Crianças

Devemos censurar as canções infantis politicamente incorretas?

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Algumas canções infantis tradicionais têm sido adaptadas para eliminar referências violentas ou discriminatórias. Fará sentido adaptar essas letras, ou será um exagero do politicamente correto?

Será que canções como o "Atirei o Pau ao Gato" podem influenciar o comportamento da criança?

Getty Images

Não há muitos anos, cantar a uma criança o “Atirei o pau ao gato” não levantava grandes questões de consciência. As sensibilidades mudaram e a preocupação com a violência expressa na canção fez com que a sua letra sofresse alterações. Hoje há quem cante, por exemplo: “Atirei o peixe ao gato, mas o gato não comeu”. No Brasil, circula outra versão ainda mais distante da original:

Outro caso de adaptação é a canção infantil “Sebastião Come Tudo”. Na versão original, escrita na primeira metade do século passado, o protagonista, além de glutão sem modos, é um marido agressor:

Sebastião come tudo, tudo, tudo
Sebastião come tudo sem colher
Sebastião fica todo barrigudo
e depois dá pancada na mulher.

A partitura da música original de 1943

A partitura da música original de 1943

Na versão que é hoje mais usada nos infantários, e que foi gravada pelos Cool Hipnoise num CD promovido por um hipermercado, o final do refrão transforma-se em “e por fim dá beijinhos à mulher”. A letra já tinha tido uma versão pedagógica, escrita por José Jorge Letria para o genérico de um programa infantil de culinária na RTP, apresentado por Manuel Luís Goucha em 1986: “Sebastião come tudo, tudo, tudo / Sebastião come e sabe o que quer / Sebastião não quer ser um barrigudo / lava as mãos e come sempre com talher”.

Ainda no tema da violência doméstica, temos o caso da canção popular “O Mar Enrola na Areia”. Originalmente, uma das estrofes rezava:

Também o mar é casado
Também o mar tem mulher
É casado com a areia
Bate nela quando quer.

No século XXI, este último verso passou a “Pode vê-la quando quer” (na versão gravada por Jorge Palma) ou “Dá-lhe beijos quando quer” (nesta versão).

Nos tempos em que o racismo era mais visível, usavam-se lengalengas como esta, entretanto caída em desuso:

Truz truz.
Quem é?
É o preto da Guiné.
O que traz?
Café.
Quanto custa?
Um pataco.
Vá-se embora, seu macaco.

Ou, num registo mais soft, a canção do “pretinho Barbabé”, que partiu um pé.

Será que as crianças eram levadas por estas formas de cultura popular a banalizar a violência ou o racismo? Fará sentido adaptarmos hoje estas canções para versões mais positivas, ou é um exagero do “politicamente correcto”? O debate está lançado nas escolas de educação, nos blogues e nos fóruns de mães na internet.

Troca de opiniões no site De Mãe Para Mãe sobre o “Atirei o Pau ao Gato”:

– As crianças não irão ficar violentas por causa dessa música… muitas ficam por causa do wrestling que veem na televisão e de filmes e jogos que não são para a idade deles.

– Claro que não. Mas mesmo assim penso que não faz sentido ensinar uma música que só fala de violência.

– Que exagero! Eu sempre cantei o “pau ao gato”, desde bebé, a minha mãe conta que era das minhas músicas preferidas, e nunca andei a espancar gatos com paus! Alguém pensa que uma criança vai realmente filosofar sobre a letra da música?

– Será preciosismo? Provavelmente porque, tal como eu, conheces a música desde a tua infância, não ligas nenhuma à letra, mas se ouvisses pela primeira vez uma música que apelasse à violência talvez já não gostasses. Talvez por ter lutado contra este tipo de maus tratos a animais, não vejo grande piada em cantar esta música ao meu filho. E depois a seguir vou dizer-lhe para não bater aos animais?

– Não é por cantarmos um cantiga que vamos incentivar a violência, porque afinal as crianças aprendem é por imitação. Se virem os pais (ou cuidadores) a cantar “atirei o pau ao gato”, mas a respeitar os animais, irão aprender a respeitar os animais. Por sua vez, é bem provável que uma criança dê um pontapé num gato se vir os pais a fazê-lo, mesmo que nunca tenha ouvido a canção.

O Observador pediu a opinião de um escritor, uma especialista em literatura infantil e uma psicóloga sobre estas questões.

O mundo é violento

José Fanha é autor de histórias e poesia para crianças, e acompanha há várias décadas a produção de conteúdos para os mais pequenos. Esteve, por exemplo, na equipa de guionistas da Rua Sésamo e do concurso A Arca de Noé. O escritor adverte que “é preciso ter muito cuidado com o politicamente correto, porque tem tendência a liofilizar as coisas, a tirar-lhes a sua alma e as suas contradições, a apagar a história com tudo o que ela comporta.” Tem assistido a atitudes destas, sobretudo em países de raiz protestante, “em que se criam formas policiais de interferir em zonas que se devem autorregular naturalmente”.

