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“Os portugueses são um povo completamente mal-educado”

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O que é que os portugueses têm na cabeça? Quem faz a pergunta é a jornalista e escritora Marisa Moura. As respostas são, no mínimo, intrigantes e vão desde "inveja" e "fatalidade" a chico-espertismo".

Marisa Moura publicou o seu primeiro livro em 2007 e foi editora na revista Exame

Carla Rosado

Inveja. Brandura. Chico-espertismo. País de doutores e engenheiros e de pessoas mal-educadas. O retrato do povo português é feito pela jornalista e escritora Marisa Moura na sua obra mais recente, “O que é que os portugueses têm na cabeça” (Esfera dos Livros). Ao longo de quase 400 páginas, a autora analisa estatísticas, comportamentos, textos de pensadores e fala com especialistas para perceber como se vive em Portugal. O prognóstico não é o mais otimista, mas a intenção é boa. “Escrevi isto com espírito de missão. Fi-lo para servir as pessoas”, conta ao Observador.

Marisa Moura, que acumulou experiência profissional em publicações como Diário de Notícias, The New York Times, Meios & Publicidade e Exame, levou três anos num projeto que ambiciona perceber por que razão somos “mal-educados em todos os sentidos do que é a educação”, tanto académica como moral, porque parecemos “doidinhos”, não sabemos reclamar, e — tendencialmente falando — somos brandos.

“Procurei respostas para perceber o que realmente temos nestas nossas cabeças. Por que entrou em decadência o grandioso Portugal das Descobertas? Por que somos hoje dos povos mais infelizes e pobres da Europa? “. A culpa, diz em entrevista, é dos romanos e da Igreja Católica, que tanto nos infantiliza como nos desresponsabiliza. “O simples facto de os crentes acharem que há um “pai” que cria tudo e que já está tudo decidido… Se há alguém que decida por nós, por que é que havemos de fazer seja o que for?”.

Capa - O Que é que os Portugueses têm na Cabeça (1)

D.R.

O que é que tinha na cabeça para escrever este livro?
Um sentido de urgência enorme. Desde que me lembro de existir que acho inacreditável as coisas que vejo no dia a dia, os narcisismos. Antes de saber que a palavra “narcisista” existia já a sentia na pele. Exemplos flagrantes são os atendimentos nos serviços públicos. As pessoas têm mesmo de pensar no que andam cá a fazer — esse é o grande objetivo do livro, que as pessoas percebam que são uma pequena gota no oceano.

Considero a expressão “o exemplo tem de vir de cima” uma expressão assassina. Se és um ser humano, o que está acima? Porque é que nos havemos colocar automaticamente abaixo dos outros? Há uma cultura de desigualdade social tão enraizada que não nos apercebemos o quanto somos influenciados por ela no nosso dia a dia. A cultura do “sr. engenheiro” é, também, uma expressão dessa desigualdade e o que a perpetua é, sobretudo, o conforto que lhe está inerente: se tu não és superior, então não tens responsabilidades.

O livro tanto corre o risco de ser ofensivo como de despertar as pessoas para algumas ideias. Qual o feedback que está à espera de receber?
Eu não tenho grandes expetativas. O que estou a fazer neste livro faço-o no dia a dia, há 38 anos. Quem sabe mais ou menos o que anda cá a fazer pode não encontrar no livro grandes insights; quem realmente deveria retirar alguma coisa daqui são, por norma, pessoas que não são muito recetivas a olharem-se ao espelho e que até respondem com alguma agressividade, em vez de pensarem “se calhar também sou assim”. Eu falo de nós, também sou portuguesa.

Como é que descreve o povo português?
O povo português tem tantas características díspares que não podem ser descritas numa frase. A única coisa que posso dizer e que vejo — é um facto — é que é um povo completamente mal-educado em todos os sentidos do que é a educação, tanto académica como moral. Nem todos os países foram resgatados três vezes em quarenta anitos. Na geração dos meus pais (pessoas com 65 anos) éramos os últimos — atrás da Turquia e do México — na lista dos países desenvolvidos da OCDE, em termos de pessoas com o ensino secundário completo. Não é normal. Não o podemos aceitar. Devíamos estar completamente em pânico, chocados.

