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Passos Coelho e Cavaco Silva têm uma relação de altos e baixos desde outros tempos políticos. Os dois foram obrigados a uma convivência por quatro anos e a convivência semanal foi-se transformando em proximidade nas posições. Depois de uma primeira metade do mandato mais conturbada, o Presidente da República acabou por dar garantias ao Governo: o mandato é para levar até ao fim. E foi isso mesmo que prometeu há três anos.

No discurso da tomada de posse do Executivo de Passos Coelho, Cavaco deixou duas certezas a Passos Coelho: iria proporcionar uma “cooperação ativa” com o Governo que iria durar o tempo de uma legislativa. Mas mais do que isso, deixou um aviso: “Não podemos falhar”. E por fim elaborou um longo caderno de encargos que começava no cumprimento do Memorando, mas que ia além.

Num discurso de vinte minutos, Cavaco Silva traçava o cenário que iria começar depois da tomada de posse:

“O Governo que inicia funções tem responsabilidades acrescidas, uma vez que os sacrifícios pedidos são enormes, as expectativas geradas são extremamente elevadas e as exigências impostas não têm paralelo na nossa História recente. Não podemos falhar, sob pena de a situação se tornar economicamente irreversível e socialmente insustentável”

Os últimos três anos foram também três anos de pedidos de consensos. Cavaco dizia que só daria posse a um governo de maioria absoluta, depois da queda do Executivo minoritário de José Sócrates e foi isso que fez. Mas queria mais. Disse-o logo no primeiro discurso a este Governo: “No ciclo político que agora se inicia é fundamental que o Governo tenha presente que o facto de dispor de maioria no Parlamento não deve afastá-lo da busca de compromissos alargados a outras forças políticas”, dizia. Recado dado e repetido. Além do pedido de compromissos, Cavaco levava desenhado um autêntico cadernos de encargos para a legislatura.

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Sacrifícios – Foram muitos. Por isso, o Presidente deixava o seu pedido bem traçado: “A justiça na repartição dos sacrifícios tem de ser uma marca da governação que agora se inicia”.

Corrupção – “Há também que adotar uma atitude firme no combate à corrupção e às situações de promiscuidade entre interesses privados e o interesse público”.

Contas externas – Fazia parte dos objetivos: corrigir a balança externa. E Cavaco alertava que na área económica era preciso ajudar as empresas exportadoras: “Tudo o que puder contribuir para a redução do défice externo, quer pela diminuição da nossa dependência face a bens importados quer pelo aumento sustentado das nossas quotas exportadoras, tem de ser valorizado em função daquele objectivo”.

Empreendedorismo – Se o Memorando de entendimento se focava muito no aspeto financeiro, Cavaco dizia que por isso era preciso ir mais além e apostar na “criação de condições favoráveis ao desenvolvimento da iniciativa privada, à inovação, ao empreendedorismo e à motivação dos jovens para a actividade empresarial e para a aquisição de qualificações e competências”.

Concorrência – Na área da Economia, o Presidente da República dizia que, numa altura de financiamento difícil, era preciso “reafectar o crédito disponível para as pequenas e médias empresas competitivas”, sobretudo as empresas do setor de bens transacionáveis e de preferência para investimentos com recursos nacionais.

Justiça – Fora das áreas económicas e financeiras, mas sempre de olho nelas, o Presidente defendia que era necessário investir na “melhoria do sistema judicial, na qualificação dos recursos humanos e no aproveitamento e valorização das vantagens comparativas e naturais de que Portugal dispõe nos chamados sectores tradicionais e em áreas como o turismo e bem-estar, a agricultura e a floresta”.

Uma lista de tarefas nas quais o Presidente queria que o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas se concentrasse e que, muitas delas, têm feito parte do discurso do primeiro-ministro. Em suma, o Presidente dava o mote para um discurso algumas das intervenções seguintes feitas pelo próprio líder do Governo:

“Reafirmo o que já disse em várias ocasiões: não podemos continuar a viver acima das nossas possibilidades, a gastar mais do que aquilo que produzimos e a endividar-nos perante o estrangeiro”.