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São 20h do dia 16 de março de 1960. Afundado numa poltrona na sala de estar da vivenda, onde o grupo de militares fugitivos se refugiou há menos de um mês, Almeida Santos está a ler uma carta quando um estampido seco ecoa no ar. Na sala estão três homens. O capitão é o único sentado. É do lado esquerdo que sai o primeiro tiro de pistola, a queima-roupa, que o atinge na zona do olho, mas não o faz tombar. Ainda sentado, Almeida Santos encara o segundo homem, que está de pé e de revólver em punho. A cena dura escassos segundos. Vê-o premir o gatilho uma, duas, três vezes. Reconhece os estalidos metálicos. Percebe que a arma encravou. Até que, de repente, houve um novo estouro. Atingido com o segundo tiro, agora no braço esquerdo, o capitão cai de bruços no chão de madeira e é imediatamente alvejado uma terceira vez na cabeça. Apesar de o revólver de um dos assassinos ter encravado, o outro está a funcionar na perfeição. Mas Almeida Santos ainda respira. Em desespero, o segundo homem atira a arma para o chão, agarra na pá do fogão da sala e desfere uma série de golpes na nuca do capitão. Quando finalmente para, um dos homens vira o corpo de barriga para cima. O outro procura-lhe o ritmo cardíaco com as mãos. É aí que percebe que três tiros e várias pazadas depois, o capitão continua vivo. Com o dedo indicador, explica ao companheiro onde tem de acertar a seguir. E o quarto tiro, apontado ao coração, é efetivamente fatal. Quatro meses antes da morte do capitão, os militares da Trafaria tinham conseguido escapar do Forte de Alvas. Achavam que não havia alternativa à fuga. Almeida Santos estava convencido de que Salazar queria fazer dele um exemplo e nunca iria permitir que fosse libertado. Como se não bastasse, começou a circular o boato de que estava a ser preparado um campo de concentração para os receber no Tarrafal. Não havia tempo a perder. João Jacques, como habitualmente, entrou com o dinheiro. Entregou 2 contos e 500 ao capitão Almeida Santos. Uma parte serviu para comprar alguns metros de corda, outra para comprar gasolina e fazer uma revisão ao carro que iria servir para a fuga e o resto para a amante do capitão ir em viagem de reconhecimento à casa onde se iriam esconder, em Travancas, perto de Chaves. Além da mãe, Maria José tem uma tia a morar na aldeia, localizada estrategicamente a pouco mais de 2 km da fronteira espanhola. O objetivo é que depois da fuga, o grupo possa refugiar-se na casa dessa tia, conhecida como dona Anica. Mas para isso Maria José tem de ir até lá pedir-lhe permissão. Ao todo serão seis. Almeida Santos, João Jacques Marques Valente, o capitão Domingues e o major Alvarenga, os quatro militares todos detidos por envolvimento no golpe da Sé. A eles junta-se António Marques Gil, o cabo da GNR de serviço no forte, que aceita ajudá-los na fuga e que, por isso mesmo, também vai ter de desaparecer com eles. A sexta pessoa é Maria José, a amante do capitão, que é quem vai conduzir. O carro não é propriamente discreto, mas foi o que se conseguiu arranjar com tão pouco tempo de antecedência. O grupo planeia fugir do Forte de Alvas e fazer os mais de 400 km de viagem até Trás-os-Montes num carro descapotável. Esta é a "Operação Papagaio", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, com banda sonora original de Rita Red Shoes. Episódio seis: a mensagem perdida.
Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.
