido: Ventura sempre ele.

O que não sei é se alguém normalmente constituído está preparado política e civicamente para o que aí vem, nas diversas etapas daqui até Janeiro: eleições autárquicas já; consequências do seu resultado nos partidos; pré-campanha eleitoral para Belém; campanha para a primeira volta presidencial; e na segunda, uma divisão do país não se sabe com que geometria política.

Não que formalmente as coisas sejam muito diferente – hábitos, normas, rituais, regras – do que vimos e vivemos durante meio século. A primeira diferença – essa sim nova e fortíssima, é a fragmentação inaudita de todo espaço à direita do socialismo; e, do outro lado, um PS manietado pela própria indecisão/ hesitação/fragilização/descaracterização e uma extrema-esquerda em estado anímico e político deploráveis. A segunda diferença – mas talvez a maior diferença – é obviamente a entrada em cena de um outsider supostamente vindo de fora do sistema – mas só supostamente – e militar. Isto é, educado, formado e formatado desde cedo para outras funções que não – de todo – a política. Em cima deste bolo uma cereja que também não sabemos se é virtuosa nem venturosa.

3 E no entanto, e ao contrário do que já se diz, todas as combinações são possíveis – são, são – numa segunda volta. Apontei as grandes diferenças desta eleição, mas não antecipo: tanto poderemos estar ainda diante de cenários que nos são há muito familiares, como face a protagonistas que nunca imaginaríamos nesta “pele” e coordenadas políticas com as quais nunca lidámos.

Sim, falta tempo (sempre dei tempo ao tempo), vai ser preciso olhar e ouvir. Os candidatos têm andado por ai, percorrem o país de lés a lés; intervêm em escolas, instituições, associações, universidades, fábricas, empresas, cantinas, encontros para todos os gostos, idades e interesses mas… falta ir ao osso do país: o que é Portugal para cada um deles, que contam fazer com ele e dele. E como, num tempo geopolítico de que somos os atónitos e inquietos contemporâneos.

Em duas palavras: em nome de quê exactamente os devemos eleger? Eis a única coisa que – julgo – verdadeiramente interessa.

4 Sobre Ernâni Lopes e o seu livro é um costume nosso: deixar que após grandes portugueses se terem despedido do mundo envoltos em elogiosas condolências caia sobre eles um grande, silencioso silêncio.

Ernâni Lopes acaba de ser resgatado desse esquecimento. Agora há “o” livro.

Em boa hora juntaram-se vontades – e como se sabe a vontade é o único motor fidedigno de uma boa iniciativa. Um sólido e esclarecido grupo de grandes amigos e ex-colaboradores próximos, meteram mãos à melhor das obras: recordar o cidadão Ernâni Lopes através dele mesmo. Do que pensou, criou, acreditou, fez, decidiu, agiu, interveio, ensinou. Do que serviu, numa palavra, e contado por ele mesmo através do que deixou escrito. O livro chama-se “Ernâni Lopes, Vida e Pensamento”, é uma magnifica Edição da Universidade Católica e ainda bem que vontades concertadas se ocuparam em trazer até nós a memoria de um excepcional servidor.

Os livros são os melhores “aide memoire” que se possa idealizar: conservam o verbo, o gesto, a iniciativa, a decisão, as escolhas, o caminho de alguém. Ernâni está todo neste livro.

E ainda mais do que “assistir” do céu à cerimónia digníssima da apresentação da obra; de ter ouvido um escol de inspirados oradores; o que deve ter comovido mais este homem de fé foi ouvir um desses oradores em particular: o seu neto Vicente, hoje Jesuíta.

A vida às vezes encena bem as coisas.

Não posso dizer que conheci profundamente Ernâni Lopes, mas o suficiente para me aperceber com quem me ia cruzando. O primeiro encontro constituiu em si uma surpresa para a jovem jornalista que eu era: o embaixador de Portugal em Bona (onde ele esteve entre 1975/1979) convidava-me para almoçar consigo na então capital da Alemanha. Sentados apenas os dois a uma larga mesa, começou por me parecer quase só um cavalheiro de boas maneiras, demasiado austero, demasiado sério, demasiado rígido, mas com pouco mais de trinta anos ainda se fazem confusões destas. Foi o caso.

Depois a vida e a profissão – entrevistei-o para o Expresso em 1983 entre outros vários encontros – fizeram-me alcançar o essencial: o homem de valores. Eram eles os seus pontos cardiais, era dessa raiz que nasciam as suas convicções, foi com eles que oficiou o economista, o diplomata, o político, o ministro, o professor, o pedagogo, o humanista. O servidor ético. Sim, isto tudo. Mas “nisto tudo “ainda falta alguma coisa – quem diria? – mas sucede que essa “coisa” não é senão a essencial porque explica tudo o resto: falta o cristão de inabalável fé, o homem de família, o grande patriota. E quem diz isto diz o que foi Ernâni Lopes.

Deixo a (minha) melhor recordação para o fim: tive a honra de ter “servido” como “soldada” de um – sério! – exército cívico do qual ele foi o grande General. O combate era o da Regionalização, o exército chamava-se Movimento Portugal Único (foto em baixo) e o movimento foi um dia de Maio de 1998 lançado em Coimbra pelo próprio Ernâni. O exército (que teve o privilégio de contar com Vítor Cunha Rego nas suas fileiras) bateu-se arduamente, país fora, pelo “não” à Regionalização no referendo de 1998. O combate para Ernâni Lopes significou sempre defender a pátria. E assim o general se comportou durante meses, guiando as tropas que que o seguiam porque o respeitavam antes do mais.

Ganhámos. Obviamente, muito graças ao “nosso general”.

Logo a seguir à vitória, convocou-nos para uma missa em Vila Viçosa, de acção de graças a Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal. Muitos de nós foram, mas não sei quantos perceberam que ali havia qualquer coisa de místico…

Mas há algo que sei: este tempo e este combate liderado pelo Ernâni constituem uma das minhas melhores recordações, e certamente muito mais pessoal do que profissional ou cívica.

Inesquecível. Também dou graças a Deus.