Conhecia-a na cidade. Era má pessoa e tinha vindo do campo. Nós éramos miúdas e ela introduzia-nos à vida adulta, contando-nos da sua rotina de massagens, almoços de garoupa cozida, traduções deixadas a meio, falando de como a vida no campo era uma armadilha na qual caíam as pessoas da cidade.
Havia fugido da aldeia e tornara-se uma mulher do mundo. Aprendera tudo quanto havia a saber sobre a maldade e a inveja, e invejava em nós a juventude aparvalhada com que prestávamos atenção a todos os seus gestos. Lembro-me de ela me parecer a mulher mais limpa que eu já tinha visto. Exalava aromas caros, sempre duvidei das pessoas para quem o asseio é a maior das virtudes, mas o asseio era nela o prolongamento da sofisticação do uniforme que vestia, as suas camisas de linho, as jóias especiais, os óculos de leitura. Sempre que ouço pessoas da cidade dizerem que se vão mudar para o campo, lembro-me das lições dessa professora dos meus passados.
Não sabíamos bem o que era uma mulher má, naquele tempo. A mulher servia-se da nossa ignorância para nos fazer ter medo da vida. Hoje, que a cidade nos expulsa, dou de caras com o seu fantasma, em sonhos acordados. E falando com amigos de casas em lugares remotos, passando em revista anúncios de moradias isoladas, erguem-se diante de mim as palavras daquela velha senhora, que era então bem mais nova do que sou hoje.
Conheço muitos tipos de histórias primeiro tristes, depois dolorosas e funestas de partidas para o interior. Casais que se divorciam. Pessoas que quase se matam ou se entregam a vícios. Dizem-me que, para quem vem da cidade, o silêncio é a parte mais difícil da adequação à vida campestre. Não sei se é assim. Estou convencida de que não interessa a ninguém resolver a crise da habitação que se vive em Portugal: ela serve as cidades lavadas de estranhos que muitos se empenham em construir.
Vejo então esse casal, acordando nos meus sonhos, esses amigos que se mudam para a aldeia. Vejo-os chegar ao restaurante da terra, onde são olhados por todos não necessariamente por lhes serem hostis, mas porque são forasteiros. E penso que parte da coragem do êxodo a que paulatinamente vou assistindo é a de enfrentar a curiosidade dos outros à nossa diferença.
A cidade está para a senhora má que conheci, entretanto envelhecida no seu mausoléu de castiçais e livros. Será que ainda lamenta os males do campo? Porque havemos nós de querer ter um lugar que seja nosso? Porque havemos de querer ter uma terra? De onde virá esse apelo incontrolável?
Na televisão, uma pessoa de extrema-direita diz que uma comunidade política se caracteriza pela identidade comum das pessoas que nela habitam. A pessoa fala com segurança, apesar de ser muito mais jovem do que eu. Parece uma pessoa que nunca teve uma dúvida, ou que nunca foi confrontada por ninguém. Aparenta uma total ausência de constrangimento, apesar de ser das primeiras vezes que vai à televisão. Tem o à-vontade dos predestinados.
Eu, os meus amigos, os meus conhecidos, os que orgulhosamente gaguejamos na vida, não temos lugar nesta república de príncipes.