É verdade que Salazar pôs em prática uma série de técnicas para nos amansar, mas essas técnicas têm sementes seculares, já dos tempos dos romanos, antes de Cristo. Foram séculos e séculos de operações em várias frentes, todas a culminar na matança do espírito crítico. (…) Consta que, do cruzamento dos celtas com os nativos, nasceram os nobres e fortes lusitanos. Entretanto chegam os romanos (…) com estradas, técnicas agrícolas, língua e numeração próprias, leis e uma amoralidade revelada logo à chegada.”

Excerto do livro “O que é que os portugueses têm na cabeça”

Qual a raiz do problema? De quem é a culpa?
É dos romanos. Nunca há certezas de nada, mas eu acho que foi na altura dos romanos que nos começámos a estragar. A maior parte das nossas palavras são romanas, a nossa numeração é romana. Ainda usamos expressões como “agradar a gregos e a troianos”, que vêm desses tempos. As leis foram os romanos que as trouxeram, bem como a [mania] das grandezas. O que fizemos nas descobertas? Uma versão upgrade dos romanos quando colonizaram isto tudo. Foi a mesma atitude.

A igreja Católica [também] deu cabo de nós — não estou a dizer nada que já não se diga há 200 anos. A igreja infantiliza-nos, desresponsabiliza-nos. Só a questão da confissão… há ali um interlocutor com Deus, que está acima de ti. Porque não meditar diretamente com Deus se acredito nele? O simples facto de os crentes acharem que há um “pai” que cria tudo e que já está tudo decidido… Se há alguém que decida por nós, porque é que havemos de fazer seja o que for? Aliás, a Igreja penaliza esse sentimento da ação; tu não és ninguém para desdizer Deus. E nós não tememos Deus, nós tememos perder [o amor de] Deus.

Abre o livro a dizer que parecemos uns “doidinhos”. Porquê?
Quando pedes um café cheio e trazem-te um curto ou quando pedes um prego bem passado e trazem-no em sangue… só nesse tipo de coisas já parecemos “doidinhos”. Falemos do caso dos PEC (Programa de Estabilidade e Crescimento). O então ministro das Finanças apresentou o PEC I, depois o II. Mas quando o Teixeira dos Santos apresentou o III [o IV caiu], fiquei perplexa com a reação dos jornalistas… as palavras que se usaram, é como se [o Governo] não tivesse feito o primeiro. Parecemos uns peixinhos de aquário. Lê-se notícias nos jornais sem contextualização. Vivemos de insights avulsos sem qualquer ligação. A sério, parecemos “doidinhos”. Um bom espelho dessa expressão é a imprensa portuguesa. Como agora está na moda sermos curiosos, agora a manada explica.

Isto também está relacionado com o sono, algo que em 2004 foi declarado um problema de saúde pública pela Deco. Deitamo-nos tarde e maltratamos o sono. Está comprovadíssimo que dormir mal diminui a noção do bem e do mal, isto é, a ética. Uma pessoa mal dormida é uma pessoa com menos ética. Ficamos mais intolerantes. Mas quando eu falo disso, as pessoas acham mais ou menos normal.

‘Ó cão! O que é que estás a ladrar, meu ‘ganda’ cão? Enfio-te dois borrachos nesse focinho…’ (…) Explosões como estas acontecem todos os dias por estas estradas fora, mas são das poucas situações em que um tuga ousa afirmar-se. No refúgio do popó sabe bem praguejar e fugir. Não somos pessoas de preparar grandes cocktails molotov como os gregos, mas ao volante gostamos de misturar uma certa dose de testosterona e intolerância e atropelar o mais elementar bom senso cívico”.

Excerto do livro “O que é que os portugueses têm na cabeça”

“Reclamar não é connosco”, lê-se. Porquê?
Não sabemos reclamar como deve de ser, não temos método para tal. Não nos preocupamos em ser eficientes no geral, tanto que há aquela coisa “para inglês ver”. Isso aplica-se a tudo, inclusivamente na reclamação. Uma pessoa para reclamar tem de mostrar factos, o que está mal e qual a solução possível. Não é começar a dizer mal nas costas.

