Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

No primeiro encontro, Gave Roche nem sequer ficou com um nome. Quando uma loira misteriosa o procurou no armazém de perfumes do pai, não foram necessárias apresentações nem muitas trocas de palavras. No momento em que recebeu o embrulho das mãos da mulher, já sabia bem o que aquilo era, mesmo que por fora nada desse a entender o que estava lá dentro. Ligou logo pro Barreiro, pra casa de Artílio Batista, o serralheiro que se tinha juntado à operação. Marcaram um encontro para essa mesma noite na Rua do Arsenal, de onde seguiram para uma taberna insuspeita. Foi aí, sem que ninguém desse conta, que Gave Roche passou o conteúdo do embrulho a Artílio: duas pistolas. As armas tinham sido enviadas pelos militares da Casa de Reclusão da Trafaria. Seria apenas o início. Armamento menor, enquanto não lhes fosse possível disponibilizar o mais importante: 500 pistolas-metralhadoras. Dias depois do primeiro encontro, Gave Roche volta a ser procurado pela mesma mulher, logo após o almoço, à porta do escritório do pai. Mas não podem falar ali, é demasiado perigoso. Fica agendado um encontro nessa mesma noite, num sítio mais isolado na parede. É só nesse momento que vai ficar a saber de um nome: Maria Eduarda. No verão de 1959, a Operação Papagaio assenta numa aliança improvável de três grupos. O primeiro grupo é liderado por Gave Roche e o amigo António José Forte, que recrutam artistas surrealistas. São eles que têm a ideia pra operação. O segundo grupo é o de Artílio Batista, um experimentado militante anti-regime. Foi António José Forte que o incluiu no plano. Conhecia-o desde os tempos em que estiveram presos em Caxias. E o terceiro grupo é o dos militares que estão detidos em Trafaria, por envolvimento no Golpe da Sé. São liderados pelo capitão Almeida Santos. Neste terceiro grupo, há outro homem importante, o oficial do exército, João Jacques Marques Valente. Estes dois militares foram presos na mesma altura por participarem na mesma tentativa falhada de golpe contra o regime, mas só se conhecem no presídio militar. Assim que se cruzam, João Jacques fica encantado com o caráter combativo do capitão. Apesar de preso e a aguardar julgamento, Almeida Santos continua a querer derrubar o regime. Indigna-se com os outros oficiais que se deixaram cair na apatia. Mesmo estando à guarda das autoridades militares, Almeida Santos tem reuniões subversivas, planeia tentativas de fuga e chega a receber armas que esconde no quarto do presídio. Está com vontade de entrar num novo golpe. João Jacques desabafa com um amigo que o visita na prisão. Ele e Almeida Santos querem voltar a tentar derrubar Salazar, mas não têm nenhum plano concreto. Esse amigo fala com outro amigo, e esse outro amigo fala com um homem baixo e atarracado, que está na situação oposta. Tem um plano, mas precisa de mais ajuda. Um dia, nesse verão de 59, o capitão Almeida Santos recebe a visita de alguém que se apresenta como Artílio Batista. O serralheiro explica-lhe como ele e Gave Roche pretendem acabar com o regime. O capitão acha a ideia ótima. Está finalmente formada a improvável aliança entre os três grupos. Mas estes revolucionários não podem encontrar-se no presídio de cada vez que precisam trocar informações. Seria demasiado perigoso. É por isso que vão passar a ter um elo de ligação. Alguém que pode entrar na cadeia a qualquer hora, sem levantar qualquer suspeita. Uma mulher. A mulher de João Jacques. A loira. Maria Eduarda. Esta é a "Operação Papagaio", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Pluss do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, com banda sonora original de Rita Red Shoes. Episódio três: Nome de código Alice.

Esta é uma história real. E é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Pluss do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito pra contar, mas também tem muita vontade de ouvir.

