Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Antes de se mudar de vez para o apartamento de Maria José, o capitão andava sempre cansado. Quase todos os dias ia dormir a sesta depois do almoço e pedia à amante que não se esquecesse de o acordar às 18h. Não podia chegar muito tarde a casa, explicou-lhe o capitão mais do que uma vez. Ao fim do dia iam lá ter pessoas com quem tinha reuniões. Aliás, era justamente por causa dessas reuniões, que muitas vezes acabavam de madrugada, que passava os dias a dormir pelos cantos. Mas isso está prestes a mudar. Em meados de fevereiro de 1959, o capitão decide que não pode continuar a ter uma vida dupla e abre o jogo com a mulher. Despe-se dos filhos e instala-se no apartamento de Maria José, a amante, nos arredores do aeroporto de Lisboa. As reuniões não vão acabar, bem pelo contrário, e também não vão deixar de ser secretas. Passam é a acontecer ali, em casa dela. Uma tarde, pouco depois da mudança, o capitão diz a Maria José que vá para o quarto e feche as janelas. Deve ficar em silêncio total até que ele dê ordem para sair. Passam 30 minutos das 16h. Dentro de meia hora deverão chegar as pessoas. Nenhuma delas sabe que o capitão mora ali e o objetivo é precisamente que se mantenham na ignorância. Para todos os efeitos, aquela é uma casa emprestada para a reunião e o dono saiu para deixar os conspiradores à vontade. As horas passam e do outro lado da porta do quarto, Maria José ouve discussões que não compreende. Já são 21h30 quando finalmente sente as cadeiras a arrastar e a porta da rua a bater. Sai do quarto e tenta que o capitão lhe conte o que acabou de se passar, mas ele recusa revelar o segredo. Hão de passar ainda duas semanas até que tudo faça sentido. Um dia o capitão conta-lhe que vai participar num movimento militar. Pede que seja corajosa e que trate de abastecer a despensa, para não ter de sair à rua até a situação acalmar. Há um golpe em curso e os últimos preparativos serão feitos ali mesmo, na sala de estar. Se tudo correr bem, em apenas 48 horas, o regime de Salazar chegará ao fim. 1958 foi o ano em que a ditadura começou a tremer. Pela primeira vez, a oposição une-se em torno de um homem que consegue formalizar a candidatura à presidência da República e cumprir todos os requisitos até ir efetivamente a votos. Um candidato que se torna tão popular que o regime não tem alternativa senão proibir-lhe os comícios e riscar dos jornais as fotografias das multidões que o apoiam. Um candidato que não tenta sequer esconder que, se for eleito, uma das primeiras coisas que faz é demitir Salazar, obviamente. Claro, quando as eleições acontecem em junho, acontece também o esperado. O candidato apoiado pelo regime é declarado vencedor. E todos percebem também, naquele momento, que a ditadura só poderá cair pela força. Nos meses que se seguem a estas eleições, Salazar vai ter que sobreviver a duas conspirações. Uma ficou para a história com o nome Golpe da Sé. A outra foi esquecida e chamou-se Operação Papagaio. A primeira mobilizou vários nomes conhecidos da oposição ao Estado Novo. A segunda foi orquestrada por Henrique Carvalho, conhecido como o Gavroche, e contou com a ajuda de artistas surrealistas, pouco experimentados em revoluções, mas com muita vontade de virar tudo do avesso. As duas conspirações foram muito diferentes. Só tiveram uma coisa em comum: o capitão, que planeava as revoluções na sala de estar da amante. Esta é a "Operação Papagaio", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, com banda sonora original de Rita RedShoes. Episódio dois: o plano mais louco de sempre.

Esta é uma história real. E é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.

Este carro que atravessa as planícies do Alentejo esconde um segredo. Mas entre as milhares de coisas possíveis, há uma que talvez nunca imaginassem que vai lá dentro: boletins de voto. Durante a campanha eleitoral de 58, Hélder Macedo faz várias viagens pelo país com o porta-bagagens a abarrotar. Está ativamente empenhado na campanha do homem que ousa desafiar o Estado Novo, o general Humberto Delgado. Salazar permitiu que o nome do candidato apoiado por toda a oposição chegasse aos boletins de voto. Os boletins de voto é que não iriam chegar a toda a gente É que ao contrário do que acontece hoje em dia, naquela época os boletins eram distribuídos durante a campanha. Quando iam votar, os eleitores tinham de levar os seus próprios boletins. Sem eles, não podiam fazer nada.

