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No início acreditou nos jornais. O cadáver encontrado meio enterrado na areia da Praia do Guincho, estava em estado tão avançado de decomposição que o caso ia ser muito difícil de deslindar. Mas afinal bastaram dois dias para a vítima ser identificada. E não demorou muito até se saber que a morte tinha acontecido a tiros de pistola na cara e no peito, acompanhados por violentos golpes com uma pá na cabeça. Em menos de um mês os assassinos e os respectivos cúmplices já estavam atrás das grades. Quando lê a notícia de que terão confessado tudo à Polícia Judiciária, sabe que não pode perder mais tempo. Em pânico, queima todos os papéis que o ligam àquelas pessoas e à organização secreta de que faziam parte. Depois pega fogo ao livro "Auxiliar do Graduado de Legião" e a outras obras sobre assuntos militares que comprou em segunda mão na livraria barateira. Só ficam a faltar as armas. Cinco pistolas e um revólver. Estão guardados num caixote na casa onde mora com a mulher e o filho ainda bebé. Na Parede, na linha de Cascais. É um domingo de manhã. Cátia saiu. O homem guarda o arsenal numa pequena mala que trouxe do armazém de perfumes do pai. Agarra nela, pega no filho João Francisco ao colo e sai. Horas mais tarde, já de madrugada, vai estar numa zona de rochas na praia da Parede, mesmo por baixo da esplanada do bar, o Saro. Lembra-se de ter visto no verão passado os nadadores salvadores a atirarem pedras à água, enquanto diziam que a corrente ali era mais forte do que em qualquer outro lugar. Arrastava tudo. Depois de se certificar que ninguém está por perto, atira as armas pro fundo do mar e fica a vê-las desaparecer. Passaram-se seis meses desde a Operação Papagaio e até agora a PIDE nunca apareceu. Não houve investigações, detenções, interrogatórios, nada. Mas Henrique Carvalho percebe que com um cadáver e uma confissão, é só uma questão de tempo até a polícia política de Salazar o descobrir. Quando tudo começou há pouco mais de um ano, eram só dois. Henrique Carvalho e o amigo António José Forte, poeta surrealista com uma passagem recente pela prisão política de Caxias. Dois experimentados militantes contra o regime. Estávamos em março de 1959. Foi à mesa do costume no Café Royal, no Cais do Sodré, que os dois amigos decidiram que iam pôr fim à ditadura. O objetivo era formar um movimento subversivo independente de partidos políticos. Mas não há revoluções de dois homens e foi preciso recrutar mais operacionais. Primeiro, António José Forte lembrou-se de chamar um homem que tinha conhecido durante os três meses de prisão em Caxias. Depois esse homem chamou outros, que por sua vez se lembraram de outros que poderiam querer participar. Mas Henrique Carvalho e António José Forte também precisavam de pessoas que conhecessem bem. O problema é que o circuito em que se moviam era o dos cafés de Lisboa, o Royal, mas sobretudo o Gelo, no Rossio. Viveiro de artistas surrealistas que desdenhavam de tudo e de todos, gostavam de andar à pancada e pior do que isso, eram péssimos a guardar segredos. Mesmo assim, foi com eles que nasceu aquilo a que chamaram a Organização. Um movimento clandestino com o objetivo de acabar com o Estado Novo. É um grupo improvável, que junta revolucionários profissionais e poetas surrealistas. Juntos, vão pôr em prática um plano louco para derrubar Salazar, a que dão o nome Operação Papagaio. Incrivelmente conseguem preparar tudo sem que os agentes da PIDE percebam. Mas em abril de 1960, com o aparecimento de um cadáver numa praia, tudo muda. A polícia política está agora atrás de Henrique Carvalho. Os PIDs sabem bem quem ele é. Até sabem que é mais conhecido por outro nome, Gavroche, alcunha importada do francês, para amiúdo esperto e atrevido, como a personagem d'Os Miseráveis. O executivo é o núcleo central da Organização e tem quatro membros. Um é o morto encontrado nas dunas da Praia do Guincho, o outro é o homem que está preso e acaba de confessar o homicídio. Restam dois líderes e Gavroche é um deles. Esta é a "Operação Papagaio", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, com banda sonora original de Rita Red Shoes. Episódio um: a organização secreta.

Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito pra contar, mas também tem muita vontade de ouvir.

Era um grupo de gente completamente à margem e todos cheios de raiva. E tratavam-se muito mal as pessoas. Inclusive eu fui maltratado quando, entre aspas, "ingressei no grupo".

O poeta António Barona da Fonseca chega ao Café Gelo em 1956. Tem, na altura, 17 anos e um romance em curso há dois com uma prostituta analfabeta 10 anos mais velha. Filho de uma família monárquica com origens na alta aristocracia portuguesa e espanhola, vive praticamente em casa da mulher, que antes de se mudar pra Lisboa, tinha sido guardadora de cabras. Para desgosto de sua mãe, quase não vai à escola, prefere ficar com a amante. Hoje, aos 85 anos, Barona é um dos poucos sobreviventes do grupo de artistas que nessa altura se começam a encontrar no Café Gelo. Justamente o grupo a que Gavroche e Forte recorrem na hora de atrair membros para o movimento oposicionista que estão a criar. Barona descobre o café quase por acaso. Tudo por causa do fascínio que tem pelo pintor e poeta Mário Cesariny, e à boleia de um jogo adolescente que envolve quantidades generosas de álcool e um sargento de nome surrealista.

Tínhamos uma brincadeira muito estúpida, que era irmos à boleia pra uma terra qualquer nas proximidades de Lisboa e íamos nos embebedar. E depois regressávamos todos com uma grande bebedeira. Coisa estúpida de adolescentes. Juntávamos os trocos que tínhamos, convertíamos aquilo em vinho e embebedávamos. E foi num desses episódios que eu conheci um sargento da Marinha americana, que também já estava bêbado, e que era amigo do Cesariny, e que se chamava Nicolau Cansado. Era um nome surrealista. E foi o Nicolau Cansado que me apresentou o Cesariny no Café Gelo.

O próprio Barona já escreve desde os 12 anos. Pouco depois da chegada ao grupo do Gelo, publica um livro de poemas.

E lembro-me muito bem que me disseram: "Tu conheceste as pessoas, viveste aqui e publicas essa merda." E era efetivamente uma merda. E eu fui muito maltratado por causa disso. A única pessoa que não me maltratou foi o Cesariny, que me disse: "Não se preocupe com isso. Aquilo é uma coisa de uma pessoa que não se sabe pra onde é que vai ainda." Eu fiz com que desaparecesse. Nem posso ouvir falar nisso. Era realmente muito mau.

Em 1959, nem António Barona, nem Mário Cesariny, nome maior do surrealismo português, são chamados a integrar a organização. Já o ilustrador Benjamim Marques e o poeta Manuel de Castro, poliglota e alcoólico com uma fuga do seminário no currículo, hão de alinhar na Operação Papagaio. É a primeira vez que se envolvem numa conspiração destas, mas a falta de experiência não é um problema. Gavroche sabe muito bem o que está a fazer. Há anos que anda a conspirar contra o regime. Dez anos antes de os planos para a Operação Papagaio começarem a ser feitos, Gavroche recebe uma visita inesperada em casa. O amigo Vergílio Martinho bate-lhe à porta nervoso. Os pais acabam de despedir uma das criadas. Têm a certeza que ela o viu no quarto a fazer cópias de material suspeito em papel. E mais do que uma vez. Será apenas uma questão de tempo até que a mulher, por vingança, o entregue à PIDE. A máquina não pode ficar ali nem mais um dia. O cicloestilo é uma espécie de fotocopiadora da altura. É com ela que Vergílio tem andado a imprimir grande parte do material de propaganda do MUD Juvenil a circular nas ruas de Lisboa. Apesar de ter sido consentido por Salazar, o movimento de unidade democrática foi rapidamente proibido pelo regime, explica Nunes Estevão Ferreira, professor da Universidade Católica.

No final da guerra é constituído o MUD entre vários oposicionistas. Mário Soares está no MUD Juvenil, toma a liderança, a estrutura central do MUD Juvenil, e visa preparar candidaturas em círculos eleitorais para as eleições. Mas as dificuldades burocráticas, nomes, listas, reconhecimentos, etc., são de tal ordem que o MUD desiste de apresentar uma única lista num único círculo eleitoral que fosse, e apela à abstenção. Pouco depois, o regime faz o resto. Começa a prender os dirigentes destacados que tinham assumido em reuniões e que tinham dado a cara pelo MUD, e o MUD termina de morte natural.