A fuga está marcada para a noite de domingo para segunda. É quando o cabo Gil regressa ao trabalho depois das folgas. No sábado, o capitão Domingues procura Almeida Santos. Afinal, não vai. Não se sente preparado para enfrentar as contingências. Já o major Alvarenga há de desistir ainda mais em cima da hora, no próprio dia. Tem filhos e uma família numerosa para sustentar e mesmo que não tivesse, já está velho para aventuras. Na verdade, as desistências não são um problema, pelo contrário, acabam até por dar um certo jeito. Primeiro, porque os fugitivos não têm de fazer a viagem até ao norte apertados no descapotável. Depois, porque os dois militares podem até querer ficar para trás, mas mesmo assim vão ajudá-los a escapar São 2 horas da manhã quando o capitão Domingues ata à cintura uma das pontas da corda comprada pelo cabo Gil, numa feira nos arredores de Elvas. A ajudá-lo está o major Alvarenga. A outra ponta da corda é arremessada pela janela até às ameias das muralhas, mesmo em frente. O capitão Almeida Santos é o primeiro a saltar. Agarra-se à corda e com as duas mãos começa a descida a pulso rumo ao fosso. O cabo Gil é o último a chegar lá abaixo e é ele quem lidera o caminho para o exterior. Até estarem finalmente em liberdade, vão ter de transpor uma escadaria, um muro, o contraforte e os campos que separam o estabelecimento prisional da estrada, onde Maria José está à espera desde a meia-noite. Mas o cabo Gil sabe o caminho. E mais do que isso, tem as chaves necessárias para abrir todas as portas. Sem que ninguém dê o alarme, o grupo alcança o carro de fuga. Maria José arranca rumo a Santa Eulália. E depois começam a subir. Portalegre, Castelo Branco, Covilhã, Guarda, Bragança, Vinhais. Tinham medo de encontrar barreiras nas estradas ou ter de escapar a perseguições policiais, mas o caminho está completamente livre. Dentro de 14 horas estarão à porta de casa da dona Anica, a tia de Maria José. O capitão começa logo a dar ordens no primeiro dia. Quando chega à casa de Travancas, para onde também já se mudou Adília, a mãe de Maria José, Almeida Santos trata de começar a organizar tudo. É ele quem decide em que divisões se instalam. O capitão e a amante ficam no quarto ao lado da pequena sala de estar, a única com aquecimento, onde hão de passar as semanas seguintes. João Jacques e o cabo Gil ficam noutra divisão. A Nica e Adília têm cada uma o seu próprio quarto. E a criada Fátima também. O único que tinha dinheiro do grupo é João Jacques, que o pediu emprestado à mãe. Mas também é o capitão quem se autointitula responsável por guardá-lo e gastá-lo. É Almeida Santos quem dá instruções à Adília para ir às chaves, buscar mantimentos e abastecer a despensa. E na altura do Natal, também é o capitão quem diz o que comprar como presente para cada um dos fugitivos. Uma sombrinha para dona Anica, um relógio de pulso para o cabo Gil e um par de sapatos para João Jacques. Para João Jacques é a gota de água. Desde que ali chegaram há pouco mais de 20 dias, o capitão não tem feito outra coisa senão alimentar planos irreais de assaltos a bancos e quartéis. Além disso, está farto de desbaratar dinheiro. Mandou Adília comprar dois fogões a petróleo, quando um nitidamente chegava, pediu-lhe que comprasse calçado para toda a gente e uma série de outras coisas escusadas. E agora, oferece aqueles sapatos horrendos. Ainda para mais comprados com o seu próprio dinheiro. Pior. Quando o ouve pedir à mãe de Maria José para os trocar por outro modelo do mesmo preço, Almeida Santos ainda se insurge. Grita-lhe, chama-lhe garoto e pipi. Diz que nem pensa em devolver os sapatos. É o primeiro grande confronto entre ambos e vai ser apenas o primeiro de muitos. Estão fechados naquela casa há semanas, proibidos de abrir as janelas, em estado constante de alerta. Sempre que alguém aparece, mergulham pelo alçapão disfarçado no chão da sala de estar e correm os forrodes por dentro. Até a relação entre Almeida Santos e Maria José começa a deteriorar-se e os dias repetem-se uns iguais aos outros, a beber uísque e jogar king. O Natal já passou. A seguir entram no novo ano, 1960. E logo a 3 de janeiro ouvem uma notícia que muda tudo e que lhes risca da ideia qualquer plano de fuga para Espanha. Álvaro Cunhal, preso no Forte de Peniche desde julho de 1956, acaba de se evadir juntamente com uma série de outros altos quadros do Partido Comunista Português. Todo o país está em estado máximo de alerta e as fronteiras estão ainda mais policiadas do que o normal. Vai ser impossível sair. Já que não podem ir para Espanha, decidem voltar para a zona de Lisboa, onde têm mais contactos. E mais uma vez a mãe de Maria José vai ser providencial. Enviada a Lisboa pelo capitão, Adília consegue arrendar uma vivenda em Rio de Mouro, uma casa discreta, no meio de um denso arvoredo, abrigada de olhares curiosos, ideal para os fugitivos se esconderem. Mais uma vez também vai ser João Jacques a custear todas as despesas. Mas a mudança para a vivenda Verde Pino, arrendada através dos classificados do Diário de Notícias, ainda vai demorar. Por causa da fuga dos comunistas de Peniche, as estradas estão cheias de barreiras policiais. Vai ser preciso esperar algum tempo até que as coisas acalmem. E é assim que no dia 25 de fevereiro de 1960, quase três meses depois da fuga do Forte da Graça, Almeida Santos e Maria José se metem no carro de um vizinho de Travancas rumo a Rio de Mouro. Adília já lá está à espera. O cabo Gil, que entretanto deixou crescer o bigode, e João Jacques chegam mais de duas semanas depois, no sábado, dia 12 de março, logo às 6 horas da manhã Daí a quatro dias, o Capitão Almeida Santos será assassinado. Nos depoimentos que prestaram na altura à PIDE, os outros fugitivos disseram todos o mesmo, que o Capitão Almeida Santos tinha perdido o juízo. Fazia planos de assaltos, atentados de morte e ajustes de contas. Batia na amante e, como se não bastasse, ainda tinha ciúmes de João Jacques. A citação é do próprio médico. "Só vi mais tarde que a ação política dele não era mais do que violência e ódio. O seu realismo não passava de cinismo e a falta de preconceitos paralisantes não era mais do que a falta de escrúpulos." As descrições que se seguem são baseadas nos depoimentos à PIDE, feitos por João Jacques, António Gil, Maria José e Adília. Depoimentos que José Joaquim Almeida Santos, por motivos óbvios, nunca teve a oportunidade de rebater. Mais, o professor Nunes Estêvão Ferreira recorda que muitas vezes a polícia política recorria à violência durante os interrogatórios, o que significa que nem tudo o que foi dito e registado pode corresponder ao que efetivamente se passou.