O governo queria dar a impressão e a aparência de que havia eleições livres, mas tudo era dificultado, inclusivamente a possibilidade de as pessoas votarem. O governo imprimia os boletins de voto que não distribuía à oposição. Então era necessário haver uma ação paralela, mais ou menos clandestina, de distribuição de pacotes com o boletim de voto.

E é assim que Hélder Macedo, um jovem escritor com apenas 22 anos, se oferece para a missão de fazer chegar os boletins de voto a vários pontos do país. Um dia põe-se a caminho de Portalegre com João Rodrigues, desenhador, cartunista e amigo das noitadas do Café Gelo. A dada altura, pensa que está a ser seguido pela polícia. Acelera para tentar escapar e o carro sai da estrada. O acidente é aparatoso.

Parecia uma cena de um filme do Alfred Hitchcock, em que numa curva apertada em Alpalhão, quando o carro deu três ou quatro voltas, ficou de pé. Eu só fiquei com o braço esquerdo um bocado danificado. O João Rodrigues conseguiu sair do carro, perdeu o cinto e as calças caíram. Apareceu a população, a quem eu, em tom heroico, declarei: "Estou ao serviço do general Delgado, escondam-me." E assim fizeram.

Esconderam mesmo. Nesse dia, hão de entrar em Portalegre no atrelado de um trator. Eles e centenas de boletins de voto, essenciais às eleições. Nunca tinha acontecido nada assim. Até a oposição se unir em torno do general Humberto Delgado, nenhum candidato tinha conseguido efetivamente disputar a presidência. Em teoria, explica o investigador Nuno Estevão Ferreira, não havia nada que impedisse as candidaturas da oposição, mas na prática, as dificuldades eram tantas que chegar às urnas era quase impossível.

Nenhum consegue formalizar a candidatura, porque havia muitos entraves burocráticos, muitos entraves administrativos. Tinha de existir uma série de validações que não era fácil conseguir. Todo o tipo de cédulas, de atestados, passaportes, etc. Atestados de bom comportamento político e sem prisões, sem detenções, com uma ficha limpa perante o regime, o que não era fácil.

Mas Humberto Delgado é diferente. Não vem sequer da habitual oposição do Partido Comunista Português, vem do interior do próprio regime. O general participou no golpe de 28 de maio de 1926, que instaurou a ditadura militar. Foi um fervoroso entusiasta do Estado Novo, um dos primeiros dirigentes da Legião Portuguesa e o chefe da missão militar do país junto da NATO. À data das eleições, é diretor-geral de Aviação Civil e menos de um ano antes, tinha sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis. Era impossível impedi-lo de se candidatar.

Humberto Delgado, também desse ponto de vista, foi meritório, porque tinha um passado impoluto perante o regime e podia candidatar-se à vontade. Não era fácil explicar que um representante de Portugal junto da NATO não pudesse ser candidato, era inconcebível.

A ousadia valeu-lhe um nome que iria ficar para a história: General Sem Medo. Salazar não podia permitir que o general ganhasse aquelas eleições e Humberto Delgado acabaria mesmo por ser derrotado pelo candidato do regime, o almirante Américo Thomaz. Mas só o facto de ter concorrido e de ter tido mais de 236 mil votos, segundo os números oficiais, vem mostrar que a ditadura não era inabalável. Mais do que isso, inspirou todos aqueles que se opunham ao regime.

Há populações mais cultas, mais instruídas e que contestam o regime, ou que se reúnem em torno de Humberto Delgado e o apoiam, mesmo tendo perdido as eleições. E daí resulta um ambiente propício ao golpe, um ambiente propício à contestação.

E o que não vai faltar nos próximos meses são planos de resistência. O que o tramou foi ter carta de condução. E não apenas por causa do acidente quando ia a caminho de Portalegre para levar os boletins de voto. Já depois das eleições, Hélder Macedo participa em várias reuniões clandestinas. Cruza-se com pessoas que já conhecia bem das tertúlias noturnas do Café Gelo. Um dia até é surpreendido pela presença de um amigo que desconhecia andar por aqueles meios, o poeta Alberto Helder. É nessas reuniões que conhece também um jovem aspirante a oficial médico do exército, que dentro em pouco iria ser conhecido em todo o país. João Jacques Marques Valente.