Na noite em que se encontra com Maria Eduarda na parede, Gave Roche descobre que Artílio Batista lhe mentiu. Ou pelo menos, omitiu a verdade. Só nessa altura fica a saber que Maria Eduarda é casada com João Jacques. Mas é a revelação seguinte que o vai realmente surpreender. João Jacques não está na Trafaria a prestar serviço. Está a cumprir pena, por envolvimento no recente Golpe da Sé. E o mesmo acontece com o capitão Almeida Santos. É só nesse momento que Gave Roche percebe que os dois grandes aliados do exército pra Operação Papagaio estão, na verdade, atrás das grades Maria Eduarda garante que isso não é um problema e que os oficiais farão tudo para apoiar o plano. Nessa noite, há uma outra coisa que fica combinada. Passam a apanhar o mesmo comboio todas as manhãs para Lisboa. Se nada acontecer, Gave Roche e Maria Eduarda serão apenas dois estranhos na mesma carruagem, a caminho do trabalho. Mas se for preciso passar alguma mensagem, bastará fazer um sinal. Armas, carros e dinheiro. Estes são os três ingredientes indispensáveis para levar para a frente a Operação Papagaio. E Maria Eduarda vai ser essencial para os arranjar. Mas há outra coisa essencial, que nem com a ajuda dela Gave Roche vai conseguir. Assegurar a máxima discrição dos envolvidos, para não chamar a atenção da PIDE. O que para os militares não passa de uma tarefa básica, é uma missão quase impossível para artistas boêmios, que se embebedam todas as noites e têm uma enorme propensão para falar demais. Isso pode ser fatal, lembra o investigador Nuno Estevão Ferreira.

Era uma atividade profundamente arriscada. Quem o fazia sabia que corria riscos sérios para si ou para os seus familiares diretos, porque combater o regime significava ser um apátrida, ser alguém fora do sistema do ponto de vista político e do ponto de vista económico. Não era fácil. Há vários setores, há planos militares, há o famoso capitão Almeida Santos e há figuras ativistas que estão dispostos a pegar em armas para pôr cobro ao regime.

Sim, a Operação Papagaio é altamente arriscada, mas se tudo resultar, a recompensa pode ser enorme. Primeiro é preciso comprar uma bobine e gravar uma mensagem revolucionária. Depois invadir o Rádio Clube Português, interromper a emissão normal e pôr o apelo no ar. Se o povo ouvir o apelo da rádio e começar a sair à rua em massa, a revolução pode mesmo acontecer. Não é por acaso que a rádio é escolhida para a Operação Papagaio e para dar a conhecer o movimento das milícias de ação popular. Estamos em 1959. As emissões regulares da RTP a preto e branco começaram há apenas dois anos e só na Grande Lisboa. A televisão era um objeto de luxo, ao alcance de muito poucos. A rádio é o grande meio de comunicação de massas. E Gave Roche sabe que é a forma mais fácil de chegar rapidamente a milhares de pessoas e de as fazer sair de casa.

Senhoras e senhores, estimados ouvintes, temos uma grave notícia a dar-vos. Por muito incrível que pareça, tanto a observação científica como os nossos próprios olhos, levam à inevitável conclusão de que os estranhos seres que aterraram hoje à noite em Carcavelos são a vanguarda de um exército invasor do planeta Marte.

Apenas um ano antes, extraterrestres invadiram Portugal, fazendo aterrar discos voadores na praia de Carcavelos. Quando começaram a ouvir os primeiros relatos na rádio, milhares de pessoas saíram às ruas em pânico. Isto apesar da brincadeira ter sido anunciada em antena com vários dias de antecedência, para evitar possíveis apoplexias e ataques cardíacos. Recorda Aurélio Carlos Moreira. É o locutor há mais tempo em atividade em Portugal e que aos 84 anos continua a falar ao microfone.

A Rádio Renascença levou uma semana a uma semana e meia a avisar as pessoas que ia transmitir aquilo, mas as pessoas só ouvem aquilo que querem. Há avisos durante uma semana, uma semana e tal. "Vamos transmitir o Orson Welles", tal e qual, que foi um sucesso na América.

At 20 minutes before eight, Central Time, professor Farrell of the Mount Jennings Observatory, Chicago, Illinois, reports observing several explosions of incandescent gas occurring at regular intervals on the planet Mars.