José Fanha é autor de dezenas de livros infantis

José Fanha é autor de dezenas de livros infantis

É perentório a rejeitar que as crianças das gerações anteriores tenham sido influenciadas negativamente pelas letras das canções dos exemplos acima. Na sua perspetiva, adaptar essas letras para se tornarem mais positivas “conduziria a objetos kitsch, pirosos, completamente idiotas”, quase material para séries de humor.

Recomendando a leitura do livro Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelheim, o escritor traça o paralelo com os contos infantis tradicionais, que estão repletos de violência física ou psicológica, para preparar as crianças para a “vida real”. Ao neutralizar histórias e canções, há o risco de deixarmos as crianças num irreal mundo cor de rosa. “O mundo é violento”, afirma, e “a violência das histórias tradicionais é simbólica e altamente educativa, no sentido mais profundo do termo”.

Espaços de transgressão

Dora Batalim também é contra o “branqueamento contemporâneo das histórias”, sublinhando a importância do respeito pela tradição oral: “o agora tem de comportar um conjunto de informação que vem do sempre”, bem como a lógica das funções e o significado afetivo acumulado nos seus textos. Entre várias ocupações, Dora Batalim é coordenadora pedagógica da Pós-Graduação em Livro Infantil da Universidade Católica de Lisboa, ao mesmo tempo que termina o doutoramento sobre livros e literatura para crianças e jovens, em Barcelona.

Sobre as canções, afirma que “a sociedade atual procura muito a semântica e a compreensão”, e essa “preocupação excessiva com o sentido é um perfeito disparate”. Até porque, num mundo de crianças fechadas em casa, elas “passam o tempo a ver imagens que são muito agressivas”. Defende que nunca se provou que haja uma equação direta entre as letras mais explícitas de algumas canções ou histórias e o comportamento violento das crianças.

Dora Batalim é investigadora de literatura infantil

Dora Batalim é investigadora de literatura infantil

A investigadora estabelece também um paralelo com os contos infantis, em que as figuras dos lobos e das bruxas são importantes para “arrumar sensações reais”, como o medo. Defende que não se devem suavizar as histórias (sem esmiuçar os pormenores mais sórdidos, claro está) e, em coerência com isso, não esconde da filha a versão original dos Irmãos Grimm, em que a madrasta da Cinderela manda uma das filhas cortar o dedo do pé para caber no sapatinho.

Dora Batalim sublinha que “é importante haver lugares de transgressão” nos momentos lúdicos das crianças, onde elas se possam rir do ridículo e verbalizar situações que não vão replicar na vida real. Mas faz a ressalva: “se há pais angustiados com a letra de uma canção, mais vale não a cantarem, têm muitas por onde escolher”.

Um exagero politicamente desnecessário

Margarida Cordo, psicóloga e terapeuta familiar, não acredita que “as crianças das gerações destas cantigas não amaciadas fossem mais violentas, mais racistas ou mais tristes”.  Na sua opinião, “esta é daquelas coisas com as quais não vale a pena perder tempo”. As crianças, naturalmente, “entram nas brincadeiras como um todo e não dão uma relevância especial ao teor detalhado das letras das cantigas”. Se acharem algo estranho ou que meta medo, devem “ter a oportunidade de perguntar sobre o que as incomoda e isso dará mote a conversas que serão uteis e pedagógicas”. No entanto, a psicoterapeuta preocupa-se com as crianças que não tenham um “mundo dentro da família” no qual possam partilhar esses medos, chorar e rir, e também com o fácil acesso de algumas crianças a imagens, não de cantigas e brincadeiras, mas “das vidas reais dos jovens que podem estar já ali ao lado”, e que às vezes são de meter medo.

A psicóloga, que participa na rubrica Pensamento Cruzado na TSF, considera que o que faz falta às crianças “é dar-lhes estrutura para que possam lidar com o mundo de todas as cores”. As crianças “só aprendem o bem se perceberem que existe o mal”, por isso é que as histórias infantis “tinham estes conteúdos mais duros”. As crianças pequenas precisam do “muito que é muito pouco — comer, dormir, ser fisicamente bem cuidadas, ser amadas e brincar”.

Margarida Cordo é psicóloga e terapeuta familiar

Margarida Cordo é psicóloga e terapeuta familiar

Margarida Cordo cita Denis Waitley para explicar o seu ponto de vista: “A vida é o filme que cada um vê através dos seus próprios olhos. Faz pouca diferença o que está a acontecer. O que conta é o modo como cada um percebe isso.” Portanto, não é preciso mudar a tradição, mas sim “saber explicá-la, com tempo, dedicação e entrega”, para que “o que é bom se amplie e o que é mau vá sendo reduzido”. Se queremos construir um lugar melhor para as nossas crianças, não devemos perder tempo “a disfarçar o mundo”.

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