Um tipo perigosíssimo, porque era totalmente irresponsável. Se não fosse tão louco, seria carismático, mas ultrapassava um bocado as fronteiras, mesmo para pessoas como nós, que estávamos um bocado dispostos a tudo. Ia longe demais.

Até que surge o dia em que o próprio Hélder Macedo é chamado a integrar um outro golpe que está a ser preparado contra o regime. Acontece em 1958, uns meses antes do Golpe da Sé e da Operação Papagaio A ação junta militares e grupos de civis armados e tem vários alvos.

Iria haver uma participação de civis com a incumbência específica de lidar com a Legião Portuguesa. Iria haver armas que estariam na floresta de Monsanto para nós irmos buscar as armas, sei lá, às 5h, ou coisa que lhe valha, e estarmos prontos para qualquer ação com a missão específica de lidar com a Legião Portuguesa.

A missão é fazer primeiro a recolha das armas e avançar pra ocupação da sede da Legião Portuguesa, a milícia civil de defesa do Estado Novo. Mas para isso é preciso um carro e alguém que saiba conduzir. E o único com carta de condução é Hélder Macedo. Na noite combinada, com o escritor ao volante, o grupo espera pelo sinal para ir buscar as armas. Mas nada acontece. Só depois das 5h é que a palavra de ordem chega. E é um não. A operação não vai pra frente. A história podia ter acabado aqui, não tivesse Hélder Macedo cometido o erro mais elementar de quem está a participar num golpe subversivo: dar o próprio nome pra alugar o carro que iria ser usado para fazer a operação.

Alugar um carro em meu nome para ir buscar armas é brilhante, não é?

Daí até a PIDE, a polícia política do Estado Novo, chegar até ele, não iria demorar muito tempo. E tudo começou com um toque aparentemente inofensivo de um desconhecido no meio da rua, em Lisboa.

No lucio, até à altura, uma pessoa bate-me no ombro, uma pessoa que eu não vi quem era, que dizia, se eu fosse a si, passava a andar com uma escova de dentes no bolso. Eu tinha nessa altura um quarto alugado em casa de um finalista de Direito e uma tarde eu estava à esquina com uma maleta onde tinha posto, sei lá, uma escova de dentes, uma pasta de dentes, umas cuecas, a dizer-me que a PIDE tinha lá estado à minha procura. E eu não entrei em casa e fiquei uns tempos dormindo onde pudesse, a aguentar. Durante uns tempos dormi no Texas Bar, por exemplo, mas depois fui mudando de quarto para quarto. Não me fixei durante mais do que duas, três semanas em cada um dos sítios. E depois achei que era a altura de sair. E saí.

Hélder Macedo saiu de Portugal ainda em 1958. Se tivesse ficado mais uns meses, talvez até tivesse tomado parte de um outro plano mirabolante. Esse iria mesmo ter um nome de código: Operação Papagaio. No dia das eleições, Gave Roche nem sequer foi votar. Depois de regressar de Paris, quando conheceu a mulher Kátia, uma finlandesa alta e de olhos verdes, ainda participou numa reunião para decidir qual o melhor candidato da oposição. No debate que decorreu na sede da revista Seara Nova, estava em jogo a escolha do candidato que os intelectuais iriam apoiar. Mas Gave Roche fica desiludido com o ambiente que encontra. Acha os discursos ocos e despropositados. Sente-se cada vez mais distante de politiquices e pensa que o caminho não pode ser esse. Decide ali mesmo nunca mais voltar a perder tempo com coisas daquelas, mas não é por isso que vai ficar sem fazer nada. E as notícias que chegam do outro lado do mundo dão-lhe uma ideia do que há a fazer. Estamos na segunda metade de 1958. Na cordilheira da Sierra Maestra, em Cuba, os rebeldes encabeçados por Fidel Castro combatem as forças leais ao presidente Fulgencio Batista. Os revolucionários estão finalmente a vencer.