O interrogatório na PIDE era feito sem a presença de um advogado, mediante tortura. Digamos que passado algum tempo, dias, semanas, sem dormir, de pé, a ser torturados, bofeteado, pontapeado, etc. Isto era uma questão muito importante para a oposição. Eu estou a falar de forma algo redutora. Não era difícil qualquer papel que fosse posto à frente, assinar para ver se aquilo para.
Assim que o grupo volta a estar todo reunido, o capitão convoca uma reunião. Fica decidido que contratar uma empregada é muito arriscado. Portanto, todos eles vão ficar responsáveis pela limpeza da casa. Todos menos o capitão, claro. Enquanto os outros quatro se desdobram em afazeres domésticos, Almeida Santos lê o jornal sentado na única poltrona da casa. E quando acaba, vai para o jardim treinar uma cadela que a Adília trouxe do canil de Sintra para os proteger de potenciais intrusos. O ressentimento contra o capitão vai crescendo e o facto de Almeida Santos estar cada vez menos falador e mais irascível não ajuda. Sai muitas vezes para passear sozinho e vai sempre armado. A pistola Beretta num bolso e a Walther no outro. Quando regressa, percebe que os outros se calam subitamente e fica ainda mais furioso. Como se não bastasse, Maria José já não consegue disfarçar. O clima de lua de mel com o capitão já acabou há muito tempo e ela derrete-se com as mesuras e atenções que João Jacques lhe dispensa. Como se Almeida Santos não estivesse na mesma sala a assistir a tudo. Quando estão sozinhos no quarto, o capitão castiga a amante, e não apenas com palavras e acusações. Na véspera do assassinato, está tão desnorteado que a agride ali mesmo, na sala, à frente de toda a gente. Mais uma vez entra em casa e todos se calam. Despe o sobretudo, aponta a pistola a Maria José e grita: "Com que então em grande assembleia. Ora vamos lá esclarecer este assunto." Depois faz-me ir aos homens. "Não pensem vocês que isto é a cena que o marido bêbado faz aos sábados à noite quando chega a casa. Isto vai ser mais sério." Quando sente as mãos de Maria José nas costas, reage instintivamente. A amante só queria acalmá-lo, mas o capitão está a estrangulá-la perante a mãe dela, João Jacques e o cabo Gil. Ordena-lhes que saiam da sala e eles obedecem. Continua a agredir a mulher, dá-lhe bofetadas, acerta-lhe com a coronha da pistola na cabeça, chama-lhe de nomes. A seguir, encaminha para o quarto e avisa os outros três. "Se alguém tiver a ousadia de lá entrar, leva um tiro." As agressões continuam. Ordena a Maria José que se deite no chão, pisa-lhe a cara. Deixa-se ficar assim, enquanto pega um copo de conhaque e a mantém imóvel, sob a ameaça da pistola. No dia seguinte de manhã, confessarão ambos à PIDE. João Jacques toma a decisão de matar o capitão e o cabo Gil prontifica-se para o ajudar. Às oito da noite desse mesmo dia, estará tudo acabado. Com uma pistola de João Jacques encravada, é o cabo Gil quem dispara os quatro tiros que hão de valer-lhe uma pena de 18 anos. Mas por ter sido o autor da ideia, João Jacques Marques Valente recebe uma pena ainda mais pesada. 19 anos de prisão pelo homicídio do camarada revolucionário. E como ele, membro fundador da Cúpula da Resistência, a organização subversiva criada com o Gave Roche. A primeira pessoa a quem João Jacques telefona depois de perceber que Almeida Santos está mesmo morto, é à mãe, a francesa Renée Marie, já então viúva. A segunda é o amigo Fernando Mourão. Nessa altura, Maria José e Adília, que tinham fugido para o quintal assim que ouviram o primeiro tiro, também já estão dentro de casa a esfregar o sangue do capitão que está espalhado pelo chão. Renée Marie e o aspirante a oficial miliciano Mourão chegam juntos. Ele ainda vem fardado. Ela é quem dá a ideia de enterrar o cadáver numa praia. E o guincho não é sequer a primeira opção. Antes de finalmente se decidirem abrir uma cova ali, no ventoso areal a escassos minutos de Cascais, o grupo vai passar por várias praias da linha de Sintra. Maria José mais uma vez chega ao volante, agora do carro da mãe de João