Esta semana, tivemos o último debate das presidenciais americanas, e mais uma vez a imprensa aproveitou para proclamar Hillary Clinton já eleita. Porquê? Porque Donald Trump, dizem-nos, é um mau candidato. Acontece que Trump já era mau durante as primárias republicanas, mas venceu. Neste terceiro debate, 39% dos espectadores acharam que ele tinha ganho. Muito provavelmente, porque do outro lado está uma das figuras políticas que menos simpatia e confiança inspira aos americanos: Hillary Clinton. Se Trump é pior – e é –, nem por isso Clinton deixa de ser má.

Trump cavalgou os clássicos do desânimo e da revolta: a imigração descontrolada, a anemia económica, as desigualdades — e especialmente a desigualdade entre uma elite cosmopolita com as opiniões certinhas, e uma plebe provinciana politicamente incorrecta. Trump fez-se o tribuno da plebe, e o facto mais preocupante desta eleição é que Trump está a ser derrotado, não pelas suas ideias proteccionistas e isolacionistas, mas pela sua personalidade. O que teria acontecido se Trump tivesse a bonomia do seu candidato a vice-presidente, Mike Pence? Ou se tivesse tido o cuidado de não deixar gravar as suas tiradas de Don Juan rasca? Esta é uma verdade muito inconveniente: a classe política americana não parece capaz de enfrentar no plano das ideias e propostas um candidato pronto a pôr em causa o sistema que garante a liberdade no mundo desde a II Guerra Mundial.

A única qualidade de Clinton é não ser Trump. Tudo o mais consiste em falta de qualidades. Clinton nunca explicou devidamente porque é que decidiu, enquanto secretária de Estado, violar a lei e os protocolos de segurança e transparência do governo americano. Também nunca foi clara quanto ao que pensa: é a favor dos tratados de comércio livre, como garantiu em privado aos banqueiros que a fizeram rica com a remuneração dos seus discursos, ou é contra esses tratados, como jurou em público aos eleitores de cujos votos depende a sua carreira política? Não foi só Trump que deu trabalho aos fact-checkers.

Estas eleições americanas são simbólicas da política ocidental. Nos últimos anos, vários regimes no Ocidente têm sido desafiados por demagogos com personalidades duvidosas. A classe política aproveitou sempre para suscitar um ambiente de grande alarme: é o fascismo, é isto e aquilo. Mas no caso de Trump, tal como no célebre caso de Jean-Marie Le Pen em França, nas eleições presidenciais de 2002, quem é que o sistema destacou para enfrentar as ameaças? Pessoas muito pouco admiráveis: nos EUA, é Clinton, opaca, equívoca e desleal; em França, foi Jacques Chirac, um oportunista sem escrúpulos, entretanto condenado por corrupção. É como se a classe política fizesse questão de aproveitar estas ocasiões para obrigar o povo a engolir eleitoralmente o que o sistema tem de menos convincente. Deus também testou a fé de Job, mas nunca chegou ao ponto de o forçar a votar em Clinton.

Depois de alguma histeria, Chirac ganhou. Nos EUA, apesar da sistemática demonização de Trump, Clinton só agora começa a confirmar alguma vantagem. Mas o pior não é que Clinton seja uma má candidata. O pior é que quase de certeza vai ser uma má presidente. Não poderá provavelmente contar com o apoio do congresso, mas terá certamente de contar com a desconfiança do público. Os seus casos, agora encobertos pelos de Trump, acabarão por a apanhar. Mas sendo Trump a alternativa, que fazer? A França também teve de aguentar Chirac, “le roi fainéant”. Consta que Shimon Peres dizia que quando um problema não tem solução, deixa de ser um problema e passa a ser um facto. O descrédito da política no Ocidente começa a ser apenas isso: um facto.