"Se às 18h de hoje não depuseram as armas, nossas tropas avançarão sobre a cidade e tomarão por assalto as posições inimigas."

Gave Roche acredita que pode fazer a mesma coisa em Portugal. Sozinho, começa a arquitetar planos de rebelião. Já passa das 6h quando o telefone toca no apartamento da Avenida Gago Coutinho, em Lisboa. Maria José ainda está acordada. Naquela noite, não conseguiu dormir. Desde que o capitão saiu que se mantém alerta, à espera das notícias que poderão estar agora do outro lado da linha. Eram 21h30 quando se despediram. Fardado e armado com duas pistolas, o capitão levou o carro. Ainda tinha de ir recolher outros dois militares, antes de ocupar a posição combinada no quartel de Lanceiros 2, na Calçada da Ajuda. Mais de nove horas depois de se despedir do amante, Maria José continua às escuras. Se tudo tiver corrido como previsto, vai atender o telefone e ouvir a voz dele. A meia de levanta o auscultador, mas não chega a respirar de alívio quando ouve a voz do capitão. O golpe falhou. Nem sequer chegou a avançar. José Joaquim Almeida Santos está a ligar de uma cabine telefônica. Teve de fugir e de abandonar o carro na parada do quartel e está há mais de uma hora a caminho de casa a pé. Só depois de um duche, deitado na cama, com os pés cheios de bolhas, é que explica à amante o que aconteceu, ou o pouco que sabe sobre o que aconteceu. Esteve várias horas escondido com outros dois homens numa arrecadação apertada, à espera de um sinal para entrarem em ação, até que um oficial que também fazia parte do plano bateu à porta Estava tudo cancelado. O melhor era saltarem o muro e fugirem do quartel. Na manhã de 12 de março de 1958, o capitão ainda não tem como saber porque foi abortado aquele que viria a ser conhecido como o Golpe da Sé. Também não faz ideia de que o seu nome já consta de uma extensa lista de militares e civis envolvidos na intentona.

É desmantelado previamente, como sempre com suspeitas de que a PIDE se tenha conseguido infiltrar, obter informações e estancar a tempo. Era um golpe com vários setores, entre militares e civis, fundamentalmente. O setor católico não seria o setor dominante, mas era um setor de gente com formação dentro da igreja católica, nomeadamente nos organismos operários. Era um golpe compósito com quem estava disposto a arriscar-se, porque o risco era grande.

Para além da sala de estar de Maria José, foi no claustro da Sé de Lisboa que decorreram a maior parte das reuniões dos conspiradores. Daí o nome com que esta tentativa para derrubar Salazar vai entrar para a história, explica o investigador Nunes Estevão Ferreira.

O Golpe da Sé ocorre na Sé porque havia figuras católicas, Manuel Serra, João Gomes. João Gomes era presidente da JOC. Manuel Serra tinha sido formado também nos organismos operários da ação católica e que estão entre os civis que, juntamente com militares, conspiram, reunindo-se na Sé. Há mesmo um padre, o padre João Pestrelho, que terá facultado apoio, pois foi forçado ao exílio.

Mais uma vez, o regime ganhou. Mas o simples fato de haver homens dispostos a arriscar tudo para o afrontar, já é uma derrota para o Estado Novo. Ainda mais, porque estes homens vêm de setores tradicionalmente próximos de Salazar.

Há monárquicos também nesses ambientes conspirativos e o próprio Salazar di-lo. Quer dizer que a Frente Nacional foi rompida, está a esboroar-se em setores insuspeitos, como sejam católicos e monárquicos. E isso é um abalo grande para o regime e uma perda de confiança, em que se pode dizer que entre 1958 e 1962, quase tudo corre mal ao regime.

Dias depois da tentativa de golpe, começam as prisões. No sábado seguinte, depois de três dias angustiantes de trabalho, o capitão sai de casa à tarde rumo ao café. É lá que fica a saber por um colega que está numa lista de oficiais a prender. Menos de uma semana mais tarde, é um dos cerca de 40 detidos por conspiração e envolvimento no Golpe da Sé. Gave Rocha fez uma promessa à Cátia que sabe que não pode cumprir. João Francisco está quase a fazer um ano. O objetivo é aumentar a família e ter outro bebê. Vai deixar-se de ideias revolucionárias e entrar nos eixos, mas é mais forte do que ele. Nunca se perdoará se não aproveitar para tentar derrubar o regime, agora que ele está em baixo depois do Golpe da Sé. Só precisa de um braço direito e conhece o homem ideal para o lugar.