Jacques. Fernando Mourão vai ao lado. O objetivo é que a farda demova potenciais brigadas de trânsito de os mandarem parar. No banco traseiro, sentam-se os dois assassinos com o corpo do capitão aos pés, devidamente enrolado num cobertor. São eles quem escavam a areia, na zona das dunas onde depositam o corpo. De regresso a Rio de Mouro, o cabo Gil trata de fazer desaparecer as últimas pistas incriminatórias. Enterra o sobretudo do capitão no quintal e com ele, as duas armas do crime. Quando terminam, já é de madrugada. Vão passar as duas semanas seguintes convencidos de que cometeram o crime perfeito. Até que no último dia de março, um pescador, alertado por cães que acabam de encontrar qualquer coisa no areal, há de fazer o telefonema fatal para a polícia. "Há um cadáver enterrado na praia do Guincho."
A notícia circula logo pelos meios da oposição, de pessoas que tinham estado envolvidas no golpe da CEE, incluindo um grande amigo do Cardoso Pires, o Castro Soromenho, que por causa disso, sai do país nessa altura, porque se pensava que na altura teria sido a PIDE a matar Almeida Santos. Ainda não se conheciam os contornos do crime.
"Logo depois do corpo do capitão Almeida Santos ser identificado, começam a circular várias versões sobre o crime", diz Bruno Vieira Amaral, biógrafo do escritor José Cardoso Pires.
E então havia esta ideia de que poderia ter sido a PIDE, o que põe logo toda a gente em alerta, mas começa a circular informação e a ser divulgada informação na imprensa, que mostra uma outra realidade, que haveria aqui um crime de contornos passionais. Não teria que ver com a atividade política destes indivíduos. O capitão Almeida Santos, Jean-Jacques Valente, a mulher que os auxiliou na fuga e que era amante do capitão Almeida Santos e o tal cabo Gil viviam escondidos, creio que perto do Cacém, no Rio de Mouro, numa vivenda. E então começam-se a descobrir, a saber os pormenores desse crime e a informação que o Cardoso Pires tinha na altura, era basicamente a informação que saía na imprensa sobre esse crime.
A história apaixona a opinião pública. E não só. O escritor José Cardoso Pires, então com 34 anos, também acompanha as notícias. É militante do Partido Comunista Português. Não propriamente ativo, mas militante. Sobretudo, é anti-ditadura e acredita que o regime só pode ser combatido eficazmente através do PCP. Em 1961, já depois do julgamento de João Jacques, António Gil, Maria José, Adília, Renée Marie e Fernando Mourão, Cardoso Pires está numa espécie de bloqueio. Há três anos que não publica. Pior, não sabe sobre o que há de escrever. É então que o tema lhe cai no colo.
Ele tinha publicado em 58, "O Anjo Ancorado" e entretanto não tinha voltado a publicar nenhum romance ou novela, portanto, estava ali numa fase de impasse e através de uma amiga que trabalhava na embaixada do Brasil, fazem-lhe chegar a confissão escrita, ou um relato escrito do próprio Jean-Jacques Valente, que ele tinha escrito na prisão.
A história tem tudo: intriga, paixão, mistério e crime. O escritor começa imediatamente a trabalhar, mas o entusiasmo passa-lhe rápido. E não é só porque está com dificuldade em encontrar o tom certo para o romance, explica o biógrafo Bruno Vieira Amaral.
Ele sabia que escrever sobre um tema tão delicado na altura e que acabaria por dar uma imagem negativa desses meios oposicionistas, não era fácil. Até poderia servir os interesses do próprio regime e despertar, suscitar críticas de pessoas que lhe eram próximas e das quais ele estava próximo politicamente. Ele tinha algum receio que pudesse haver esse aproveitamento, porque obviamente ele queria escrever em liberdade, não queria escrever um panfleto a favor ou contra o regime. Ele é um romancista, um escritor, portanto, ele não queria fazer nenhum libelo ou um panfleto ideológico, mas também não era parvo. Também sabia que escrevesse ele o que escrevesse, poderia haver um aproveitamento político de uma parte ou de outra, e o que ele não queria é que houvesse um aproveitamento político por parte do regime.
