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Cinema

Quando a Portugália servia bifes e passava filmes

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Eurico de Barros recorda o tempo em que a cervejaria lisboeta inaugurou uma esplanada ao ar livre, onde havia sessões de cinema durante o Verão. Duraram dos anos 50 até pouco depois do 25 de Abril.

Autor
  • Eurico de Barros

Já houve em Lisboa cinemas onde se podiam ver filmes ao ar livre no Verão. Foi o caso do Jardim Cinema, o popular “palhinhas”, no tempo da sua primeira incarnação de Esplanada Monumental, onde até existia uma “fonte luminosa monumental”. Ou do Cine-Teatro Capitólio, no Parque Mayer, projectado por Cristino da Silva, em cuja esplanada do terraço, a partir de 1933, além de cinema, nos meses amenos, havia também teatro e espectáculos de variedades e musicais. Mais tarde, foi acrescentado um tecto e funcionava o ano inteiro. Hoje, as sessões estivais ao ar livre sobrevivem na esplanada da Cinemateca. Mas houve pelo menos um estabelecimento na capital que, embora não originalmente vocacionado para o cinema, exibiu filmes ao ar livre, no Verão, durante bastantes anos: a Cervejaria Portugália.

Entre 4 de Junho de 1956 e 24 de Setembro de 1966, a Portugália teve um cinema ao ar livre instalado no seu terraço, baptizado Cine Esplanada Portugália, com sessões regulares nas noites de Verão. (Após uma interrupção de alguns anos, voltaria a haver projecções até pouco depois do 25 de Abril). A iniciativa surgiu integrada nas grandes obras feitas no edifício da cervejaria em 1956, quando esta e a fábrica de cerveja adstrita foram profundamente restruturadas. Entre as novidades da cervejaria propriamente dita estavam uma segunda sala de refeições, bilhares e o cinema no terraço. Este era da responsabilidade das Produções Aníbal Contreiras, do produtor, realizador, argumentista, actor, fotógrafo, crítico, distribuído e exibidor com o mesmo nome, e um dos homens ligados aos primeiros tempos do cinema em Portugal.

[Filme promocional da cervejaria em que se menciona o cinema]

No anúncio de apresentação ao público, o Cine Esplanada Portugália anunciava: “Cinema ao ar livre. Todas as noites às 21.30 horas. Temporada de Verão. 4 meses. 120 filmes.” E mais informava: “Selecção excepcional e única de filmes nacionais e estrangeiros de maior sucesso. Todos os filmes são projectados em TELA PANORÂMICA.” Havia um elevador para levar os espectadores para o terraço das projecções, e os bilhetes tinham preço único: cinco escudos (o que não era barato para a época). Eram também editados programas onde se detalhavam as fitas a ser exibidas diariamente nos meses de funcionamento do cinema ao ar livre, com a respectiva classificação etária.

[“Luzes da Ribalta” foi um dos muitos filmes exibidos no Cine-Esplanada Portugália]

A selecção de filmes, sempre em reposição (ou “reprise”, como então se dizia), era bastante variada, e com considerável qualidade. No mês inaugural do cinema, em Junho de 1956, foram mostrados, por exemplo, títulos como “Luzes da Ribalta”, de e com Charlie Chaplin, “A Dama e o Vagabundo”, de Walt Disney, “Duas Causas”, de Henrique Campos, “As Três Noites de Susana”, de Frank Tashlin, “Violetas Imperiais”, com Carmen Sevilla, “Pão, Amor e Fantasia”, de Luigi Comencini, “Sonhar é Fácil”, de Perdigão Queiroga, “Madalena”, de Augusto Genina, “Mademoiselle Nitouche”, de Yves Allégret, “Cantinflas em Calças Pardas”, com Mario Moreno, “O Tesouro Submarino”, de John Sturges, “Teodora, Imperatriz de Bizâncio”, de Riccardo Freda, “Napoleão”, de Sacha Guitry, e até o politicamente mais ousado “Morte de um Ciclista”, de Juan Antonio Bardem.

Ainda hoje há moradores, e antigos moradores, das artérias circundantes do edifício da fábrica e da cervejaria, que se lembram de assistir de graça, das janelas e varandas de suas casas, nas noites quentes de Verão, às sessões ao fresco do Cine Esplanada Portugália. Era o tempo de uma Lisboa mais cinéfila do que hoje, há mais de meio século, em que na Cervejaria Portugália, além de se servirem bifes e tirarem “imperiais”, também se passavam filmes.

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