Nos Estados Unidos, o autor e realizador Orson Welles encenou a famosa "Guerra dos Mundos" na rádio em 1938. A versão portuguesa só chega 20 anos mais tarde, mas não é por isso que provoca menos caos.

Chegaram mais tropas da Guarda Nacional Republicana, que estão a formar um cordão de uns 50 homens em frente à cratera. Agora já não é preciso empurrar a multidão para trás. Já ninguém quer aproximar-se.

É produzida pelo locutor José Matos Maia e devidamente submetida à censura, que dá luz verde à emissão. Nesse mês de junho de 1958, Aurélio Carlos Moreira está na Rádio Renascença e tem um pequeno papel na encenação da invasão dos marcianos.

Se sou sincero, eu não sei se fiz de bombeiro, se fiz de polícia, uma coisa muito curta, mas foi uma presença que para mim foi agradável, porque foi uma coisa que marcou a história da rádio em Portugal.

O locutor recorda o impacto que o teatro radiofónico teve naquele dia. As pessoas acreditavam que se estava a passar na rádio, então é porque estava mesmo a acontecer.

Muita gente foi para o hospital, porque julgavam que era verdade. Quando aquela parte dizia que o disco voador tinha aterrado em Carcavelos, as pessoas além da linha de Cascais, disseram, "lá vamos nós conhecer os elementos que viajam naquele disco voador."

No fim, o teatro que Matos Maia tinha levado quase um ano a preparar e que envolveu uma série de locutores de rádio e jornalistas, acaba mesmo por ser interrompido pela PSP. Não importa se tinha passado ou não no crivo da censura. "Não se brinca com coisas sérias." Havia de ouvir o locutor entretanto levado para a sede da PIDE e detido durante três dias. Mas a verdade é que a performance entra para a história da rádio em Portugal. Mais do que isso, faz prova do enorme alcance que ela tem e demonstra bem como as palavras certas, proferidas ao microfone certo, podem levar o povo a agir. No final dos anos 50, existem cinco grandes rádios no país. A Emissora Nacional, o Rádio Clube Português, a Rádio Renascença, os Emissores Associados de Lisboa e os Emissores do Norte Reunidos. A rádio servia sobretudo para entreter e não tanto para informar.

Eram programas mais para distrair o público. Não tinham nada de cultural, eram aqueles programas recreativos. A única pessoa que tinha noticiários era a Emissora Nacional e depois o Rádio Clube Português, que teve noticiários muito curtos por causa da publicidade, porque, por exemplo, à uma da tarde entravam logo a seguir os parodianos de Lisboa e tinham, portanto, compromissos comerciais. O noticiário não tinha mais que três ou quatro minutos. Eles tentavam nesses três ou quatro minutos serem seletivos nas notícias que davam. As outras rádios, como os Emissores Associados de Lisboa, ou ligavam à Emissora Nacional, como era o nosso caso, ou criavam os seus próprios noticiários.

Não há espaço para improvisos. Todos os textos lidos no ar têm de ser enviados com uma antecedência de 48 horas para o Palácio Foz, a sede dos serviços de censura.

Emissora Nacional, Lisboa, Portugal.

A Emissora Nacional é a rádio do regime. É sóbria, fala às elites, propagandeia os ideais da ditadura salazarista e chega nestes anos a formar três orquestras próprias de música sinfônica, de música típica e de música ligeira. Apesar de ter sido fundado por Jorge Botelho Moniz, outro homem ligado ao Estado Novo, o Rádio Clube Português tem uma aura diferente. Também tem uma orquestra, mas chama-se Orquestra Aldrabófona. É dirigida pelo maestro Aldrabowsky e composta por músicos que tocam instrumentos como pífaros, berimbaus e gaitas de baixos. E ao contrário da Emissora Nacional, emite programas populares e modernos, como a rádio novela "A Força do Destino", a que Portugal inteiro prefere chamar "A Coxinha do Tide". Tudo porque a novela de 300 episódios, adaptada a partir de um original sul-americano, tem patrocínio do detergente.

Quero que o meu filho venha para junto de mim.

Nunca. Isso nunca!

