Música

E se os Shabazz Palaces mudassem o mundo?

Vão estar ao vivo no Lux, em Lisboa, esta terça, no aniversário da ZDB. Na quinta tocam em Braga, no GNRation. Mas a farra pode ser o ponto de partida para uma revolução. Falámos com Ishmael Butler.

Victoria Kovios

Autor
  • André Almeida Santos
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Ishmael Butler surgiu no final da década passada com um novo projecto, Shabazz Palaces, quase quinze anos após ter brindado o mundo com uma das maravilhas do hip-hop da década de 1990, o magnífico Blowout Comb dos Digable Planets. Os Shabazz Palaces estão numa rota alternativa do hip-hop da atualidade e continuam a lançar álbuns que são um desafio a todos os níveis, da métrica aos ambientes, algures entre o jazz e a dissonância de alguma música concreta criada na década de 1970. Ou então não é nada disto e é algo bem mais difícil de descrever, também é uma possibilidade.

Em 2017 editaram não um, mas dois álbuns (Quazarz vs. The Jealous Machines e Quazarz: Born On A Gangster Star, ambos na Sub Pop), em volta de uma personagem chamada Quazarz que habita um mundo ficcional que é uma visão transformada dos Estados Unidos que Ishmael vê. Embora haja esse ponto em comum, percorrem rotas diferentes, também elas distintas dos anteriores Black Up (Sub Pop, 2011) e Lese Majesty (Sub Pop, 2014) (ou indo mais atrás, a bomba que é Of Light de 2009, editado pelos próprios Shabazz Palaces). Regressam esta terça, dia 31, a Lisboa, como parte da celebração dos 23 anos da Galeria Zé dos Bois: que se moverá para o Lux para esta ocasião especial. Depois do concerto a festa continua, com DJ sets de Panda Bear, Pega Monstro e Black b2b Stasera. Na quinta feira vão estar em Braga, no GNRation (com Ângela Polícia). E antes da farra falámos com o senhor Butler.

Qual a razão para lançar dois álbuns em simultâneo e criar um universo em volta desta personagem fictícia chamada Quazarz?
Já tinha um álbum pronto e já estava no calendário da editora [Sub Pop], pronto para ser lançado. Só que continuámos a trabalhar em estúdio e gravámos mais algumas canções, para um álbum futuro. A editora gostou dos novos temas e decidimos em conjunto que seria uma boa ideia lançar os álbuns em simultâneo. Afinal existia uma história que os ligava, um conceito e assim creio que o mundo em volta de Quazarz poderia ter mais atenção.

E quem é Quazarz? Porque é que teve a necessidade de criar uma personagem ficcional para as suas canções?
Não penso que seja tanto uma questão de um “porquê”. Para mim estas coisas surgem naturalmente, nascem e desenvolvem-se a partir do facto de fazer música. Posso estar a criar um tema e de repente tenho essa ideia. E como sinto que o tema da alienação e a necessidade de sermos, ou pelo menos, mostrarmo-nos como diferentes, está muito presente, achei que faria sentido criar o Quazarz para explorar isso. Era uma possibilidade para eu também explorar diferentes perspetivas e opiniões sobre os temas que surgem nos álbuns. E também uma forma de eu encontrar uma catarse e formas de resolver questões que tenho com o que estava a sentir a ver no mundo que me rodeia.

E que questões eram essas?
Materialismo, o individualismo, a nossa dependência na tecnologia e na necessidade de entretenimento, o culto das celebridades e de muita gente procurar ser uma, a sexualização das crianças…

E constrói as canções com um sentido direccionado para essas temáticas?
Crio um sentido poético que pode ter diferentes significados, tudo depende de quem as interpreta e como o faz. Prefiro criar imagens poéticas que estão prontas para a interpretação, que despertem a emoção e a capacidade de análise e observação das pessoas.

Os dois álbuns são algo distintos. Born On A Gangster Star tem ambientes e linguagens próximos do jazz e The Jealous Machines está próximo da música ambiental. Porquê essa separação?
Não foi pensada previamente, aconteceu por causa de circunstâncias normais: mudei de cidade e de estúdio. E quando mudas de ambiente e começas a escrever algo novo, tudo muda. O espaço é diferente, o tempo é diferente, o equipamento é diferente e faz com que tudo soe de outra forma.

Fico com a sensação de que Born On A Gangster Star funciona como um álbum de memórias, enquanto “The Jealous Machines” é uma reflexão directa sobre o mundo à sua volta.
É uma interpretação possível e creio que pode ser visto mesmo assim. Mas não pensei nessas coisas antes de as fazer… Mas agora que falas nisso, faz algum sentido a tua interpretação.

E esse mundo anda muito à volta de uma visão contemporânea dos Estados Unidos.
Sim, é algo que acontece quando faço música, tento sempre criar uma visão diferente, com emoções e sentimentos que reflitam o que sinto no presente. E queria que estes álbuns fossem atuais e que falassem sobre o momento atual. Isso era importantíssimo.

É também por isso que os seus álbuns, instrumentalmente, são tão diferentes entre si?
Tem a ver com duas coisas, essencialmente: mudar o ambiente onde tu gravas as canções e com o facto de gostar de me desafiar a cada novo álbum. Mas não entro no estúdio com essa ideia de mudança presente, é algo que surge naturalmente no processo de criação, por se estar numa nova atmosfera em que estás a tentar criar algo de novo. E também há outras pessoas à tua volta e isso cria um ambiente completamente diferente, novo.

Num dos primeiros versos de “The Jealous Machines” canta: “We talk with guns, man, guns keep us safe”. Como é que vê os Estados Unidos hoje em dia e que mudança vê a acontecer?
Não vejo só mudança nos Estados Unidos. Em todo o mundo sinto que se está cada vez mais a usar a força militar para resolver conflitos. Tudo para por uma questão de força, de morte. É a forma como em todo o lado vemos as coisas a acontecer, os governos a comportarem-se. Os Estados Unidos estão à frente nisso. Queremos exercer a força e agora temos o Donald Trump no comando, um maníaco, totalmente engolido por si próprio, lunático, um palhaço, que tem uma das forças militares mais fortes do mundo nas suas mãos. E está a tornar-se perigoso. E começo a sentir que as pessoas não gostam dos americanos noutros países.

Como assim?
Começam a sentir que não devem gostar dos Estados Unidos, porque é um país egomaníaco, muito autocentrado. E estão conscientes de que a nossa presença começa a não ser muito saudável. Há uns tempos na Dinamarca quiseram-me esfaquear porque eu era americano. Só por isso, porque me identificaram como americano.

E acha que a sua música continua a ser importante para lutar contra o poder instaurado?
Eu não aceito isso como regra, o poder como regra. Para mim escrever é um elemento importante da minha vida, que depois passa para a cultura, para a sociedade. Essa ideia de luta não é a força matriz do meu trabalho. É uma realidade, porque existe, mas não é a minha verdade. E eu quero lidar com a verdade na minha música. E a realidade é maléfica, distorcida e muitas vezes surreal, pior do que a ficção científica. E creio que falarmos em verdade, mais do que a realidade, é uma forma de compreendermos isso e de, talvez, mudar as coisas.

Concerto em Lisboa na terça, 31, às 22h30. Bilhetes a 15 euros. Mais info aqui. Em Braga, os Shabazz Palaces atuam na quinta feira, dia 2, no GNRation, às 22h, bilhetes a 7€. Info aqui.

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