Lembras da história da sardinha para abrir a porta? Era essa a história. Era essa pessoa.

Bárbara Airola foi o segundo bebê que Cátia e Gave Rocha decidiram ter. Mais de 60 anos depois, com o irmão e a cunhada, recorda as histórias que lhes contaram e encaixa as peças do puzzle.

Foram lá para as noitadas de bebedeiras e deixaram o amigo em casa. Ele vivia em casa da mãe, se eu não me engano, e que a mãe o encontrou a chorar à porta de casa, porque não conseguia abrir a porta com uma sardinha na mão. Não era a chave, era uma sardinha na mão. Então era um gozo que eles faziam com ele, porque ele queria abrir a porta com a sardinha. Porque acho que já foi de manhã e tinham passado pelo sítio onde vendem o peixe e ele tinha pegado numa sardinha crua. E estava com a sardinha no bolso, alguém tinha-lhe posto a sardinha no bolso, foi uma coisa assim desse tipo.

É com António José Forte, poeta surrealista favorito de Mário Cesariny, e o homem eternamente gozado por ter tentado abrir a porta de casa com uma sardinha, que Gave Rocha cria as Milícias de Ação Popular. O objetivo é juntar um grupo de operacionais para fazer ações subversivas e afrontar o regime. Nesta altura, a ideia ainda não tinha surgido, muito menos tinha um nome. Mas são eles que, meses depois, vão desenhar o plano mais louco de sempre para derrubar Salazar: a Operação Papagaio. Entre copos e cigarros no Café Royal do Cais do Sodré, Gave Rocha e Forte decidem que é preciso arranjar mais gente e dar-lhes treino militar. E é aí que se lembram de um homem que o poeta conheceu quando esteve preso em Caxias: Artílio Batista. Baixo e atarracado, de rosto duro e mãos calejadas, Artílio tem 41 anos e um longo cadastro. Desde os 17 que passa a vida a ser levado para a esquadra. Esteve preso quatro vezes e conhece os cantos a praticamente todas as cadeias da PIDE. Aljube? Check. Caxias? Check. Peniche? Não só foi mandado para lá, como conseguiu fugir, apenas para ser capturado no mesmo dia. Artílio ainda não se desvinculou formalmente, mas por esta altura já está bastante afastado do Partido Comunista. Por isso, quando Gave Rocha e Forte lhe dizem que querem organizar um grupo de civis para combater a ditadura, o serralheiro alinha na hora. Encontram-se numa leitaria na Baixa de Lisboa e de lá seguem para o escritório do pai de Gave Rocha, na Rua da Madalena. Logo ali, nesse primeiro dia, escolhem nomes de código. Gave Rocha vai ser o Heitor, Forte, o Alberto e Artílio, o Dias. Mas este é o único ponto em que conseguem chegar a acordo. A seguir, perdem-se em discussões sobre a dinâmica da organização e o tipo de ações que devem fazer. Gave Rocha sugere infiltrar os membros do grupo na Legião Portuguesa. Quer aproveitar o treino militar dado aos voluntários das milícias civis de defesa do Estado Novo. Mais, chega a defender que os operacionais devem usar farda e divisas para promover a disciplina. Camisa, calças caqui e boné, à imagem dos guerrilheiros de Fidel Castro e Che Guevara. Uma coisa simples, há a dizer mais tarde, interrogado pela PIDE. Artílio rejeita todas as ideias. O essencial é que a organização seja discreta e comece rapidamente a atuar. Aliás, defende que em vez de andarem a tentar arregimentar membros, deverão é fazer um só grupo, de cinco ou seis pessoas de absoluta confiança, e passar à ação terrorista. Só várias reuniões e algumas semanas mais tarde é que os conspiradores vão fechar o plano. A organização vai ter dois grupos, um chefiado por Artílio, o outro por Gave Rocha. Por questões de segurança, os membros de um grupo não deverão nunca conhecer os do outro e quando tiverem de atuar juntos, terão de usar os nomes de código, nunca os nomes reais. Talvez devesse ter ficado decidido também o que cada um dos chefes entendia por pessoas de absoluta confiança, porque no caso de Gave Rocha e de Forte, os critérios de recrutamento acabam por não ser tão rígidos quanto isso. Basta ter vontade de entrar e, de preferência, um carro, uma pistola ou pelo