Mas nunca, nunca por quê?

Olha, há perguntas que não se fazem e essa é uma delas. Conta a história de Margarida, uma rapariga coxa e pobrezinha, que se apaixona por Humberto, o médico que a opera e, por acaso do destino, é marido da prima Raquel. Claro que Raquel é má como as cobras e só está com ele pelo dinheiro. Mas não perde pela demora. Há de morrer e deixar o caminho livre para o amor da coxinha e do senhor doutor. Há um outro ponto onde as duas rádios se distinguem. Ambas têm noticiários, mas as notícias da Emissora Nacional são tão aborrecidas que hão de valer-lhe uma alcunha.

Sabe como é que se chamava a emissora por causa dos noticiários que duravam mais de meia hora? Era a Amassadora Nacional.

Já o Rádio Clube Português, em especial durante a década de 60, vai modernizar a informação em Portugal. A avaliar pelo tempo de emissão ocupada com publicidade, no final dos anos 50, não haverá no país estação com mais ouvintes do que o Rádio Clube Português. E claro que a escolha de Gave Roche para lançar ali a Operação Papagaio também se deve a isso. Desde o início que planeia uma coisa em grande. E se o objetivo é chegar ao maior número possível de pessoas, então vai interromper o programa com mais audiência da rádio com mais ouvintes do país. Luís Filipe Costa tem 23 anos e trabalha na APA, a Agência de Publicidade Artística, onde são gravados alguns dos mais populares programas de rádio em Portugal. Tem uma chave que dá acesso livre aos estúdios de gravação, a qualquer hora do dia ou da noite. É ele que em agosto de 1959, a pedido do primo Gave Roche, compra a bobine, onde vai ser gravada a mensagem da Operação Papagaio. Algumas noites depois, Gave Roche encontra-se com o pintor Benjamim Marques no Café Royal. Jantam e a seguir põem-se a caminho da APA, que fica na Rua Nova da Trindade, no Chiado. E há um pormenor que podia ter-se revelado fatal. A rua cola com a António Maria Cardoso, onde fica a sede da PIDE. Quando entram no estúdio para gravar a mensagem, já é madrugada e o silêncio é total. Gave Roche aproxima-se do microfone com o discurso escrito à mão numa folha de papel. Benjamim fica a assistir. É Luís Filipe Costa, que ganha o nome de código Luciano, quem se apercebe de que na rua se está a ouvir tudo. O estúdio não é insonorizado. Dá para distinguir até as palavras que Gave Roche diz ao microfone uma e outra vez, até finalmente estar satisfeito com a gravação. Bastaria que um PIDE passasse por ali a caminho da António Maria Cardoso ou de regresso a casa para pôr em causa toda a Operação Papagaio Mas a madrugada já vai avançada e a rua está deserta. Os três conspiradores terminam a gravação e voltam para casa tranquilamente, como se não tivessem acabado de começar o que acham que vai ser uma revolução. "Tenho um livro para si." Diz Maria Eduarda a Gavrote, uma manhã, quando viajam no mesmo comboio para Lisboa. Ele percebe logo que é o sinal para falarem num sítio mais recatado. Saem na estação do Cais do Sodré e seguem rumo ao Café Royal. Maria Eduarda diz-lhe que os militares do presídio da Trafaria têm noção das dificuldades em levar a operação secreta para frente. Por isso, para além das armas, comprometem-se a arranjar também dinheiro. Dias mais tarde, o dinheiro chega mesmo. Mil e quinhentos escudos entregues por Maria Eduarda durante a noite, no mesmo local insuspeito usado antes na parede. Mas há outro problema. Faltam munições para as duas pistolas que os militares já tinham enviado. E é assim que no outro dia, desta vez à mesa do Café Gelo, Maria Eduarda entrega um novo embrulho a Gavrote. Contém duas caixas e dentro delas estão cerca de trinta balas de dois calibres diferentes. Os meios necessários para o plano de tomar de assalto a rádio começam finalmente a compor-se. Gavrote não quer correr riscos. Quanto mais pessoas souberem do plano e quantas mais mensagens circularem entre os grupos de um lado para o outro, maior a probabilidade de Epíodo os poder apanhar. Um dia, num dos muitos encontros no comboio a caminho de Lisboa, passa uma folha de papel a Maria Eduarda. Nela estão as instruções para um sistema de código, que deveria começar a ser usado para encriptar todas as comunicações entre os grupos. Gavrote propõe o sistema Playfair. O mesmo foi utilizado pelos ingleses durante a Primeira Guerra Mundial. A cifra requer uma palavra-chave, que é fundamental para se conseguir desencriptar o código e tem que ter as letras todas diferentes. Vão usar a palavra "repúblicas". Dias depois, é informado por Maria Eduarda que os militares da Trafaria reconhecem que é preciso usar um código, mas têm uma contraproposta. O capitão Almeida Santos sugere o sistema conhecido como Júlio César, por ter sido usado pelo imperador romano para comunicar com os generais. Gavrote ri-se e recusa-se a usá-lo. Diz que é demasiado elementar e que enquanto o código que ele tinha proposto oferecia uma proteção de alguns dias ou horas, o sistema dos oficiais da