Se João Jacques escreve a Cardoso Pires, é exatamente porque suspeita que um outro escritor, próximo de Salazar, também está a fazer o mesmo. Joaquim Passos Daros esteve presente em todas as sessões do julgamento. Só pode estar a preparar uma coisa em grande. É urgente que o escritor da oposição conte aquela que considera a versão certa da história.
O Jean-Jacques Valente, não sei se nessa carta em que explicava o que tinha acontecido, se noutras ocasiões, disse que o capitão Almeida Santos tinha como que perdido a razão Quase enlouquecido, ele inventava planos mirabolantes, como o de assaltar bancos ou de se vingar das pessoas que supostamente os tinham traído e tinham contribuído para o fracasso do Golpe da Sé. Isso demonstrava muita desorganização, uma grande falta de coesão no movimento da oposição e de pessoas que, do ponto de vista do caráter, não saíam muito bem retratadas. E tudo isso serviria para atacar a oposição, dizer que isso não são pessoas de confiança, não são pessoas que lutem por nenhum ideal benéfico para o país, são aventureiros.
No final, o projeto acaba por ir parar a uma gaveta. Só mais tarde, oito anos depois do 25 de abril de 64, e outros tantos depois de se desvincular formalmente do PCP, é que o José Cardoso Pires publica A Balada da Praia dos Cães. O crime já tinha sido cometido há mais de duas décadas, a ditadura já tinha chegado ao fim, os assassinos já estavam em liberdade. E como se não bastasse, o livro era baseado em fatos reais, sim, mas não deixava de ser um romance. Mesmo assim, o escritor foi muito criticado. Sobretudo pelo advogado Francisco Sousa Tavares, que com a mulher, Sofia de Mello Breyner, tinha sido das poucas pessoas presentes no funeral do amigo Almeida Santos. E pelo coronel Varela Gomes, que tinha participado no Golpe da Sé e foi próximo do PCP durante a revolução. Apesar de já estar à espera dessas reações, diz Bruno Vieira Amaral, Cardoso Pires ficou magoado.
Varela Gomes achava que aquilo era deliberado. Acabava por lançar esse manto de vergonha e de sordidez sobre todas as pessoas que tinham enfrentado o regime, e ele ficou afetado por isso. Ele ficou magoado porque uma coisa é antecipar, outra coisa é ser confrontado com essa reação. E ele, na verdade, não queria lançar esse tal manto de vergonha sobre toda a oposição e dizer que aquilo era tudo aventureiros que não sabiam muito bem o que queriam e completamente desorganizados, e até, no caso do capitão Almeida Santos, próximo da psicopatia. Não era essa a intenção dele. Só que o caso era demasiado suculento pra ele resistir a escrever sobre o caso.
O caso era grave. Disso, Gav roche nunca teve dúvidas. E foi por isso mesmo que naquele domingo de manhã, assim que leu o nome de Almeida Santos nos jornais, tratou de começar a apagar todas as provas que o ligavam ao cadáver da Praia do Guincho. Os trabalhos levaram o dia inteiro. Afinal, não tinha apenas de se desfazer de uma série de armas, livros e documentos. Tinha de se desfazer de uma série de armas, livros e documentos enquanto cuidava do filho pequeno. E sem que Kátia, a mulher na altura grávida de seis meses, desse por isso. Quando chegou a casa já de madrugada, levava vários livros que tinha trazido emprestados de casa de Bruno da Silveira. O médico não se limitou a guardar-lhe a mala com as armas durante o dia, até que fosse seguro ir à praia atirar as pistolas ao mar. Foi também o seu álibi. Se demorou tanto para chegar a casa, foi porque se demorou na conversa com ele. E os livros emprestados são a prova disso. Mas uma coisa é enganar a mulher, outra bem diferente é enganar a PIDE. Gav roche já tinha esquecido a Operação Papagaio, mas a morte de Almeida Santos vai trazê-la de volta. Depois de encontrar o corpo, a polícia política começa a fazer perguntas, começa a prender pessoas e começa a estabelecer ligações entre os membros da organização. Daí a dois meses, em junho de 1960, Gav roche vai mesmo acabar por ser detido. Dias antes de a filha Bárbara nascer em agosto, Kátia está sozinha em casa com João Francisco, que entretanto já fez dois anos. Gav roche está novamente preso no Aljube, uma das cadeias pra onde eram levados os presos políticos do Estado Novo.
