Rádio Observador

Casa Branca 2016

Uma verdade muito inconveniente

Autor
299

A classe política americana não parece capaz de enfrentar no plano das ideias e propostas um candidato pronto a pôr em causa o sistema que garante a liberdade no mundo desde a II Guerra Mundial.

Esta semana, tivemos o último debate das presidenciais americanas, e mais uma vez a imprensa aproveitou para proclamar Hillary Clinton já eleita. Porquê? Porque Donald Trump, dizem-nos, é um mau candidato. Acontece que Trump já era mau durante as primárias republicanas, mas venceu. Neste terceiro debate, 39% dos espectadores acharam que ele tinha ganho. Muito provavelmente, porque do outro lado está uma das figuras políticas que menos simpatia e confiança inspira aos americanos: Hillary Clinton. Se Trump é pior – e é –, nem por isso Clinton deixa de ser má.

Trump cavalgou os clássicos do desânimo e da revolta: a imigração descontrolada, a anemia económica, as desigualdades — e especialmente a desigualdade entre uma elite cosmopolita com as opiniões certinhas, e uma plebe provinciana politicamente incorrecta. Trump fez-se o tribuno da plebe, e o facto mais preocupante desta eleição é que Trump está a ser derrotado, não pelas suas ideias proteccionistas e isolacionistas, mas pela sua personalidade. O que teria acontecido se Trump tivesse a bonomia do seu candidato a vice-presidente, Mike Pence? Ou se tivesse tido o cuidado de não deixar gravar as suas tiradas de Don Juan rasca? Esta é uma verdade muito inconveniente: a classe política americana não parece capaz de enfrentar no plano das ideias e propostas um candidato pronto a pôr em causa o sistema que garante a liberdade no mundo desde a II Guerra Mundial.

A única qualidade de Clinton é não ser Trump. Tudo o mais consiste em falta de qualidades. Clinton nunca explicou devidamente porque é que decidiu, enquanto secretária de Estado, violar a lei e os protocolos de segurança e transparência do governo americano. Também nunca foi clara quanto ao que pensa: é a favor dos tratados de comércio livre, como garantiu em privado aos banqueiros que a fizeram rica com a remuneração dos seus discursos, ou é contra esses tratados, como jurou em público aos eleitores de cujos votos depende a sua carreira política? Não foi só Trump que deu trabalho aos fact-checkers.

Estas eleições americanas são simbólicas da política ocidental. Nos últimos anos, vários regimes no Ocidente têm sido desafiados por demagogos com personalidades duvidosas. A classe política aproveitou sempre para suscitar um ambiente de grande alarme: é o fascismo, é isto e aquilo. Mas no caso de Trump, tal como no célebre caso de Jean-Marie Le Pen em França, nas eleições presidenciais de 2002, quem é que o sistema destacou para enfrentar as ameaças? Pessoas muito pouco admiráveis: nos EUA, é Clinton, opaca, equívoca e desleal; em França, foi Jacques Chirac, um oportunista sem escrúpulos, entretanto condenado por corrupção. É como se a classe política fizesse questão de aproveitar estas ocasiões para obrigar o povo a engolir eleitoralmente o que o sistema tem de menos convincente. Deus também testou a fé de Job, mas nunca chegou ao ponto de o forçar a votar em Clinton.

Depois de alguma histeria, Chirac ganhou. Nos EUA, apesar da sistemática demonização de Trump, Clinton só agora começa a confirmar alguma vantagem. Mas o pior não é que Clinton seja uma má candidata. O pior é que quase de certeza vai ser uma má presidente. Não poderá provavelmente contar com o apoio do congresso, mas terá certamente de contar com a desconfiança do público. Os seus casos, agora encobertos pelos de Trump, acabarão por a apanhar. Mas sendo Trump a alternativa, que fazer? A França também teve de aguentar Chirac, “le roi fainéant”. Consta que Shimon Peres dizia que quando um problema não tem solução, deixa de ser um problema e passa a ser um facto. O descrédito da política no Ocidente começa a ser apenas isso: um facto.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Política

O país onde a política morreu /premium

Rui Ramos
147

As más finanças, a estagnação económica e o envelhecimento demográfico tiraram oxigénio a tudo o que relacionávamos com direita e esquerda em Portugal. Há apenas governo e oposição.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)