Cento e vinte segundos. Foi o que separou a valente Suíça dos penáltis. A Argentina está viciada no drama e voltou a resolver tarde, como havia feito contra o Irão, quando Messi fez aquele golaço no último suspiro. Desta vez o salvador foi Angel Di María, o anjo de magia dos argentinos, que lá conseguiu marcar ao 11.º remate do encontro, o que, segundo a Opta, é o recorde de remates por parte de um argentino em Mundiais (aumentaria para 12). Este passou a ser também o golo mais tardio dos argentinos numa Copa, superando o de Bertoni contra a Holanda (115′), em 1978.

Então e Messi? Calma, senhores. A parte mais difícil do golo de Di Maria foi desenhada pelo canhoto, qual arquiteto do pacto com a perfeição. Faltavam dois minutos para a angustia da história dos penáltis. Messi recebeu no meio e começou a galgar metros rumo à baliza inimiga. Parecia imparável. O primeiro defesa que se colocou à frente acabou sentado a vê-lo passar. Depois, em vez se agarrar ao legado de Maradona e desejar resolver tudo sozinho, ofereceu a Di María, que surgia pelo lado direito. O ex-extremo do Benfica colocou no poste mais distante, ao estilo de Thierry Henry, e levou os argentinos à loucura no Itaquerão.

Messi igualava Kempes com quatro assistências para golo em Mundiais, ficando apenas atrás de Verón (5) e Maradona (8), pois claro. Ao todo, foi a 25.ª assistência para celebrar o seu 90.º jogo pela seleção alviceleste. Mais: o canhoto está diretamente envolvido em 71,4% dos golos da Argentina nesta Copa. Se isto não é levar uma equipa às costas…

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A primeira parte foi uma desilusão. Sabella teima em jogar com jogadores lentos e pouco ambiciosos no meio-campo. Mascherano e Fernando Gago bloqueiam o jogo desta equipa, que tinha tudo para ser sedutora. Mas não é. Falta algo que até tem no banco: um Enzo Pérez para acelerar e investir em aventuras pelo meio-campo rival. Faltava também outro tipo de ação por parte dos laterais, Zabaleta e Rojo, que Sabella prefere ver sossegados no seu canto para não desposicionar a defesa.

O plano suíço passava por manter a organização e fechar à chave o espaço entre o meio-campo e a sua defesa, onde Messi gosta de navegar para tabelar com os colegas. Behrami e Inler foram essenciais neste processo. À solidez defensiva juntava-se a fé no que Mehmedi e Shaqiri poderiam fazer na frente. E a coisa até ia correndo bem. Enquanto os argentinos tinham a bola, os suíços esperavam a sua oportunidade para contra-atacar, e até foram eles quem estiveram mais perto do golo na primeira parte.

Perto da meia hora de jogo, Shaqiri bailou à frente de um adversário na linha e ultrapassou-o, optando por um cruzamento rasteiro depois. Inteligentemente, Xhaka deixou-se ficar (não entrou para a confusão), deu um passo ao lado e ficou aberto: rematou rasteiro para grande defesa de Romero com o pé esquerdo. Depois foi Dmric que surgiu em boa posição pelo lado esquerdo e tentou picar a bola por cima de Romero, que hesitou em sair — não aprendeu a lição de ontem com Neuer. Foi um bocado ambicioso. Um bocadinho…

A Argentina deu sempre muito espaço a Shaqiri, o extremo que havia assinado um tremendo hat-trick contra as Honduras, o que acabou por ser decisivo para a passagem aos “oitavos”. O intervalo chegava e Argentina nem vê-la. Sim, teve mais bola (60%) mas não soube inventar espaço. Messi estava apagado. Os suíços apostavam na sua austeridade, sem grande aventuras, rigor defensivo e tentativa de ataques rápidos. Sensatos.

A segunda parte foi completamente diferente. Sabella deu ordens aos laterais para subirem mais, o que resultaria no recuo (quase fatal) da Suíça. Mas o discernimento não morava para os lados argentinos. Ou então alguém soltou o rumor de que Gabriel Batistuta estaria a jogar a avançado. O número de cruzamentos daquela gente foi algo inenarrável (52). Rojo até era o mais jeitoso nessa tarefa. O golo, esse, nunca chegaria. Higuaín, de cabeça, e Messi, com uma bomba de fora da área que rasou a trave, foram os mais comprometidos com a missão. Começavam a soar os primeiros alarmes. O relógio, esse implacável objeto que não olha para trás, não parava a sua marcha e começava a cheirar a prolongamento.

O quarto prolongamento desta Copa chegaria. A lentidão e desacerto dos argentinos já o fazia prever. Atenção a este dado: desde que ganhou o Mundial de 1986 com Maradona, a Argentina acabou por necessitar de recorrer a prolongamento em metade das eliminatórias que disputou. Metade.

A Suíça parecia ter perdido as forças na segunda parte, mas surgiu com outra cara no prolongamento. A defesa voltava a estar equilibrada, deixando menos espaço para os toques curtos dos argentinos. Zabaleta e Rojo, que veria o amarelo que o impossibilita de jogar os “quartos”, já não estavam com a mesma frescura. O árbitro foi chamado a apitar mais vezes: faltas e mais faltas.

O segundo momento alto deste prolongamento surgiu antes do intervalo. Shaqiri e Mehmedi decidiram esquecer que estavam a lutar por uma vaga nos “quartos” e começaram a deliciar os quase 65 mil adeptos nas bancadas do Itaquerão, em São Paulo. Ora davam uma “cueca”, ora puxavam com a sola e paravam a olhar para o adversário. Até a roulette de Zidane desceu dos céus para maravilhar aquela gente. O futebol também é isto: estavam a divertir-se e a divertir os outros. Por uns segundos esqueceram que aquilo era uma coisa muito a sério. E ainda bem.

Dzemaili ainda teve a oportunidade de ser o herói após o golo de Di María, mas aprendeu como é viajar do céu ao inferno num segundo. No último suspiro, o médio do Nápoles cabeceou uma bola ao poste e na recarga não conseguiu acertar com a baliza. É caso para dizer que os deuses estão do lado desta Argentina. A Suíça não atinge os quartos-de-final desde 1954. O destino tem destas coisas.