menos carta de condução. E isso vai revelar-se fatal. É preciso dinheiro pra organização começar a funcionar. Artílio diz que bastam uns quantos assaltos a bancos e o problema fica resolvido. Mas desta vez é Gave Rocha que está contra. Por muito que possam ser uma solução rápida e fácil, os assaltos têm tudo para manchar a imagem do movimento ainda antes de começar. O que é preciso é fazer uma recolha de fundos junto de apoiantes da causa antifascista. Ele sabe a que porta bater. José Bruno da Silveira é dentista. Tem consultório em Lisboa e casa na Parede, onde Gave Rocha também mora. É este médico quem o vai pôr em contacto com Bandeira de Lima, também ele médico da oposição e com ligações ao círculo de Humberto Delgado. No dia em que o procura no consultório na Avenida António Augusto Aguiar, em Lisboa, Gave Rocha nem precisa de explicar ao detalhe aquilo que a organização pretende fazer. O médico fica automaticamente entusiasmado. Passa-lhe 500 escudos para as mãos e compromete-se a arranjar, "é pá, todo o dinheiro que for preciso, pá." E ainda lhe garante uma pistola antiga que herdou do pai e tem a certeza que está algures lá por casa. Mas à segunda visita começam a surgir as dificuldades. A pistola, o médico até conseguiu encontrar. Financiamento é que nem por isso. "As pessoas não estão dispostas a dar sem verem qualquer ação, pá. Está a perceber?", diz Bandeira de Lima. Gave Rocha não chega a ficar desmoralizado. Se é de ações que aquelas pessoas precisam para lhes patrocinarem a causa, é isso que lhes vai dar. A mais espetacular ação de propaganda antifascista que o país alguma vez assistiu. É através da rádio que os revolucionários cubanos chegam às pessoas. Só assim o povo pode estar a par dos combates que se travam nas montanhas e dos avanços da guerrilha. E só assim os guerrilheiros podem chamar o povo à ação. Fidel Castro e Che Guevara fundam a Rádio Rebelde em plena Sierra Maestra, e é aos microfones da emissora que discursam e chegam a convocar pelo menos duas greves gerais de trabalhadores. Gave Rocha sabe que nunca vai ter a sua própria Rádio Rebelde, mas também não precisa. Pode tomar de assalto uma rádio e pôr no ar um apelo à luta das milícias de ação popular. Tem um primo que trabalha na APA, a Agência de Publicidade Artística. É lá que são produzidos alguns dos programas mais ouvidos da rádio portuguesa. Com a ajuda dele, pode usar os estúdios para gravar a mensagem de apresentação da organização. A emissora também não é difícil de escolher. O Rádio Clube Português transmite alguns dos programas da APA, e o primo de Gave Rocha tem livre-trânsito para entrar e sair. O primo disponibiliza-se pra ajudar, ok, mas na sombra e sem aderir ao movimento. É tudo o que é preciso. A Operação Papagaio está em marcha. Estamos em julho de 1959. Sempre que o primo tem de ir às instalações do Rádio Clube Português, Gave Rocha vai ter com ele. Aparentemente, estão apenas a conversar, mas, na verdade, ele está a tirar notas sobre a disposição dos estúdios e as rotinas dos funcionários. As visitas nem sequer são suspeitas. A rádio fica numa rua sossegada da Parede, junto à casa onde Gave Rocha mora com Kátia e o filho. Aos poucos, vai desenhando um mapa das instalações, cada vez mais vazias de pessoas. A mudança para Lisboa, para o número 24 da Rua Sampaio e Pina, está em curso e ali na parede já só restam praticamente os estúdios. Melhor era impossível, mas para executar o plano, são precisos mais operacionais. Primeiro, Forte chama António Barão, um jornalista da agência de notícias ANI, que tem a particularidade de ter uma pistola legalizada e que recebe o nome de código Salgado. A seguir, o próprio Barão recruta José de Andrade Santos, um antigo colega da ANI, que se distingue por ser detentor de um bem ainda mais raro e igualmente necessário ao plano: carta de condução. Apesar de já ser conhecido por uma alcunha, o Pifarista, o repórter ganha outra e passa a responder por Ernesto. O pintor e ilustrador Benjamim