O ano é 1949. Vergílio Martinho tem 21 anos e ainda está longe de se afirmar como escritor, tradutor e dramaturgo. Gavroche, quatro anos mais novo, foi quem o recrutou pro MUD Juvenil e quem lhe pediu que guardasse o cicloestilo em casa. Assim que percebe que a máquina pode estar em risco, Gavroche concorda. É preciso tirá-la imediatamente do apartamento da Rua de Macau. Só há um problema, ou dois. O peso e o tamanho do aparelho. Sozinhos não vão conseguir movê-lo dali Já na companhia de um terceiro militante do MUD, transportam a máquina rua abaixo e entram no primeiro táxi que passa. "Para o Rossio", pede Virgílio. É lá que planeiam apanhar outro transporte, dessa vez para o destino final, onde nunca irão chegar. Junto à estação de comboios, durante a complicada operação de saída do carro, o trio chama a atenção de dois polícias à paisana. Quando veem a dimensão do volume que transportam, decidem imediatamente que só pode ser um roubo e convidam-nos a acompanhá-los à 8ª Esquadra. E é assim que Gavroche tem o seu primeiro embate com as autoridades. Filho único de um homem temente ao regime, que é dono de um olfato prodigioso e de uma perfumaria em pleno Rossio, é apanhado ali mesmo, numa manhã fria de novembro, praticamente com vista para a loja do pai.

Foi preso pela PIDE. A minha avó tentou ir lá falar com o responsável, dizer: "Mas é uma criança, tem 16 anos, vocês não o podem prender. É ilegal essa prisão de um menor." E eles disseram: "Senhora, eu entendo a sua preocupação, mas nós não o podemos soltar, porque ele é o cabeçilha do grupo." Portanto, ele era a pessoa máxima dentro daquele grupo, onde havia pessoas mais velhas do que ele.

Na verdade, Gavroche já tem 17 anos e não 16, mas isso pouco importa para a história. A partir daí, nunca mais há de parar, revela Bárbara Airola, a filha que mal o conheceu e que hoje prefere usar o apelido da mãe.

E desde aí foi sempre um entra e sai, de ir preso, de ser solto. E numa dessas prisões, por causa de violência, ele ficou surdo de um dos ouvidos.

A aventura do cicloestilo vale a Gavroche uma pena de oito meses na prisão do Aljube. Em julho de 1950, com 18 anos acabados de fazer, é absolvido. Tudo graças a uma anistia e à benevolência do juiz, que dá mais peso à confissão espontânea dos réus do que à filiação no MUD. Mas há uma nota no processo, escrita por um inspetor da PIDE, que anos depois se virá a confirmar certeira. "Revelou-se elemento de tal atividade política que, a não modificar-se, será indivíduo a contar no futuro." Na ressaca da prisão, Gavroche pode não mudar, mas pelo menos abranda. Meses depois de ser libertado, o filho do perfumista junta-se ao pai em Tânger. Fica em Marrocos durante três anos a trabalhar na destilaria de óleos essenciais da família. Quando regressa a Portugal, é só para fazer as malas. Próxima paragem: Paris. O objetivo era fazer o curso de Civilização Francesa da Sorbonne e aproveita para se inscrever também na Nouvelle Université, onde tem aulas com o famoso filósofo comunista Pierre Marie Hervé. Mas a experiência só serve para se desiludir com o marxismo. Nas noites nos cafés parisienses, Gavroche começa a interessar-se pelo anarquismo e conhece pessoas de todo o mundo. Ela é alta, loira, curvilínea e tem uns intensos olhos verdes. Chama-se Ania Karina, por causa de Anna Karenina, a personagem do romance de Tolstói, mas sempre preferiu que a tratassem por Katia. Vem sozinha e de mochila às costas. Saiu da Finlândia há alguns meses. Dava-se mal com o pai, com a madrasta e, sobretudo, com o frio. Ainda trabalhou durante alguns meses num hotel na Suécia. Depois, desceu rumo a França. O grande sonho de Katia era chegar a Angola e isso viria mesmo a acontecer, mas mais tarde na vida. Mas logo ali, na boêmia parisiense, apaixona-se por Gavroche.

