A transformação tecnológica e de modelo de negócio que o setor bancário enfrenta atualmente, tem como referência a experiência das empresas fintech. Quase uma década após o surgimento deste fenómeno disruptivo no sector financeiro, um número significativo destas empresas conseguiu consolidar os seus negócios e conquistar uma quota de mercado relevante, com um bom volume de clientes e elevadas taxas de negócio. Pode, até, afirma-se que passaram da fase de promessas interessantes à de se tornarem players de pleno estatuto, com a capacidade de acrescentarem valor nos seus respetivos nichos de atividade.

Desta forma, as grandes empresas financeiras em Portugal e em todo o mundo, impulsionadas pela necessidade de aumentar as suas margens e eliminar as pesadas estruturas geradoras de custos, têm vindo a fazer investimentos preliminares em startups financeiras. Assim, podem identificar oportunidades de transformação que lhes permitam, também, ligar-se a um novo perfil de cliente, familiarizado com o ambiente online e que dificilmente visita as sucursais. O que significa que os bancos estão a colocar vertentes específicas do seu negócio nas mãos das fintech.

O que pode tal aliança trazer aos operadores tradicionais e aos novos operadores? Para os bancos, é claro que as fintech representam um aliado na sua estratégia de transformação. Permite-lhes alcançar velocidade na implementação de novos serviços, muito mais eficientes do ponto de vista operacional e com uma clara redução na curva de aprendizagem e no esforço de investimento que, de outro modo, teriam que realizar. Assim, incorporam a experiência – já testada no mercado – de um operador especializado num nicho de mercado específico e com um poderoso suporte tecnológico que vem cobrir dois aspetos fundamentais: agilidade e transparência nas operações com os clientes, baseados principalmente na automação de processos; e business intelligence, para identificar oportunidades no mercado e projetar toda a sua capacidade de previsão e antecipação, que permite o desenho de serviços alinhados com as reais necessidades dos clientes.

Este novo modelo baseado em tecnologia permitirá ainda que os bancos avancem rapidamente no processo de ajuste de suas redes comerciais. A sua adoção irá acelerar a transformação do próprio negócio bancário, que está a adotar fórmulas de trabalho específicas para o sector tecnológico, de forma a ser mais flexível, encurtando os tempos de execução dos processos e satisfazendo melhor as necessidades dos clientes.

No que diz respeito às fintech, esta nova fase da sua evolução impulsiona os seus planos de penetração no mercado, através do acesso aos clientes bancários. O que implicará um aumento dos benefícios e qualidade dos serviços que até agora não eram prestados pelas suas entidades bancárias, ou que eram prestados de forma ineficiente.

Além da colaboração com os bancos, as fintech abriram outra área de expansão e crescimento: ao mesmo tempo em que o mundo da finança e da tecnologia convergem num mesmo objetivo, começamos a assistir a um novo sistema de alianças, desta vez com grandes fabricantes de software empresarial, cujos sistemas são essenciais para o controlo de processos em todo o tipo de organizações. Introduz uma componente de automação e instantaneidade em tarefas de natureza financeira, que anteriormente exigiam a contratação e gestão de agentes externos.

A diretiva europeia sobre os serviços de pagamento, que entrou em vigor a 14 de Setembro, não só põe termo ao monopólio de fornecimento de contas bancárias detido pelos bancos, como também permite às fintech aceder aos dados dos clientes, desde que o seu proprietário o autorize. Estamos, portanto, perante um novo quadro que favorece extraordinariamente a concorrência e que vai transferir a batalha pelo negócio financeiro para o domínio dos dados, que se tornará o epicentro da revolução digital. Prevemos que, dentro de alguns anos, o sector bancário incluirá a palavra fintech na sua estratégia ou conceito.