É uma questão de confronto? Isto é, não gostamos de confrontar as pessoas?
Exatamente. A pescadinha de rabo na boca é tal que obviamente está tudo ligado. Lá vem a Igreja Católica outra vez. Vais afrontar Deus? Vais afrontar o “dono disto tudo”, o DDT? O José Gomes Ferreira, jornalista da SIC, escreveu agora um livro fantástico — Carta a Um Bom Português — que é um manual de como reclamar. Nós temos de reclamar, não é isto de ir para a rua dizer que está tudo mal. Isso não é reclamar coisíssima nenhuma, temos de reclamar coisas concretas. Nós fomos todos para a rua no 15 de setembro e a TSU caiu porque era uma coisa concreta [grande manifestação de setembro de 2012, que acabou por fazer cair o anunciado aumento da taxa social única (TSU)]. As pessoas percebiam que havia uma lei em especial que as estava a indignar e queriam que aquilo não acontecesse. E não aconteceu. Raramente se percebe a real causa das greves.

Se não reclamamos, também não opinamos?
Lá vamos nós à Igreja Católica… Temos medo do que as pessoas pensam de nós. Para o que nos dá jeito somos inferiores, para o contrário é um ‘quem és tu para me dizer alguma coisa?’. Ilustra muito bem os portugueses. Desde que não nos obriguem a olhar muito para nós próprios…

Em Portugal, os trabalhadores são brandos, os consumidores são brandos, a esquerda radical é branda, os jornalistas são brandos. É tudo brando. O país das branduras.”

Excerto do livro “O que é que os portugueses têm na cabeça”

Somos brandos?
Não sei.

Citando-a, este “é o país das branduras”.
É assim que é conhecido. Tão depressa somos catalogados como os mais “resignados” do momento [reportagem do The New York Times, a propósito da crise financeira nos países afetados pela austeridade — Irlanda, Grécia, Espanha e Portugal –, na qual lê-se “Talvez em mais lugar nenhum, as pessoas estejam tão resignadas como em Portugal”], como os espanhóis Los Indignados afirmam ter nascido do protesto realizado a 12 de março pela [portuguesa] Geração à Rasca. A própria pessoa que funda o movimento deu uma entrevista a dizer que olharam para Portugal e que ficaram com vergonha por não estarem a fazer a mesma coisa. É por isso que não consigo dizer se sim ou se não. Tendencialmente somos vistos (e vemo-nos) como sendo pacíficos e brandos. Mas o conceito de brando é muita coisa — estamos a falar das reclamações em entidades públicas, da intolerância face aos imigrantes… É difícil de dar uma resposta. A brandura é, pelo menos neste livro, um chapéu para várias coisas. Eu tento ver se somos brandos no sentido de “pacíficos” e “acolhedores” ou se somos brandos por aquilo a que se chama de “banana”.

Escreve também que tendemos a negar a realidade…
Ninguém gosta de não gostar de si próprio. Segundo psicólogos, o que nós fazemos na vida é construir uma história que nos agrada. Como os portugueses são seres humanos, passamos a vida a criar histórias que nos agradam. E como a realidade não tem grandes razões para nos agradar — as bancarrotas, as desigualdades… — dá-nos jeito negar que tenhamos, cada um de nós, responsabilidades sobre o estado do país. Dá-nos jeito negar as nossas responsabilidades.

Parece que o português quer muito ser aceite socialmente. Porquê?
Porque somos muito mal-educados, nos dois sentidos. A inveja resulta disto também. Preferimos não arriscar quando estamos com medo, então nunca chegamos a testar-nos muito bem, a conhecer aquilo que somos capazes de fazer. Se tu tiveres uma autoestima muito baixa — e a esmagadora maioria tem –, qualquer grão de areia nessa tua insegurança derruba-te e tu tentas sobreviver.

Acha que o livro espelha o que é ser-se português?
Sim, acho.

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