Eu acredito que havia de várias nacionalidades e ela, como também gostava muito da boêmia, gostava muito da vida noturna, ia para os cafés, acho que acabaram se conhecendo numa circunstância dessa, não especificamente em algum encontro mais político, não. Era mesmo na noite. Conheceram-se assim.

Para sobreviverem, Gavroche e Katia fazem traduções, mas o dinheiro é escasso. Em 1956, quando decidem casar e começam a pensar em filhos, não têm outro remédio senão mudar-se para Portugal. Instalam-se na casa da mãe dele, entretanto separada do pai. As tertúlias parisienses dão lugar às noites no Gelo, o café meio decadente em plena Praça do Rossio, que por essa altura tinha sido ocupado pela chamada segunda geração de surrealistas portugueses. Justamente o café onde daí a três anos, Gavroche e Forte viriam a recrutar elementos para pôr a Operação Papagaio em marcha. Se aquele conjunto de jovens pintores tivesse arrendado um ateliê noutra rua, o grupo do Gelo nunca teria existido. Seria o grupo de outro café qualquer. É por puro acidente que aqueles artistas se começam a encontrar ali.

Na esquina do Rossio, alugaram um ateliê no sótão. Enfim, era um pequeno ateliê, não cabia lá toda a gente ao mesmo tempo, e aí de vez em quando desciam para um café Praticamente deserto de intelectuais nessa altura, que era o café Gelo, querendo ativamente evitar os cafés frequentados por intelectuais.

O poeta e romancista Hélder Macedo, hoje com 88 anos, vive em Londres desde o final da década de 50. Algures em 55 ou 56, no primeiro ano da faculdade de Direito, cruza-se com um antigo colega de liceu que anda em Belas-Artes. É ele que o convida a ir ao Gelo pela primeira vez.

"Eh pá, anda cá estar conosco, há aquilo dos pintores". Eu fui. E depois uma pessoa levou outra, criou-se assim, quase por acidente, um sítio onde se podia conversar, onde não estávamos necessariamente na presença de pessoas importantes, intelectuais estabelecidos, essa coisa.

O Gelo já era um café com história. No dia 1 de fevereiro de 1908, foi dali que saíram Alfredo Costa e Manuel Buiça pra assassinar o Rei Dom Carlos e o Príncipe Luís Filipe. Ainda antes disso, o café já tinha sido o primeiro em toda a Lisboa hidrocentrista a vender bebidas frescas, à conta do gelo trazido em carroças desde a Serra da Estrela. Daí o nome com que acabou por ficar conhecido. Mas na altura em que Hélder Macedo ali chega, quase meio século depois, a aura revolucionária do espaço já desapareceu por completo. É um café cinzento, frequentado pela pequena burguesia moderada, pacata e assustada. Um café que nunca mais será o mesmo, depois desta multidão de artistas e poetas se instalar lá.

Criamos esse espaço de rebeldia, com muito alcoolismo misturado, uma considerável liberdade sexual. Tínhamos em comum uma atitude de recusa. Éramos contra aquela situação que se vivia em Portugal, aquela espécie de rondona fechada, e todos nós, por razões diferentes, queríamos romper com essa prisão.

Apesar de muitos terem empregos mais ou menos convencionais, como tradutores, editores ou até funcionários públicos, nestes tempos, o grupo do Gelo dedica-se, sobretudo, à noite.

Éramos frequentadores dos bares que havia no Cais do Sodré, muito especificamente o Tex Bar, que era uma coisa um bocado bolida, tinha uma espécie de barco pendurado onde estava a orquestra. E criamos uma relação muito curiosa, muito solidária, inclusivamente com prostitutas, que nos adotaram de certa maneira, não como clientes, mas como amigos, como cúmplices, com regras de comportamento perfeitamente notáveis. O luero ali no intendente era bastante sórdido e tinha uma peculiaridade curiosa: a orquestra era composta por cegos.

