Rádio Observador

China

Vamos mesmo ignorar isto? /premium

Autor
  • Sebastião Bugalho
251

A Europa assumiu pela primeira vez que o expansionismo da China representa uma ameaça para o continente e os jornais portugueses, que tão competentemente cobriram a visita de Xi, não fazem perguntas?

Sei que andamos ocupadíssimos com os laços familiares da esquerda e com os convites da direita para conselhos de administração, mas, não negando a importância nacional que tais temáticas carregam, talvez consigamos arranjar um tempinho para algo igualmente significativo. No curto espaço de nove dias, o governo português e a Comissão Europeia divergiram publicamente, não sobre metas orçamentais ou intervenções na banca, mas sobre um assunto em particular: a China.

Se a 3 de março de 2019, há cerca de três semanas, o primeiro-ministro português criticou Bruxelas por “protecionismo” em relação ao investimento chinês, a Comissão Europeia não tardou em expor Portugal como desalinhado, considerando o regime de Xi Jinping um “rival sistémico” que promove “modelos alternativos” – isto é, anti-democráticos – de governação. Por cá, no entanto, nada se ouviu. A União Europeia assumiu pela primeira vez que o expansionismo da República Popular da China representa uma ameaça para o continente e os jornais portugueses, que tão competentemente cobriram a visita de Xi e toda a sua digressão de acordos, não fazem perguntas?

Façamo-las.

  1. O governo português acompanha a Comissão Europeia no seu pedido de “maior reciprocidade” e “abertura” da China às regras da ordem internacional? E fê-lo saber na sua receção a Xi Jinping?
  1. O governo português subscreve a opinião da Comissão Europeia acerca da “indisponibilidade da China para aceitar regras de responsabilização e escrutínio”, sendo que tal “enfraquece a sustentabilidade da ordem internacional”? E fê-lo saber na sua receção a Xi Jinping?
  1. O governo português partilha da preocupação da Comissão Europeia acerca “da deterioração dos direitos humanos na China, nomeadamente em Xinjiang”, com minorias ativamente perseguidas? E fê-lo saber na sua receção a Xi Jinping?
  1. O governo português reconhece, como a Comissão Europeia, que a “China construir plataformas movidas a carvão põe em causa os objetivos do Acordo de Paris com os quais se comprometeu”? E fê-lo saber na sua receção a Xi Jinping?
  1. O governo português reconhece, como a Comissão Europeia, que a “crescente capacidade militar da China e a sua ambição de ter as forças armadas mais modernas do globo até 2050 representam um risco de segurança para a Europa, inclusivamente no curto-prazo”? E fê-lo saber na sua receção a Xi Jinping?
  1. O governo português reconhece, como a Comissão Europeia, que a “China se tornou um concorrente estratégico da Europa, falhando em reciprocar o acesso aos seus mercados”? E fê-lo saber quando assinou 17 acordos bilaterais com a China? E quando assegurou a cooperação de Portugal com a iniciativa Belt and Road?
  1. O governo português reconhece, como a Comissão Europeia, que “o investimento estrangeiro em setores estratégicos pode criar riscos para a segurança na Europa”? E que isso “é particularmente relevante em infraestruturas críticas como as redes 5G”? Se sim, como justifica o apoio governamental a um acordo entre a Huawei e a Altice para “acelerar o desenvolvimento e capacitação da rede 5G em Portugal”? Se não, com que argumentos irá explicar-se no Conselho Europeu?

Face às mudanças em curso, de que a reação da Comissão Europeia é fruto, o debate sobre o posicionamento português tornou-se obrigatório. Mais do que isso, é imperativo criar condições para uma realinhamento estratégico do Ocidente, impulsionando três valências: um multilateralismo habilitado a conter os impulsos menos ponderados das suas maiores potências, um multilateralismo empenhado em defender globalmente os direitos humanos (designadamente, as condições laborais na Ásia e os crimes contra a humanidade na Venezuela) e um multilateralismo capaz de recuperar credibilidade junto de si próprio.

Portugal, com a sua tradição diplomática e a sua vertente atlântica, poderia ter um papel a desempenhar nesse realinhamento.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Brexit

Gallipoli, senhor Johnson, Gallipoli /premium

Sebastião Bugalho

O senhor Johnson, que aprecio por ter juntado os ofícios parlamentar e jornalístico, seria sábio em não repetir Gallipoli enquanto almeja Dunquerque. Nem que seja pelo pobre do cavalo, e pelo seu país

Política

A República vai precisar de conservadores /premium

Sebastião Bugalho

É muito irónico que a conversa sobre o fim da III República venha, essencialmente, da direita. O dr. Rio pode apregoar um “novo 25 de Abril” à vontade, que não se fazem revoluções com 22% em urna.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)