Marques e o poeta Manuel de Castro também dizem sim aos companheiros do grupo do Café Gelo, lhes explicam o plano. A partir de agora são o Júlio e o Mateus. Gavroche, Forte, Benjamim, Manuel, o Barão e Pifarista. Ao todo são seis. O que não significa que quando finalmente chegar a noite da Operação Papagaio, o grupo de Gavroche tenha esse número ou composição. As reuniões sucedem-se. O Costa, um dos membros do grupo de Artílio, chega a propor lavrar em ata todos os encontros da organização secreta, com o argumento de que estão ali a fazer história. Gavroche diz que nem pensar, seria estúpido estar a deixar pistas que os pudessem incriminar mais tarde. Até que chega o dia, num desses encontros, em que o serralheiro Artílio Batista larga a bomba. Têm de suspender tudo imediatamente. Há uma novidade que pode mudar por completo o rumo da operação. Artílio revela que foi contactado por oficiais do exército que também querem participar no plano. Um deles é capitão, o outro aspirante a oficial médico. E o serralheiro até já esteve no Forte da Trafaria a falar com eles. Não tem dúvidas, vale a pena deixá-los entrar e repensar o plano para o tornar mais profissional. Até porque, entre outras coisas, os militares já prometeram arranjar-lhes mais de 500 pistolas metralhadoras. Mas há um pormenor que Gavroche desconhece, por enquanto. Os dois militares não estão na casa de reclusão da Trafaria a prestar serviço. Estão presos, a aguardar acusação e julgamento por envolvimento no falhado golpe da Sé. E há algo que também nunca lhe poderia passar pela cabeça: é que dentro de oito meses, só um deles vai estar vivo. O outro há de ser descoberto por cães bem enterrado nas areias do Guincho e em avançado estado de decomposição. Assim que o médico legista desvenda o mistério da identidade do corpo, o nome aparece imediatamente nas capas dos jornais. José Joaquim Almeida Santos, capitão de cavalaria. Um dia, uma mulher misteriosa, loira, de cabelo oxigenado, procura Gavroche no trabalho. No meio do corrupio de homens atarefados no armazém de perfumes do pai, na rua de São Cristóvão, a mulher encontra-o facilmente, sem precisar de trocar uma única palavra com mais ninguém. Nunca o tinha visto antes, mas já sabia que o homem que tinha que procurar ia ter um sinal específico no rosto. Reconhece-o pelo penso, que traz colado no queixo há vários dias, a esconder uma borbulha que infectou. A loira aproxima-se e diz a Sânia que tinha sido combinada. "Vem da parte da sua tia Júlia." A partir desse momento, o plano da Operação Papagaio ganha outra dimensão. E Gavroche, sem o saber, começa a trilhar o caminho que o vai deixar desesperado, à beira do precipício, a tentar fazer desaparecer armas no mar. Claro que não existe nenhuma tia Júlia. É só uma frase de código. A loira vem da parte de um homem. O mesmo homem que dentro de meses vai ser encontrado morto na praia do Guincho. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. Seria apenas o início. Armamento menor, enquanto não lhes fosse possível disponibilizar o mais importante. Quinhentas pistolas metralhadoras. Gavroche volta a ser procurado pela mesma mulher, logo após o almoço, à porta do escritório do pai. Mas não podem falar ali, é demasiado perigoso. Passa uma noite inteira de lima na mão, a afiar os invólucros das munições até que finalmente caibam na câmara da semiautomática Mauser. Bastaria que um pipa passasse por ali a caminho de António Maria Cardoso, ou de regresso a casa, para pôr em causa toda a Operação Papagaio. Quando começaram a ouvir os primeiros relatos na rádio, milhares de pessoas saíram às ruas em pânico. "Operação Papagaio" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, e tem banda sonora original de Rita Red Shoes. Neste episódio ouvimos também sons retirados do YouTube. O guião é de Tânia Pereirinha. As entrevistas são de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A sonoplastia é de Diogo Casinha. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.