Os dias começam invariavelmente de ressaca e ao meio da tarde, e só terminam na madrugada seguinte, depois de um roteiro que sai do Gelo para o Cais do Sodré, passando pelo Parque Mayer e termina novamente no Rossio. Quando o Beira Gar abre às 6:00 da manhã, os artistas já lá estão, prontos para beber os últimos bagaços. E só depois é que seguem pra casa.

Eu me lembro de um dos sloganismo que teve a dizer-me: "Irmãos vampiros, vem aí o sol, vamos nos esconder nas nossas grutas".

Nunca jantam no Gelo, até porque o dinheiro também não é muito. Meio bife da casa carregado de alho custa 30 escudos, uma exorbitância. Mas há uma noite em que as mesas de mármore do café se enchem à hora de jantar. Tal como Gavroche, também estes surrealistas se vão aventurar na contestação ao Estado Novo, mas com métodos e motivações bem diferentes. Não vão transportar de um lado para o outro máquinas para copiar folhetos subversivos. Vão pagar os 30 escudos do meio bife e protestar contra o regime à sobremesa. E não vão empenhar-se em defender o mundo juvenil, mas em defender a liberdade sexual.

Um dia, nas cercanias do Cemitério de Benfica, o Raul Leal, já muito velho, que é amigo do Fernando Pessoa e poeta do Orfeu. Era homossexual e foi apanhado pela polícia numa escada a ter relações homossexuais. O senhor foi preso, mas o senhor já tinha 80 e muitos anos, era muito frágil, muito diminuído.

António Barahona recorda que o grupo apareceu em peso num jantar de protesto no Gelo.

Éramos mais, cerca de umas 30 pessoas, talvez, ou talvez mais. Cada um se foi levantando e foi fazendo um discurso a favor da homossexualidade. E a fazer uma apologia da homossexualidade. Entretanto, aquilo começou a constar, porque a PIDE deve ter mandado qualquer informação. Quando nós suspeitamos que ia haver confusão ou prisão ou qualquer coisa assim, pior, resolvemos sair em grupo com ele no meio. Fomos levá-lo a casa. Ele vivia num quarto com um bugiglista na Praça da Figueira.

Os relatos que chegaram até hoje dizem que a Operação Papagaio foi pensada, organizada e executada apenas por estes artistas surrealistas. Seria um plano absurdo, feito por um grupo de amadores, sem ligações aos movimentos de oposição que combatiam o regime. Até se diz que a PIDE não levou nada daquilo a sério e que durante os interrogatórios que foram feitos na sede da Polícia Política, os agentes tinham de sair da sala para se rirem às gargalhadas com as declarações destes conspiradores de pacotilha. As poucas descrições que existem vêm apenas dos surrealistas. São escassas, pouco pormenorizadas e mais do que isso, contraditórias. Foram rapidamente esquecidas. Mas a Operação Papagaio foi muito mais do que isso. Nos últimos 65 anos, centenas de páginas de relatórios da PIDE ficaram perdidas nos arquivos da Polícia Política, mas nunca ninguém os leu. Até agora. A história, afinal, é muito diferente e nunca foi contada. O autor do plano inicial da operação até frequentava o Café Gelo com a mulher finlandesa. Mas tanto quanto consta, Gavroche nunca terá produzido qualquer tipo de arte, surrealista ou não. E com ele não estavam apenas amadores. Estavam também dois revolucionários profissionais, que tinham acabado de participar num golpe famoso que abalou Salazar. Para eles, a Operação Papagaio não era um desvario de artistas. Era para levar bem a sério. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio: há um golpe em curso e os últimos preparativos foram feitos ali mesmo, na sala de estar. A dada altura, pensa que está a ser seguido pela polícia. Acelera para tentar escapar e o carro sai da estrada. O acidente é aparatoso. Aljube, check. Caxias, check. Fenice, não só foi mandado para lá, como conseguiu fugir, apenas para ser capturado no mesmo dia. Passa-lhe 500 escudos para as mãos e compromete-se a arranjar, todo o dinheiro que for preciso. Têm de suspender tudo imediatamente. Há uma novidade que pode mudar por completo o rumo da operação. "Operação Papagaio" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, e tem banda sonora original de Rita Red Shoes. O guião é de Tânia Pereirinha. As entrevistas são de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A sonoplastia é de Diogo Casinha. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

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