Ela disse-me que tinha conversado com o pai, pra ele deixar ter aquelas atividades, porque tinham falado em ter um outro filho. Então que ele teria que ficar quieto, porque ela não podia ficar sozinha com dois medos. E quando estava grávida de mim, ele foi preso. Ela ficou muito chateada com ele por causa disso, mas não se separaram.
Gav roche é o primeiro. A seguir, cai Artílio. E logo depois, António José Forte, António Barão e o pifarista. Um de cada vez, com dias ou semanas de diferença, todos são presos e interrogados pela PIDE. Os agentes querem saber o que foi, afinal, a Operação Papagaio, de que todos falam, e que envolveu o capitão agora morto e o assassino confesso. E nenhum dos operacionais consegue manter o segredo. Todos confessam. A PIDE fica a conhecer todos os detalhes da Papagaio, que são transcritos em centenas de páginas que ficaram guardadas nos arquivos da polícia política. Mas há uma coisa que a PIDE nunca conseguiu apanhar: a bobine revolucionária que deveria ter servido para interromper a emissão do Rádio Clube Português. No final, são libertados sem qualquer acusação, mas estão completamente derrotados. A organização a que chamaram Resistência chega ao fim mesmo antes de começar a atuar. Estamos no fim de 1961. O período mais intenso de atividade antirregime, a que a derrota do general Humberto Delgado deu gás, está prestes a acabar. Diz-nos Estêvão Ferreira
O regime vem a cair por causa da guerra colonial e por causa de uma guerra colonial que se prolonga durante muitos anos. Mas naquele período entre 58 e 62, desenvolve-se a percepção de que o regime está em fragilidade. E as fragilidades podem não ser resolvidas apenas e só com revisões da Constituição. As fragilidades são mais profundas e é possível que um golpe derrube o regime. De facto, assim foi, mas foi um golpe com um grau de sofisticação e num estado muito mais adiantado de envelhecimento do próprio regime, mesmo com a renovação de Marcelo Caetano ou tentativas de renovação a partir de 1968 com Marcelo Caetano.
Os surrealistas eram demasiado loucos e os tempos estavam muito longe de ser seguros, sobretudo para os loucos que ousavam afrontar o regime. A PIDE podia estar sempre à espreita, e geralmente estava, à paisana ou até disfarçada de amigos íntimos, que afinal eram informadores.
Na mesa ao lado podia haver um PIDE. Houve casos terríveis de informadores e agentes do PIDE que eram supostamente democráticos e amigos da casa. Que é o caso terrível do melhor amigo e padrinho das filhas do José Cardoso Pires, que percebeu que o seu melhor amigo fazia relatórios semanais para a PIDE sobre o almoço lá em casa, quem estava.
O escritor Hélder Macedo sai de Portugal em 1958, ainda sem saber que tem cadastro na PIDE, mas já a fugir dela. Com o tempo, muitos outros vão seguir-lhe o exemplo, e o grupo do Gelo, que nunca foi bem um grupo, começa a dispersar-se. O investigador António Cândido Franco recorda que na altura só havia duas opções.
Não havia nenhuma alternativa a isto em relação ao futuro em Portugal. Ou pegar em armas para fazer cair o fascismo, ou então o exílio político, ou o exílio não político, mas artístico. Alguns deles farão exatamente isso. Vão pra Alemanha com bolsas dadas pela Gulbenkian e acabam por ficar ou em Paris, na Alemanha, em Londres e, portanto, não regressam a Portugal, a não ser muito mais tarde.
Os que ficam em Portugal acabam a ser escorraçados de vez do Café Gelo, depois de um incidente que envolve polícia, açucareiros e canhões de água com tinta azul. É o primeiro de maio de 1962. Depois de meses de apelos por parte do Partido Comunista Português, milhares de pessoas saem às ruas em todo o país e há greves de trabalhadores em luta pelas oito horas de trabalho diárias. Em Lisboa, a manifestação começa morna no Terreiro do Paço, mas ao fim da tarde o caos está instalado. À repressão das autoridades, os manifestantes respondem com pedras da calçada e sinais de trânsito arrancados do chão. Há guardas a cavalo, granadas de gás lacrimogêneo e tiros para o ar. E não só. Na demandada pela cidade acima, um homem cai morto ao chegar à rua da Madalena, onde o pai de Gave Rocha tem escritório. É baleado na cabeça pela PSP. Lisboa está a ser varrida por canhões d'água, pela primeira vez misturada com tinta azul, para deixar marcas nos que se atrevem a fazer frente ao Estado Novo. Enquanto isso, no Café Gelo, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, João Rodrigues e Luís Pacheco apreciam a confusão à distância, protegidos por uma porta cautelosamente encostada. Estão sentados às mesas sossegados, até que, de repente, um grupo de homens entra no café a perseguir uma mulher. É Luís Pacheco quem conta o que se passou ao biógrafo João Pedro Jorge. Quando os homens que pareciam verdadeiras feras já estão a sair do Gelo, os artistas resolvem provocá-los. Num segundo estão a gritar: "Uh, uh". No outro, está a pancadaria instalada. Sem armas disponíveis, Pacheco e companhia atacam com o que têm à mão. Agarram nos grandes açucareiros de metal que estão sobre as mesas e começam a fazer pontaria à cabeça dos agressores. Há sangue a jorrar, gritos de dor e prejuízos que se hão de revelar avultados. Chamado à PIDE para ser interrogado, Sequeira, o gerente do Café Gelo, vai explicar que os clientes responsáveis pela balbúrdia não têm nada a ver com o PCP. Aquilo é malta, estudantes, artistas, pintores, poetas, mas já não há remédio. Por eles vão pagar todos os membros do grupo do Gelo que ainda não abandonaram o país. A PIDE não os quer voltar a ver no café. E Sequeira não a vai contrariar. Dois ou três dias depois, quando voltam ao Gelo, os artistas são expulsos. "Vocês não podem estar aqui." O grupo do Gelo tinha chegado ao fim. Os locutores de rádio eram papagaios que se limitavam a papaguear a narrativa do regime e fariam melhor figura calados. Por isso é que a Operação Papagaio se chamou assim. Viria a explicar muitos anos depois, Luís Filipe Costa. No meio de toda a confusão, o primo de Gave Roche, que devia ter aberto a porta da rádio na noite da Operação Papagaio, não chega a ser detido pela PIDE e isso permite-lhe participar noutro plano para derrubar o regime 15 anos depois. Incrivelmente, há duas coisas que ligam a Operação Papagaio e a Operação Fim de Regime, que ficaria na história simplesmente como 25 de Abril Tal como na Operação Papagaio, o 25 de Abril escolheu o Rádio Clube Português para transmitir uma mensagem revolucionária à população. E tal como na Operação Papagaio, o homem que no 25 de Abril está na estação de rádio é Luís Filipe Costa. Em 1974, já não está lá como funcionário da APA, mas sim como locutor. Por isso, é ele quem lê ao microfone os comunicados do Movimento das Forças Armadas.
Posto de Comando das Forças Armadas. Em aditamento ao último comunicado, o Movimento das Forças Armadas informa a Nação que conseguiu forçar a entrada no quartel da Guarda Nacional Republicana, situado no Largo do Carmo, onde se encontrava o ex-presidente do Conselho.
E Gavroche? Onde estava Gavroche no 25 de Abril? Depois de sair do Aljube, o revolucionário volta a viver com Kátia e os filhos, mas o casamento está por um fio. A finlandesa até pode aceitar as noitadas nos cafés, as atividades subversivas e as passagens pela prisão, mas há coisas que lhe são mais difíceis de tolerar. No meio de uma vida tão agitada, Gavroche continua a conseguir arranjar tempo para se apaixonar por outras.
Estava sempre muito apaixonado. Eram todas as mulheres da vida dele, era o grande amor da vida dele. Durava três meses, lá voltava ele. Pronto.
O ambiente está tão tenso que até o próprio pai de Gavroche se apercebe e tenta fazer um negócio com o filho. Em troca de dinheiro, ele deixa-o ficar com a guarda dos netos, João Francisco e Bárbara. Está mesmo a ver que o filho e a estrangeira se vão separar e que ela vai querer levar os miúdos para fora de Portugal. Gavroche diz que sim. Fica com o dinheiro e compromete-se a entregar os filhos em breve. Mas em vez disso, corre para casa, diz a Kátia para fazer as malas e fogem os quatro. Primeiro a pé, depois à boleia para o Algarve. De lá passam a fronteira para Espanha, onde apanham um barco para Ibiza. Na ilha espanhola, Kátia arranja trabalho em casa de uma pintora famosa. Os miúdos aprendem línguas com os filhos dos outros expatriados e Gavroche adere à moda da tanga fio dental e passa os dias na praia. Será uma questão de tempo até estar apaixonado outra vez.
Da casa para a praia era um bocado distante, devia ser 1 km, pelas minhas memórias. E ele ia para a praia, para aquilo, voltava. De tronco nu, todo só com aquilo.
Por três vezes separaram-se, porque o meu pai encontrou o amor da vida dele. À terceira foi de vez, mas não ficou com esse amor, ficou sem a mulher e os filhos dessa terceira vez. Minha mãe foi paciente.
Uma vez separada, Kátia cumpre o sonho inicial e muda-se com os filhos para Angola, onde já está António Gonçalves, um amigo de Gavroche, que até tinha morado com eles durante algum tempo na casa da Parede.