Trafaria não resistiria mais do que alguns minutos. Aliás, oferece-se mesmo para o decifrar sem saber a chave. Os militares acabam por concordar com o sistema proposto por Gavrote, mas no final, os grupos nunca chegam a trocar qualquer mensagem codificada. Usam apenas um mensageiro, Maria Eduarda, e ela, sim, ganha o nome de código. Alice. Na noite da Operação Papagaio, Alice virá a ter também um papel fundamental. É ela que terá de esconder as armas. As armas foram um problema desde o início. Para que a Operação Papagaio possa avançar, não seriam necessárias quinhentas pistolas metralhadoras, como as que os militares da Trafaria chegaram a prometer. Mas os operacionais precisam de pelo menos algumas pistolas e revólveres para fazer a operação. Como vimos, através de Maria Eduarda, os oficiais da Trafaria enviaram duas pistolas e munições. O problema é que as balas não servem para uma das armas. E é assim que Gavrote passa uma noite inteira de lima na mão, a afiar os invólucros das munições até que finalmente caibam na câmara da semiautomática Mauser. Partílio consegue arranjar mais quatro pistolas, mas só duas parecem funcionar, e mal. Uma está em péssimo estado, a outra, um revólver antigo, tem a mola do gatilho partida. Depois, há ainda a pistola do jornalista António Barão, conhecido pelo nome de código Salgado, e a relíquia cedida pelo doutor Bandeira de Lima, que em tempos tinha pertencido ao pai do médico. Gavrote tem um contacto que através de um contrabandista lhe vende uma granada de mão por trinta escudos, o preço de meio bife no Café Gelo. Ao todo, o arsenal disponível para a operação é composto por oito pistolas velhas, de funcionamento duvidoso, e uma granada. Mas por muito problemáticas que fossem, as armas não seriam ainda assim a maior contrariedade do grande plano idealizado por Gavrote. Num sábado de setembro de 1959, Gavrote recebe um telefonema inesperado. Partílio Batista liga-lhe diretamente para o escritório do pai. É necessário marcar um encontro com urgência para essa mesma tarde. Assim que sai do trabalho, Gavrote não perde tempo. Dirige-se para o Cais das Colunas, junto ao Tejo. Quando chega, Partílio já está no local combinado. O serralheiro não traz boas notícias. Alguns dos homens do grupo dele voltaram atrás. Recusam-se agora a participar. A operação tem de ser adiada. Os homens dizem que têm responsabilidades políticas, que sem conhecerem o texto que vai ser proclamado na rádio, não vão alinhar Aliás, um deles fez mesmo o rascunho de um texto alternativo. Quer que seja essa a mensagem posta a rodar aos microfones do Rádio Clube Português. E há mais. Também acham que o nome da organização não deve ser mencionado, para deixar as autoridades confusas e sem saberem para que lado se hão de virar. Gavroche gela, mas sabe que não pode ceder. Já está tudo pronto para a operação avançar dentro de alguns dias. As armas foram reunidas e a planta dos estúdios do Rádio Clube na Parede já está pronta. Muito em breve, cada operacional irá receber uma cópia para saber exatamente que posição tem de ocupar durante o assalto e o que deverá fazer. Já foram mesmo retirados 600 escudos do dinheiro enviado pelos militares da Trafaria para alugar um carro. Foram entregues ao pifarista, o único do grupo com carta de condução. A outra viatura viria do grupo do Artílio, mas se os homens dele não querem participar, então Gavroche vai sozinho com o grupo dele fazer a Operação Papagaio. E claro que a organização tem que ser referida. Aliás, o objetivo sempre foi esse, dar a conhecer este movimento revolucionário. Furioso, Gavroche recita ali mesmo, em frente a Artílio Batista, o texto que escreveu e que já está gravado na bobine. Repetiu tantas vezes que o sabe de cor. Artílio é um homem de palavra. Ouve até o fim, aprova e garante que se mais ninguém quiser acompanhá-lo, então irá ele mesmo sozinho com o grupo de Gavroche tomar a rádio de assalto. Faltam poucos dias para a Operação Papagaio. No mesmo sábado em que Artílio comunica a desistência de vários operacionais, Gavroche reúne o núcleo duro na Parede. O poeta António José Forte e o pintor Benjamim Marques. A prioridade agora é aliciar novos elementos para a organização, custe o que custar. Forte começa a ficar farto de tantos avanços e recuos. Afirma que não conhece mais ninguém. Já Benjamim promete que vai tentar. Na segunda-feira seguinte, na viagem de comboio para Lisboa, Maria Eduarda também diz que tudo fará para arranjar mais elementos. Nesse dia, Gavroche leva para o armazém de perfumes do pai as pistolas e os revólveres que tinha escondido em casa. Três pistolas são entregues a Artílio, que ainda tem com ele dois homens que não o abandonaram. Outra vai para as mãos de um novo operacional, que passa a responder pelo nome de código Júnior. É um homem que Benjamim conseguiu arregimentar à última hora no Royal, o café para onde a certa altura o grupo do Gelo acaba por se mudar, conta o poeta Hélder Macedo.

