O bastonário da Ordem dos Médicos saudou esta terça feira o “recuo” do Ministério da Saúde na publicação do Código de Ética, sem alguns dos pontos que foram apontados como motivos da última greve dos médicos.

Em declarações à agência Lusa, José Manuel Silva considerou que, com a publicação em despacho da versão final do Código de Ética, cuja primeira versão levou os médicos a apelidá-lo de “lei da rolha”, o Ministério da Saúde “soube reconhecer as razões da Ordem dos Médicos e da própria sociedade que respondeu com grande veemência, em defesa da transparência do SNS”.

“Apraz-nos registar que isso foi reconhecido pelo Ministério da Saúde”, adiantou.

O Código de Ética para os profissionais da saúde, um dos motivos da última greve dos médicos, foi publicado em Diário da República e prevê que possa haver comunicação de irregularidades ou erros que possam prejudicar os utentes.

Segundo o diploma, o sigilo profissional pode ser quebrado para “comunicação de irregularidades, nomeadamente situações que prefigurem erros ou omissões que possam prejudicar os destinatários da atuação da instituição”.

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O despacho, publicado na noite de segunda-feira, prevê também a quebra de sigilo “perante a obrigação de comunicação ou denúncia de factos relevantes às instâncias externas administrativas reguladoras, inspetivas, policiais e judiciárias”.

“Naturalmente este código ainda não é perfeito, algumas questões que não foram consideradas. No entanto, pensamos que há um espaço para a continuação do diálogo e a construção de um entendimento positivo que salvaguarde os interesses dos doentes”, disse.

José Manuel Silva ressalvou que gostaria que, neste documento, tivesse ficado explícita “a reafirmação que a mais importante missão e a primeira responsabilidade das instituições de saúde e dos profissionais é para com os cidadãos e doentes”.

“Gostaríamos que tivesse ficado explícito que a comunicação dos profissionais às respetivas ordens não viola o direito de sigilo e de confidencialidade do código de conduta ética”.

A Ordem, no entanto, considera que “esse direito está devidamente salvaguardado no seu articulado”.

O texto inicial de projeto Código de Ética referia que, “salvo quando se encontrem mandatados para o efeito, os colaboradores (…) devem abster-se de emitir declarações públicas, por sua iniciativa ou mediante solicitação de terceiros, nomeadamente quando possam pôr em causa a imagem [do serviço ou organismo], em especial fazendo uso dos meios de comunicação social”.

Outro ponto polémico do documento dizia respeito às ofertas a receber pelos profissionais de saúde, que inicialmente se propunha que fossem encaminhadas para instituições de solidariedade.

No despacho agora publicado em Diário da República, permite-se aos profissionais receberem ofertas entregues “por força do desempenho das funções (….) que se fundamentem numa mera relação de cortesia e que tenham valor insignificante”.

O Sindicato Independente dos Médicos considerou já, numa nota publicado no seu site, que este documento final “não merece reparos sindicais e jurídicos, sem prejuízo de se dever atentar com toda a cautela os resultados futuros das aplicações (…) do despacho em cada estabelecimento”.

O despacho, aliás, prevê que cada entidade do Ministério da Saúde desenvolva cada princípio do Código “de acordo com as suas especificidades”.