Cinema

“Spielberg”: um documentário que (quase) só chove no molhado

O canal TVCine 2 exibe esta terça-feira o documentário "Spielberg", rodado por Susan Lacy para a HBO, sobre a vida e os filmes de Steven Spielberg. É um filme de fã, para os fãs, diz Eurico de Barros.

Autor
  • Eurico de Barros

Admirativo, elogioso e deferente. São três palavras que definem o documentário biográfico “Spielberg”, de Susan Lacy, rodado para a HBO, que o TVCine2 exibe terça-feira, dia 12 (22.00), incluído na rubrica Documentários: Retratos Pessoais. Lacy, que é próxima de Steven Spielberg, ao ponto de o ter conseguido entrevistar para este filme, parte do princípio que o realizador de “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” é um “génio” incontestado, e “Spielberg” é dedicado a confirmá-lo, recorrendo para o efeito a depoimentos de familiares, actores que dirigiu (Tom Hanks, Ralph Fiennes, Leonardo DiCaprio, etc.), colaboradores próximos como John Williams, críticos, colegas de ofício e companheiros de geração (George Lucas, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, etc.) e muitos, muitos excertos das suas fitas. É um filme de uma fã, para os fãs.

É significativo que Lacy dê muito destaque aos maiores sucessos de bilheteira e crítica realizados por Spielberg, e frise a importância fulcral – e sobejamente conhecida – de alguns deles para o cinema em si, e para a indústria cinematográfica americana, caso de “O Tubarão” (1975), com o qual o realizador inventou o “blockbuster” moderno, e de “Parque Jurássico” (1993), que revolucionou a tecnologia dos efeitos especiais digitais; e omita, ou mencione só de raspão, os seus insucessos e os seus piores filmes, como “Sempre”, “Hook”, “Amistad” ou o pavoroso “As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne”. (Uma das vítimas dessa omissão é, paradoxalmente, “Cavalo de Guerra”, um dos melhores filmes recentes do cineasta, embora tenha sido maltratado pela crítica e um falhanço comercial.)

Um ou dois dos críticos ouvidos pela realizadora põem ténues reservas aqui e ali, nomeadamente, ao execrável “A Cor Púrpura”, de 1985, com o qual StevenSpielberg tentou provar que também sabia fazer filmes “sérios”. Mas no geral, “Spielberg” não tem uma perspectiva desapaixonada e objectivamente analítica e crítica sobre Steven Spielberg, o conjunto da sua obra e o seu impacto positivo e negativo no cinema americano (neste último caso, avulta a infantilização dos filmes fantásticos e de ficção científica, que depois de “Encontros Imediatos do 3º Grau” e sobretudo de “E.T. — O Extraterrestre”, passaram a ficar infestados de UFOs, criancinhas, adolescentes estridentes e extraterrestres fofinhos, que se vieram juntar á praga de robôzinhos “cute”inspirados pelos de “Guerra das Estrelas” ).

O papel de Spielberg como produtor de filmes de outros realizadores, bem como de séries de televisão, e a sua influência sobre aqueles, é igualmente tratado pela rama e fica por fazer o balanço (que inclui coisas muito boas como outras inominavelmente más) dessa faceta do autor de “Os Salteadores da Arca Perdida”, também ele perdido no aluvião de elogios às suas virtudes artísticas, técnicas, comerciais e humanas. Desperdiçou-se assim uma boa oportunidade para destacar e escrutinar o Spielberg — “empresário”, o Spielberg que é por si só quase “um estúdio de cinema”, como muito bem notou David Thomson na entrada que lhe dedica no seu monumental “The New Biographical Dictionary of Film”.

“Spielberg” pouco traz de novo a quem conhece com um mínimo de pormenor a biografia e os filmes de Steven Spielberg, e o seu percurso no cinema americano. Os pontos de maior interesse do documentário, para além de algumas histórias soltas, caso da maneira como o jovem e precoce Spielberg se conseguiu insinuar na Universal, são a pormenorização da forma como o realizador transportou aspectos mais dolorosos da sua vida pessoal e familiar para vários dos seus filmes, passando-os por um filtro ficcional e narrativo; e os “home movies” da família Spielberg e os excertos das ambiciosas e algo elaboradas fitas que realizava com familiares, amigos e colegas da escola. É o caso de “Firelight”, de 1964, no qual está o germe de “Encontros Imediatos do 3º Grau”.

O principal mérito do filme é mostrar como o cinema de Steven Spielberg resume, sinaliza e amplifica as maiores qualidades e os grandes defeitos do cinema americano – ou melhor, do cinema americano de estúdio feito para o grande público. No primeiro caso, estão, por exemplo, um sentido único, inigualável, do espectáculo e da narração visual, recorrendo quase somente à linguagem cinematográfica pura; uma vocação para contar histórias de alcance universal, para emocionar, inquietar, espantar e arrebatar, e para tratar a aventura, a acção, o terror e o maravilhoso em grande escala; ou ainda a capacidade de combinar arte, indústria, técnica e comércio com sucesso. No segundo, encontramos um infantilismo e um sentimentalismo que comprometem a vontade de realismo e o desejo de seriedade; uma escassa capacidade para lidar com ideias mais complexas; uma visão da História e do mundo tendencialmente idealizante, simplista e truncada, e uma tendência para o didactismo moralista.

A certa altura deste documentário de duas horas e meia, menciona-se a primeira curta-metragem de Steven Spielberg, “Amblin’”, de 1968, um soberbo condensado de cinema em estado puro com 26 minutos, que mais tarde daria o nome à produtora do realizador e lhe valeu um contrato com a Universal, tinha ele apenas 22 anos. “Amblin’” seria depois lançado como complemento de “Love Story”, de Arthur Hiller, o filme mais lucrativo de 1970 nos EUA. Além do talento e do sentido comercial, os grandes realizadores também têm muitas vezes a sorte do seu lado.

[“Spielberg” passa esta terça feira, dia 12, no canal TVCine 2, às 22h]

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