Café Royal, que era um restaurante de uma família galega que estava radicada em Portugal. O Pepe terá tido algumas relações com pessoas do Gelo e a certa altura convidou muita gente do Gelo, eu já lá não estava, para irem para o Café Royal, onde deram cabo rapidamente da garrafeira excelente que este establishment tinha.

A missão que Júnior recebe à mesa do Café Royal é simples. Na noite da Operação Papagaio, tem de montar guarda no São Jorge, outro café histórico, mas em Carcavelos, e esperar pelo regresso dos operacionais. A vivenda onde está instalado o Rádio Clube Português fica a 1 km de distância, três minutos de carro, se tanto. Será do Café São Jorge que vai ser feito o último telefonema para os estúdios. Se Luiz Filipe Costa confirmar que o caminho está livre, os homens avançam. Mas essa chamada nunca será feita. E Gavroche, o líder do grupo, também não vai chegar a conhecer o nome verdadeiro de Júnior. O que vai perceber, e muito rapidamente, é que pô-lo a par do plano foi um erro tremendo. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. Sem trocar uma palavra, o trio de poetas entra no edifício de pistola em punho. Com gestos de mãos e de cabeça, e sob a ameaça de armas, dão-lhe a entender que o melhor é que também fique lá. Gavroche nunca chega a saber o nome verdadeiro, mas percebe rapidamente que o homem não é de confiança. Foi a noiva de Adriano, que contou tudo à noiva dele, que nem sequer sabia que ele estava metido numa operação antirregime. Tem a certeza que foi ela que espalhou a história. O que fazer? Aquilo não fora previsto. Aquilo assim podia dar para o torto. "Operação Papagaio" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, e tem banda sonora original de Rita Red Shoes. Neste episódio, ouvimos também sons retirados do YouTube. Usámos ainda excertos de "A Guerra dos Mundos", transmitida pela Rádio Renascença. O guião é de Tânia Pereirinha. As entrevistas são de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A sonoplastia é da Diogo Casinha. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis