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Há em Rodrigo Leão um espírito notório de partilha e comunhão. Nota-se na fusão de géneros e instrumentos, da pop à chanson, do tango à música clássica. Nota-se na forma humilde e afável com que fala da sua carreira. Ou ainda nas diversas parcerias que abraça. “A minha música vive muito dessas colaborações e sou eu que habitualmente as procuro”, esclarece.

O convidado desta vez é Ólafur Arnalds. Faz música triste e minimal que associamos com facilidade aos países nórdicos. É simultaneamente fria e aconchegante. Compôs um tema para a banda-sonora de Hunger Games e tem um pequeno disco chamado Living Room Songs. Enquanto neva lá fora, contemplamos pensativamente a lareira numa sala de estar. É um cenário possível.

Ólafur é um explorador de sons e um multi-instrumentista. Rodrigo Leão colaborou anteriormente com Ludovico Einaudi e Ryuichi Sakamoto. Entre os três convidados, os dois anteriores e este, há um elo comum: o piano. Aparentemente, é pura coincidência, dado que Rodrigo Leão já trabalhou também com guitarristas ou inúmeras vozes e nutre grande admiração pela obra do músico islandês. Mas o ex-Madredeus não esconde a paixão pelo instrumento. “Gostava de tocar melhor piano”, confessa. “E liga bem com o que temos em palco neste momento: o acordeão, as cordas e os sintetizadores”, acrescenta.

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O primeiro concerto da dupla decorre esta noite (segunda-feira) em Coimbra, no Teatro Académico de Gil Vicente (21:30h). Seguem-se, nos próximos dois dias, a Casa da Música, no Porto, e o CCB, em Lisboa. Os alinhamentos estarão notoriamente divididos em três partes fundamentais.

Uma das fases conta com Rodrigo Leão e um quarteto de cordas. Em nome da aproximação à música de Ólafur Arnalds, tocarão essencialmente temas “instrumentais, minimalistas e melancólicos”. Contudo, junta-se também Ângela Silva, que colaborou com Leão há uma boa dezena de anos. Canta em latim, mas será uma abordagem mais eletrónica aos temas anteriormente interpretados. Dada a descrição, que implica algum regresso à música mais erudita, mais ancestral dos primeiros discos, poderá ser uma espécie de Ave Mundi Luminar mais eletrónico? Comparação aceite. Dado que haverá composições originais, seguirão esta tendência? Veremos.

O quarteto de cordas permanece depois em palco, mas o protagonista é outro. Acompanhado também por um vocalista, Ólafur Arnalds apresentará essencialmente temas do seu repertório. Mas, em nome do diálogo, é possível que “Sleepless Heart”, retirado de A Mãe, de Rodrigo Leão, surja também no alinhamento.

Primeiro separados, depois em conjunto. Os dois músicos partilham o palco na fase final, tocando composições de ambos, como “Mar Estranho” (do português) ou “Tomorrow’s Song” (do islandês). E ainda um novo tema de Rodrigo Leão, com o título provisório de “Slower”.

Umas trocas de e-mails e dois dias de ensaios. A preparação destes concertos resumiu-se praticamente a isto. Como tal, existirá inevitavelmente um lado fortemente espontâneo. É uma caraterística típica da carreira do antigo membro dos Sétima Legião: “A música que eu faço é muito intuitiva. Eu sou um auto-didata, aprendi a tocar com os amigos”. Mas é também um aspeto fundamental na transposição dos temas para palco. A música de Rodrigo Leão tem marcas de liberdade, improviso, cumplicidade e, nos momentos mais marcantes, de uma candura triste muito especial e solene.

Este é mais um capítulo.

 

Texto: João Torgal