Sida

Realizador de “120 batimentos por minuto” quer mais ação na luta contra a SIDA

O realizador de "120 batimentos por minuto" retrata, no filme, a geração que, nos anos 90, lutava contra a SIDA. Robin Campillo diz que agora o ativismo é diferente.

Robin Campillo é o realizador de "120 batimentos por minuto"

NEILSON BARNARD / POOL/EPA

O realizador franco-marroquino Robin Campillo, que na quinta-feira estreia em Portugal o filme “120 batimentos por minuto”, considera que falta vontade política e consciencialização da sociedade para acabar com a epidemia da SIDA.

Distinguido em fevereiro com o Grande Prémio, o Prémio da Crítica e o Prémio Queer no Festival de Cinema de Cannes, “120 batimentos por minuto” traça um retrato de uma associação ativista – a Act Up – e de uma geração que enfrentou os primeiros anos de epidemia da doença, em França, nos anos de 1990.

Robin Campillo contou à agência Lusa, em Lisboa, que fez este filme a partir das memórias daquela época, porque foi militante da Act Up, e participou nas ações de esclarecimento e protesto junto de políticos, laboratórios farmacêuticos e da sociedade civil.

Em paralelo à atividade da Act Up, Campillo filmou ainda uma geração que lutou contra o desespero e medo de morrer, com um sentido de comunidade em torno de uma causa comum.

“Foi um momento poderoso. Claro que foi horrível, porque os nossos amigos estavam a morrer no pior momento da epidemia, mas, ao mesmo tempo, estávamos tão felizes por estarmos juntos, por querermos mudar a forma como a doença era entendida, querermos mudar a sociedade. Foi muito importante para mim poder partilhá-lo com os espectadores, foi um momento importante da minha vida, do ponto de vista emocional, político e ético”, disse o realizador.

Com Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois e Adèle Haenel, nos principais papéis, “120 batimentos por minuto” foi eleito o melhor filme do Festival de San Sebastian, está nomeado para os Prémios Europeus de Cinema e pode estar a caminho dos Óscares, já que é o candidato de França a uma nomeação para melhor filme estrangeiro. Nos Estados Unidos, foi já eleito o melhor filme estrangeiro de 2017, pelas associações de críticos de cinema de Nova Iorque e de Los Angeles.

“Não fiz o filme para dar uma aula para a geração mais nova. Eu fiz este filme de uma forma egoísta, porque queria entender o que se passou na época, e o cinema ajuda-nos a entender momentos particulares (…) O filme foi um grande sucesso em França. Não tentei agradar a toda a gente, tentei fazer um retrato honesto deste coletivo”, disse.

Atualmente, Robin Campillo ainda mantém contacto com a Act Up, embora a associação tenha menor expressividade, porque a relação da comunidade francesa com a doença também mudou, e porque os tempos de ativismo são outros.

“As pessoas agora na Internet conseguem ser bastante radicais, mas estão muito sozinhas nesse extremismo. É muito fácil ser radical no Facebook ou no Twitter, mas há 25 anos, na Act Up, antes de nos confrontarmos com os políticos, com os laboratórios, confrontávamo-nos entre nós. Tínhamos de criar um cérebro comum, um discurso político comum contra a epidemia, para alertar a sociedade”, recordou o realizador.

Robin Campillo lembrou que há novas estratégias para travar a transmissão da infeção, nomeadamente a denominada profilaxia pré-exposição (Prep), mas lamentou que não exista “uma vontade política para acabar com a epidemia”.

“Espero que haja uma maior consciencialização da sociedade para que pressionem a acabar com esta epidemia”, sublinhou.

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