Turistas de todo o mundo venham a Portugal. A economia do país precisa de vocês. Sabem que os portugueses passaram os últimos anos a lamentarem o fraco crescimento da economia. Parece que este ano a economia vai crescer cerca de 3% e em grande medida graças aos turistas. Pode ser difícil de acreditar, mas alguns portugueses começam agora a criticar o turismo. Uma pessoa sensata diria, com toda a razão, que são insensíveis aos benefícios do turismo para Portugal. Vou tentar explicar as causas dessa insensibilidade.

Há um grupo, ao qual podemos chamar a “nova aristocracia intelectual”. Muitos deles são intelectuais, de esquerda, acham-se progressistas, e julgam que fazem parte de uma elite iluminada, gozando de privilégios que deveriam ser negados ao comum dos mortais. No fundo, gostavam da velha Lisboa, fechada e exclusiva para eles e os seus amigos. Também têm saudades do Algarve atrasado e pobre onde algumas casas de férias davam acesso, quase exclusivo, a praias desertas. Para eles, a miséria antiga das populações locais – que os serviam um mês por ano – era mais digna do que o serviço mais próspero aos turistas.

Há mesmo um caso curioso de um escritor e cronista, Miguel Sousa Tavares, que fez parte da sua carreira profissional contando as suas viagens aos portugueses – numa publicação chamada Grande Reportagem – que se tornou um militante contra o turismo de massas. Outro intelectual de Lisboa, Mega Ferreira, deu uma entrevista há umas semanas na qual confessa o seu amor por Itália, que visita pelo menos uma vez por ano, e simultaneamente mostra o seu desgosto pelos efeitos do turismo em Lisboa.

Estes “novos aristocratas”, meus caros turistas, julgam que gozam de privilégios especiais. Podem passar a vida inteira a viajar, mas nunca se tornam turistas. As massas da classe média podem viajar raramente, mas quando o fazem tornam-se imediatamente turistas detestados. Os nossos intelectuais viajantes parecem os velhos aristocratas ingleses que olhavam com repugnância, no início do século XX, para os plebeus que iam a França passar férias. Dizem-se progressistas, mas detestam a democratização do turismo.

Temos, depois, um segundo grupo, a “esquerda radical”, que também começou a atacar o turismo. Neste caso, as causas são puramente ideológicas. O ataque ao turismo revela a oposição dessa esquerda a uma Europa aberta e livre. No fundo, estão a atacar a Europa que a geração Erasmus está a construir. Esta esquerda, representada em Portugal pelo Partido Comunista e pelo Bloco de Esquerda, não gosta de uma juventude com iniciativa e que procure ganhar dinheiro através do mercado. Cada português que comece a guiar um tuk-tuk, ou que abra um bar, um restaurante, ou uma empresa de alojamento de curta duração, será menos um português a depender do Estado, no desemprego ou na função pública.

Esta esquerda sabe que a iniciativa privada e o sucesso económico serão, a prazo, obstáculos ao controlo da vida profissional dos jovens. A esquerda radical não gosta de cidadãos livres, aspira pelo contrário ao controlo das pessoas através do Estado. Revoltaram-se imenso com a emigração forçada dos jovens portugueses, durante a crise económica entre 2011 e 2014, mas aparentemente recusam-se a aceitar que o crescimento do turismo, para muitos portugueses, seja a alternativa à emigração.

Tal como os “novos aristocratas”, a esquerda radical não aceita a democratização do turismo porque percebe que é um meio para a independência económica de muitos. Também se diz progressista, mas parece ignorar que o turismo é desde há décadas uma das maiores aspirações das classes médias. O turismo está mesmo associado ao tão adorado “Estado social”, através de uma das maiores conquistas das democracias europeias, o subsídio de férias. É este subsídio que permite que milhões de europeus satisfaçam a sua ambição de passar férias no estrangeiro, de fazer turismo.

Meus caros turistas, venham para Portugal. Venham aos milhões, esgotem os hóteis de Lisboa, do Porto e de todas as cidades e vilas portuguesas, venham para as praias, os rios e as montanhas. Gozem Portugal e todos os encantos que enchem o nosso país. E, acima de tudo, ajudem os portugueses a ganhar dinheiro através das suas iniciativas, sem dependerem do Estado e sem emigrarem. O vosso dinheiro contribui para a liberdade dos portugueses.