Ele quando se separou da Kátia a primeira vez, disse para o António: "Toma conta dos miúdos." E ele tomou conta dos miúdos. Ele é que foi o nosso pai. E depois com ele, a minha mãe teve mais um filho. Temos um irmão mais novo, é cinco anos mais novo que eu.
Durante anos ninguém soube nada de Gavroche. Nem os filhos, nem a ex-mulher, nem os amigos, nem os pais, nem o primo Luís Filipe Costa, ninguém. Depois de a família se separar em Ibiza, Gavroche esfuma-se e nem aparece no 25 de Abril. É nessa altura que a avó de Bárbara e João Francisco mete na cabeça que o filho está morto. Só falta saber onde.
Quando houve o 25 de Abril, ele não veio. Não veio, e daí que nós, na altura, pensamos que ele tivesse morrido.
Nessa altura ele estava desaparecido, dissemos: "Está morto, pronto." A família tinha decidido que ele estava morto, porque devia ter vindo.
Mas afinal, não. Gavroche, o homem que em tempos quis derrubar Salazar com um arsenal de pistolas velhas e uma bobine a tocar na rádio, não regressa a Portugal em 1974, porque não concorda com a revolução dos Capitães de Abril.
E quando ele veio e falámos, eu perguntei: "E não vieste em 74?" Ele disse que não se identificou com a revolução, que é contra os governos, que era anarquista.
Emigrado em França, continua a apaixonar-se. Tem mais uma filha, Beatriz, também se separa da mãe dela e acaba a trabalhar num parque temático, vestido de cowboy, com pistolas de brincar. Foi lá que morreu em 2004, aos 72 anos. Apesar de diagnosticado com cancro na garganta, contam os filhos, nunca deixou de fumar. Da última vez que esteve em Portugal, anos antes, nem a própria mãe o reconheceu quando o foram buscar ao aeroporto de Lisboa. Vinha com a namorada da altura, uma francesa chamada Alma, que também trabalhava no parque temático, mas na zona dos índios.
Ele vinha de botas, chapéu à cowboy, o cabelo meio careca em cima, aqueles rabos de cavalo assim muito já grisalho. Pouco cabelo, mas rabo de cavalo. Vinha a fazer toda a sua imagem de cowboy.
Ao contrário do que aconteceu com o primo Luís Filipe Costa, com todos os artistas surrealistas que convenceu a embarcar na Operação Papagaio, com João Jacques e com o capitão Almeida Santos, e até com o serralheiro Artílio Batista, que continuou a luta antiditadura nas brigadas revolucionárias, Gavroche não ficou para a história, mas nunca deixou de ser um personagem até ao fim. Só fica a faltar uma coisa nesta história. O que aconteceu à bobine revolucionária da Operação Papagaio? E que mensagem estava lá gravada, pronta para ser transmitida clandestinamente no Rádio Clube Português? Na noite em que a operação se deveria ter realizado, a bobine foi entregue a Maria Eduarda, que dias mais tarde, a deu aos militares que estavam detidos no presídio da Trafaria, juntamente com as armas que deveriam ter sido usadas para o assalto à rádio. Semanas depois, quando percebeu que a prisão ia ser revistada, o capitão Almeida Santos deu ordem a João Jacques para fazer desaparecer tudo. Ele queimou a bobine. Mas a descrição feita por Gago Rochas nos interrogatórios da PIDE permite reconstituir a gravação. Sessenta e quatro anos depois, a Operação Papagaio pode finalmente ir para o ar. Presentemente mais próximos da multidão, através de frequentes reproduções das suas- Atenção, atenção. O Rádio Clube Português foi assaltado por uma brigada das Milícias de Ação Popular, uma organização formada para lutar pelas armas contra o regime vigente, visto que todos os outros meios se mostraram ineficazes. Lamentamos ter de recorrer a meios violentos, mas não nos é dada outra possibilidade de luta. Pedimos o apoio do povo para a causa das Milícias de Ação Popular. Exigimos a neutralidade do Exército, da Marinha e da Força Aérea. A luta que agora começa é contra todos aqueles que apoiam ou defendem diretamente a atual situação política. Avisamos a Polícia Internacional e de Defesa do Estado que quaisquer represálias contra membros da nossa organização serão retribuídas sobre funcionários da PIDE. Repudiamos qualquer ligação ao Partido Comunista Português. Apoiamos o general Humberto Delgado. Apelamos à luta do povo português e ao fim da ditadura. Viva a liberdade! "Operação Papagaio" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, e tem banda sonora original de Rita Red Shoes. Neste episódio ouvimos também sons retirados do YouTube. O guião é de Tânia Pereirinha. As entrevistas são de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A sonoplastia é de Diogo Casinha. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus O Observador. É mais do que um podcast.
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